sexta-feira, 16 de maio de 2014

'Os Malavoglia', e o mar a ressonar, no fim da ruela

"A Maruzza, ao ouvir bater a primeira hora da noite, entrara em casa depressa, para por a mesa; as comadres foram-se retirando pouco a pouco, e como a própria aldeia que ia adormecendo, ouvia-se o mar ressonar ali perto, no fim da ruela, e de vez em quando bufar, como quem se vira e revira na cama. Somente lá embaixo, na taverna, onde se avistava a luzinha vermelha, continuava o barulho e ouvia-se o vozear do Rocco Spatu, para quem todos os dias eram dias de festa."
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"As estrelas piscavam com mais força, como se tivessem sido acessas, e os Três Reis cintilavam sobre os farilhões com os braços em cruz, como Santo André. O mar ressonava no fim da ruela preguiçosamente e a longos intervalos ouvia-se o rumor de alguma carreta que passava na escuridão, aos solavancos sobre as pedras, e seguia pelo mundo que é tão grande que se alguém pudesse caminhar e caminhar sempre, dia e noite, nunca mais chegava, e também havia gente que andava pelo mundo aquela hora, e não sabia nada do compadre Alfio, nem da Providência, que estava no mar, nem da festa de Finados - assim pensava a Mena na varanda à espera do avô.
O avô assomou mais duas ou três vezes a varanda, antes de fechar a porta, para olhar as estrelas que brilhavam mais do que deviam, e depois resmungou: - "Mar bravo!"
O Rocco Spatu esgoelava-se à porta da taverna diante da luzinha. - "Quem canta, seus males espanta" - concluiu o patrão ´Ntoni." - trechos do romance "Os Malavoglia", de Giovanni Verga (páginas 40, 41 e 42)

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