quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sofia Coppola sente tédio

A solidão existente dentro de um carro potente e de luxo. O desespero do calor do asfalto da rodovia sem muito trânsito para quem não sabe muito bem aonde ir. A conquista do tédio dentro de um hotel bacana, participando de festinhas disputadas, tomando as melhores bebidas, tomando as melhores mulheres. Dependendo do grau de vazio da vida da pessoa, o tédio pode superar tudo, ainda que, pela noite, duas loiras lindas façam um polidance particular, apresentação aplaudida no final com pálpebras sendo fechadas e a entrega para o sono sinalizando um tchau para as moças.

O tédio mora longe, porém, em um despertar se deparando com a filha assinando o branco do braço engessado do pai – fruto de mais um tombo em meio ao trote vacilante do bêbado. “Um lugar qualquer” (2010), filme de Sofia Coppola, Johnny Marco (interpretado por Stephen Dorf) conquista o que os nativos americanos sempre quiseram: dinheiro, carro, mulheres, e ganhou de brinde o tédio. Mas no meio do caminho também teve como presente uma filha, uma antítese do tédio. Onze anos. Linda. Angelical. A personificação de tudo o que os pais devem sentir quando são acarinhados por filhos.

Johnny Marco é ator de Hollywood. E é difícil imaginarmos, nós os seres comuns e não estrelas do cinema, que esses caras também sintam tédio. O preço da liberdade, afinal de contas, é o tédio? A rotina sempre foi uma vilã na vida das pessoas. Dizem que por causa da rotina ficamos entediados, enojados do dia a dia – sempre tão mediano. Mas o ator, sem muita rotina, com seu carro potente, com sua longneck sempre gelada, com opções variadas de mulheres servidas como se estivessem em um cardápio, também sente um tédio lascado quando senta no sofá do hotel ou quando dá um milhão de voltas em uma estrada circular aparentemente no meio do deserto – cena inicial do filme e que já traduz o que teremos dali pra frente na película: uma história sobre o tédio. Para muitos, um filme entediante.

A intensidade do tédio deve variar conforme a profissão, os afazeres, a idade e as características pessoais de cada um. Lembro-me do tédio acercando minha vida ainda na infância. Na época não sabia que aquela sensação se chamava tédio. Mas realmente era entediante quando já não havia o que fazer: os moleques não estavam na rua, jogar baralho ou videogame sozinho não rolava e até a lição de casa já tinha sido feita. Hoje o tédio continua presente, só que em um grau mais desesperador, sufocante e deprimente. Conversa para outras crônicas…

É no sofá onde passamos a maior parte do tempo quando estamos entediados. Sim, porque na cama geralmente vamos para dormir. E dormir não é entediante. É bom. Os tediosos têm insônia. Sono não combina com tédio. Quem dera conseguíssemos dormir quando nos sentíssemos entediados. O padeiro sente tédio. O jornalista também. Até o médico deve sentir tédio. Pelos filmes que já assisti da diretora, certeza que Sofia Coppola também sente um tédio abominável.

Se Johnny Marco sente tédio, todos podemos sentir, oras! Mas no filme “Um lugar qualquer” há uma dica preciosa para que possamos, quem sabe, nos livrar por alguns instantes do tédio: apreciar a ingenuidade e bondade da filha de onze anos enquanto ela se sacia com sorvete de chocolate em cima da cama de um hotel luxuoso italiano, ou então quando repousa a cabeça nos ombros do pai entregue ao cansaço, mas completamente segura e livre do tédio por estar ao lado dele.

*Crônica publicada dia 11 de janeiro de 2012 no Diário de Maringá.