sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vestidos

Por Wilame Prado

Cláudia não notou. Tinha 6 anos. Ela e Diego – na época com 9 – fizeram amor pela primeira vez naquele dia.
As mães conversando sobre não sei o quê na sala de estar; e os dois no quarto, completamente vestidos, ela deitada na cama, ele deitado em cima dela, esfregando-se desajeitadamente.
Diego adorou a sensação, mas nunca mais teve coragem de vê-la novamente. Cláudia não soube o que aconteceu ao certo, mas sentiu saudades dele por um bom tempo.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

'Os Malavoglia', e o mar a ressonar, no fim da ruela

"A Maruzza, ao ouvir bater a primeira hora da noite, entrara em casa depressa, para por a mesa; as comadres foram-se retirando pouco a pouco, e como a própria aldeia que ia adormecendo, ouvia-se o mar ressonar ali perto, no fim da ruela, e de vez em quando bufar, como quem se vira e revira na cama. Somente lá embaixo, na taverna, onde se avistava a luzinha vermelha, continuava o barulho e ouvia-se o vozear do Rocco Spatu, para quem todos os dias eram dias de festa."
...
"As estrelas piscavam com mais força, como se tivessem sido acessas, e os Três Reis cintilavam sobre os farilhões com os braços em cruz, como Santo André. O mar ressonava no fim da ruela preguiçosamente e a longos intervalos ouvia-se o rumor de alguma carreta que passava na escuridão, aos solavancos sobre as pedras, e seguia pelo mundo que é tão grande que se alguém pudesse caminhar e caminhar sempre, dia e noite, nunca mais chegava, e também havia gente que andava pelo mundo aquela hora, e não sabia nada do compadre Alfio, nem da Providência, que estava no mar, nem da festa de Finados - assim pensava a Mena na varanda à espera do avô.
O avô assomou mais duas ou três vezes a varanda, antes de fechar a porta, para olhar as estrelas que brilhavam mais do que deviam, e depois resmungou: - "Mar bravo!"
O Rocco Spatu esgoelava-se à porta da taverna diante da luzinha. - "Quem canta, seus males espanta" - concluiu o patrão ´Ntoni." - trechos do romance "Os Malavoglia", de Giovanni Verga (páginas 40, 41 e 42)

Disritmia

Por Wilame Prado

Na rua. Meio cigarro fumado. Oito carros e duas motos passaram na avenida. Uma canção inteira do Radiohead tocada no rádio. Duas luzes acessas no prédio ao lado. Vários pensamentos. Várias reflexões. Apenas uma conclusão: tragadas causam disritmia. No parque. Mais de duzentas pessoas já passaram por você no velho e bom parque de fazer caminhadas. Um atropelamento de cachorro acarreta em trânsito na avenida. Uma velhinha acaba de ser roubada. O caipira caiu no golpe da loteria. Na praça. Os frequentadores da praça continuam traficando e usando drogas. No ônibus. As circulares lotadas. A visão de uma moça levemente parecida com a ex-namorada causa um abalo sintomático. Disritmia. Na empresa. Muitos cafezinhos. Copos descartáveis preenchidos com água mineral. O serviço de todo um dia jogado pela mesa. A funcionária da sala ao lado – que de vez em quando senta em seu colo – está com um lindo decote. Disritmia. Na sala do chefe. Convocação para se dirigir até a sala do chefe. Urgente. Por um segundo, tudo de errado que você fez na empresa vêm à sua cabeça. Disritmia.