sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte
o sol caía
o moleque recolhia o par de chinelo-trave
o shortinho curto da moça tapava o paraíso
a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo
e eu,
enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,
tardei

Tardei porque não queria te ouvir, ver ou sentir
Tardei porque são desesperadoras as tardes de domingo
Assim como são desesperadoras qualquer tarde, de qualquer dia
Tardei para evitar a fadiga
Apaziguar os ânimos
Esfriar a cabeça
Amenizar a situação
Tardei para ver se, longe de mim, a casa ficasse em ordem

Lembro-me bem
Estava, sentido aos céus, no lado oeste da cidade de pequeno porte,
Quando tardei
E lá fui deixando a máquina me levar,
Marcha macia, brisa na cara, paraíso escondido, brincadeira acabada, sujeira varrida

No tardar, subi
Vi poeira leve e inofensiva pelo retrovisor
E estava mais determinado que nunca: o mundo ficou para trás
Cenário e gente serviam de retardatários
Tardei enquanto o sol caía, enquanto a tarde caía e tardava também
Subi em linha reta e notei que havia chegado a hora de parar
Dois pontos, uma linha, ponto de partida, ponto de chegada

Uma cerca, afinal, impedia-me de seguir adiante
Tardei mais um pouco por ali
Era voltar para trás ou tardar
Era encarar a sobrevivência ou me perder de vez
Em pensamentos, em frases soltas, em parágrafos imaginários,
Em sonhos daquilo que já foi e não foi e nunca será

Tardei e deixei, aos poucos,
não as obrigações
As saudades sim
Levarem-me para trás
Regredir nem sempre é sinônimo de fraqueza
Pode ser sintoma de experiência, pode ser fortificação

E hoje continuo tardando
Mais sereno
Sem tanto sacolejar as pernas
Olhando até mesmo as tardes de domingo passar
Azulejos refrescantes do alpendre da casa grande
Cadeiras de área, na área
Em outros pontos cardeais da cidade de pequeno porte 

E sem me esquecer jamais do dia em que deixei o carro me levar até o ponto final
Tendo na memória o chinelo-trave, o shortinho e a vassoura, e as pessoas
Os caminhos, as pessoas e os cenários nunca são iguais, retardatários

De vez em quando, retomo os trajetos de outrora, sempre mudados
Em tardes de domingo, feriados, dias atípicos de semana
No lado oeste da cidade de pequeno porte,
Onde tardei

E continuarei tardando
O sol caindo e tudo
Mas eu voltando

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Mais amor, mais porra*

Por Wilame Prado

Mais amor, porra. Desligue a TV, esta merda, e pratique mais amor, fabrique mais porra. Ou então se contente sozinho. Preferindo ver a Lua. Sem se importar se o futuro está vindo. Ou se, em um segundo, ele vai acabar. Continue preferindo ver a Lua. Aqui, bem perto do cemitério, onde as pessoas são sabiamente quietas. Enquanto isso, no badalado centro da cidade, vários cérebros estão em férias, comendo, bebendo, digerindo e cagando. Estômagos funcionam e não podem sair de férias. Cérebros, nem sempre. Ainda na parte central da cidade, surge aquela pergunta: “Você desligou o forno?” E se a casa explodir? O gás acabar? O arroz integral queimar? O leite de soja derramar? Apenas se contente com as coisas da filosofia. Se erro, existo, e tá perdoado. Mas voltando aos passeios na cidade onde os muros gritam, outra pergunta: “O que é arte?” Pichação é arte. É também protesto. E ameaça. E sinônimo de indignação. Arte é tudo isso, e só isso. Se existe, é para se fazer a arte. E é só com arte que se pode tentar mudar as coisas. Tacar as pedras das calçadas nos políticos não é arte. É imitá-los e, portanto, licenciá-los. É melhor continuar, então, em silêncio, não votando. E desejando sempre mais amor, mais porra, porra!


*Texto inspirado em frases pichadas em muros marigaenses e produzido para a matéria "Mecanismos do Fazer da Arte Moderna e Contemporânea", da professora Maria Lucinete Sifuentes, do curso de pós-graduação de Arte na Contemporaneidade, da UniCesumar