segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Sem ver o mar, sem ver G.

Sonhei com G., minha avó. 

Ela me olhava severa. Seus olhos tinham som de voz, tinham cobrança, tinham amargura. Olhos que falavam. 

A gente não consegue permitir ou desautorizar as pessoas a invadirem nossos sonhos. Simplesmente entram e esbravejam olhares de reprovação. 

Não acordei de sonhos intraquilos. Dormi bem, mesmo estando mais cansado que de costume após longas horas passadas dentro de um carro, em uma viagem rumando ao mar. 

Mas não vi o mar.

Choveu, fez frio e senti uma melancolia, sentado num banquinho, com um copo meio cheio meio vazio, pensando na temperatura da água do mar e na areia invadindo os vãos entre os dedos do meu pé.

E se G. estava no fundo do mar? E se minha avó estava querendo dizer alguma coisa ao invadir meu sonho e me direcionar olhos falantes?

Faz tanto tempo que não vejo o mar. Faz tanto tempo que não vejo G.

domingo, 26 de agosto de 2012

terceiro sorriso


e parece até um milagre o abrir de olhos
o levantar, cambaleante, da cama
mas não é milagre
é só mais um corpo humano,
fraco e debilitado
que já pede o clássico repositor hidroeletrolítico
e vale até um sorriso, em meio a tanta confusão mental,
simplesmente pelo fato de não ter nascido na Faixa de Gaza
vale o segundo sorriso por saber que,
mesmo com tantas estripulias,
ainda está vivo, andando
e com olhos claros que brilham em frente ao espelho
o terceiro sorriso ele quase dá, sentindo o cheiro dela
que impregnou em sua pele, que se faz outra vida em forma de aroma
que lhe faz rememorar tantos sabores, tanta maciez na pele,
mas o terceiro sorriso logo se esvai, assim como a água do seu banho
indo ralo abaixo
mesmo com tantos problemas neurológicos
envolvendo uma amnésia noturna assustadora
recorda-se, em recortes, de dois corpos na praça,
no motel, no táxi e, finalmente, um adeus taxativo,
uma lágrima representando o quanto ela gosta dele
e também o quanto não o quer mais
o terceiro sorriso nunca mais existiu
mas ele se reconforta na temperatura do banho
sabendo que é difícil fazer atentados mártires
depois de trinta minutos de um bom banho quente
e pela enésima vez naquele dia,
sem sorriso, sem açúcar, com café
botou para tocar no youtube
“Simple Twist of Fate”, de Dylan

domingo, 5 de agosto de 2012

o último dia

é, é
um dia olhei pro sol
e cego não fiquei
apenas enxerguei
de repente, toda cegueira se curou
a miopia não voltou
eu pude ver tudo, todos
os segundos, o tempo, a eternidade
pude ver o mundo, e o além-mundo
senti que algo estava errado
quando passei a ver
concluí que algo precisava ser feito
mas antes disso precisava compreender,
saber porque tudo estava errado
então, visualizando o último peixe da última camada do oceano mais longe
tendo contato com o último índio da tribo mais longe do mundo,
aquele mesmo índio que um dia viu todos da sua tribo morrer
e que estava só esperando a minha chegada para se entregar à morte
e até dando os ouvidos para escutar o que as santas ainda vivas tinham a me contar
naquele vilarejo pobre, árido e inóspito
não sem antes também de ouvir uma confissão lacrimejante do demônio arrependido
estampado, dentre outras figuras humanas,
no cidadão josé, que estuprou, tocou fogo e matou a menina de dez anos
no cidadão joão, que massacrou e ceifou vidas de jovens louros e felizes num acampamento de férias
na cidadã maria, que jogou os seus dezessete descendentes na lata de lixo, embrulhados com as notícias do dia no jornal
tudo isso para ter uma síntese de noção da força, da fraqueza
e da capacidade que o ser humano tem de odiar, de amar
de machucar, de carinhar
senti-me pronto, finalmente
após ver tudo, ouvir todos,
recebi outro presente metafísico:
recordei-me dos meus primeiros meses
na barriga de alguma mãe
e foi lá, descobri com a lembrança,
que fui noticiado do feito que me aconteceria aos 33 anos de idade:
olharia para o sol, enxergaria tudo, obteria as respostas e seria incumbido dessa minha missão
dar a boa nova, fazer minha palavra ser ouvida e meu texto ser lido por todos que ainda sobrevivem
mas aquele dia foi igual aos outros dias
acordei para trabalhar, tomei café preto de manhã, não consegui pentear direito o cabelo,
liguei o computador, já no trabalho
trabalhei,
sorri
fiquei sério
gargalhei
enganei e me deixei ser enganado
ganhei cabelos brancos
ingeri alimentos pouco saborosos
ingeri álcool, à noite
comi gordura trans
assisti TV
acompanhei uma partida de futebol
li títulos de matérias e vi fotos no jornal
li, ainda, páginas poucas de um romance sonífero
resisti ao sono
ouvi Ipod
fiz amor
tomei um cálice de vinho
perdi o sono
encontrei o sono
o perdi novamente
e percebi, no auge de uma insônia que já perdurava quatorze horas
que nunca mais o sol nasceria
que nunca mais eu veria a luz do dia
que nunca mais ouviria um bom dia de um outro ser humano
que, embora perdoado,
nunca mais escaparia do castigo por ter esquecido a minha missão
a de anunciar a boa nova, a de fazer minha voz ser ouvida nos quatro cantos, a de fazer o meu texto se tornar sagrado e também lido pelos homens e mulheres desse mundo, lendo com os olhos assim como se come com a boca o melhor dos banquetes
só me restou enxergar o negro em uma solidão eterna, em uma insônia sem fim
e me recordar das palavras precisas do índio, que me alertou:
'viva o seu dia, sua noite, seu tempo, como se fosse o último dia, a última noite, o último tempo, porque, na realidade, realmente estamos sempre nos acréscimos de uma mortal e sempre emergente sobrevivência'
depois daquele dia, passei a eternidade toda pedindo perdão ao fluido amniótico
e querendo, mas não conseguindo, pois tinha desaprendido a escrever e o som da minha voz era mudo,
na eterna solidão da insônia da noite negra e vazia, contar a boa nova

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O consolo da neve - John Fante

"Os olhos dele saltaram de espanto. Soltei-o, ele se virou e entrou no ônibus. O veículo partiu, vomitava cheiro de óleo enquanto desaparecia na nevasca. Enfiei as mãos nos bolsos e me pus em marcha pela Pearl Street, caminhando pesadamente em meio à neve suja daquela tempestade despropositada. Mas havia um consolo na neve, apesar de tudo. Ela escondia vocês dos outros, as suas sardas, orelhas de abano e altura deplorável, e você passava por outros fantasmas na desolação, com as cabeças curvadas, olhos escondidos, a culpa e a inutilidade profundamente protegidas ali dentro."

- trecho das páginas 68 e 69 do livro "1933 foi um ano ruim", de John Fante (publicado em 2008 pela L&PM Pocket, , mas original e postumamente em 1985).

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sofia Coppola sente tédio

A solidão existente dentro de um carro potente e de luxo. O desespero do calor do asfalto da rodovia sem muito trânsito para quem não sabe muito bem aonde ir. A conquista do tédio dentro de um hotel bacana, participando de festinhas disputadas, tomando as melhores bebidas, tomando as melhores mulheres. Dependendo do grau de vazio da vida da pessoa, o tédio pode superar tudo, ainda que, pela noite, duas loiras lindas façam um polidance particular, apresentação aplaudida no final com pálpebras sendo fechadas e a entrega para o sono sinalizando um tchau para as moças.

O tédio mora longe, porém, em um despertar se deparando com a filha assinando o branco do braço engessado do pai – fruto de mais um tombo em meio ao trote vacilante do bêbado. “Um lugar qualquer” (2010), filme de Sofia Coppola, Johnny Marco (interpretado por Stephen Dorf) conquista o que os nativos americanos sempre quiseram: dinheiro, carro, mulheres, e ganhou de brinde o tédio. Mas no meio do caminho também teve como presente uma filha, uma antítese do tédio. Onze anos. Linda. Angelical. A personificação de tudo o que os pais devem sentir quando são acarinhados por filhos.

Johnny Marco é ator de Hollywood. E é difícil imaginarmos, nós os seres comuns e não estrelas do cinema, que esses caras também sintam tédio. O preço da liberdade, afinal de contas, é o tédio? A rotina sempre foi uma vilã na vida das pessoas. Dizem que por causa da rotina ficamos entediados, enojados do dia a dia – sempre tão mediano. Mas o ator, sem muita rotina, com seu carro potente, com sua longneck sempre gelada, com opções variadas de mulheres servidas como se estivessem em um cardápio, também sente um tédio lascado quando senta no sofá do hotel ou quando dá um milhão de voltas em uma estrada circular aparentemente no meio do deserto – cena inicial do filme e que já traduz o que teremos dali pra frente na película: uma história sobre o tédio. Para muitos, um filme entediante.

A intensidade do tédio deve variar conforme a profissão, os afazeres, a idade e as características pessoais de cada um. Lembro-me do tédio acercando minha vida ainda na infância. Na época não sabia que aquela sensação se chamava tédio. Mas realmente era entediante quando já não havia o que fazer: os moleques não estavam na rua, jogar baralho ou videogame sozinho não rolava e até a lição de casa já tinha sido feita. Hoje o tédio continua presente, só que em um grau mais desesperador, sufocante e deprimente. Conversa para outras crônicas…

É no sofá onde passamos a maior parte do tempo quando estamos entediados. Sim, porque na cama geralmente vamos para dormir. E dormir não é entediante. É bom. Os tediosos têm insônia. Sono não combina com tédio. Quem dera conseguíssemos dormir quando nos sentíssemos entediados. O padeiro sente tédio. O jornalista também. Até o médico deve sentir tédio. Pelos filmes que já assisti da diretora, certeza que Sofia Coppola também sente um tédio abominável.

Se Johnny Marco sente tédio, todos podemos sentir, oras! Mas no filme “Um lugar qualquer” há uma dica preciosa para que possamos, quem sabe, nos livrar por alguns instantes do tédio: apreciar a ingenuidade e bondade da filha de onze anos enquanto ela se sacia com sorvete de chocolate em cima da cama de um hotel luxuoso italiano, ou então quando repousa a cabeça nos ombros do pai entregue ao cansaço, mas completamente segura e livre do tédio por estar ao lado dele.

*Crônica publicada dia 11 de janeiro de 2012 no Diário de Maringá.