domingo, 26 de agosto de 2012

terceiro sorriso


e parece até um milagre o abrir de olhos
o levantar, cambaleante, da cama
mas não é milagre
é só mais um corpo humano,
fraco e debilitado
que já pede o clássico repositor hidroeletrolítico
e vale até um sorriso, em meio a tanta confusão mental,
simplesmente pelo fato de não ter nascido na Faixa de Gaza
vale o segundo sorriso por saber que,
mesmo com tantas estripulias,
ainda está vivo, andando
e com olhos claros que brilham em frente ao espelho
o terceiro sorriso ele quase dá, sentindo o cheiro dela
que impregnou em sua pele, que se faz outra vida em forma de aroma
que lhe faz rememorar tantos sabores, tanta maciez na pele,
mas o terceiro sorriso logo se esvai, assim como a água do seu banho
indo ralo abaixo
mesmo com tantos problemas neurológicos
envolvendo uma amnésia noturna assustadora
recorda-se, em recortes, de dois corpos na praça,
no motel, no táxi e, finalmente, um adeus taxativo,
uma lágrima representando o quanto ela gosta dele
e também o quanto não o quer mais
o terceiro sorriso nunca mais existiu
mas ele se reconforta na temperatura do banho
sabendo que é difícil fazer atentados mártires
depois de trinta minutos de um bom banho quente
e pela enésima vez naquele dia,
sem sorriso, sem açúcar, com café
botou para tocar no youtube
“Simple Twist of Fate”, de Dylan

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