segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Domingo. Ela. Eu

Ela não entende porque eu preciso comemorar o gol que os outros times da capital levam. Eu não entendo como ela não gosta de torcer contra o Corinthians. Ela não entende porque eu sempre quero mais uma latinha. Eu não entendo como ela consegue beber leite de soja. Ela entende nada sobre eu estar cansado mesmo sem ter feito nada. E eu desconheço o entendimento para tanta força dessa mulher. Meus beliscões e “carinhos” fortes são vistos como estranhos. Acho estranho da parte dela também ficar me chamando carinhosamente com vozinha de criança. O prazer de relar em sua pele a garrafa gelada de água é desprazer imenso pra ela. Não consigo controlar a raiva quando ela puxa minha unha pra cima. Na TV, ela não quer ouvir e nem ver nada sobre futebol. Então eu quero zapear só em jogos e comentários esportivos. Eu não quero ver sangue, heróis que sabem tudo vestidos de branco e outros heróis que sabem tudo também só que vestidos de preto. Então ela quer seriados médicos e de investigação. Ela quer sair, dar uma volta, espairecer a cabeça. Só que eu não quero passear no shopping, uma das únicas opções naquele momento. Ela quer Banzé Lanches porque não é gorduroso e a salsicha é de primeira. Então eu quero Bolotas Lanches, com gordura pingando e refrigerante grátis. Ela quer dormir…e eu quero mais. Eu não quero dormir, mas ronco demais – pelo menos é o que ela diz. Eu prefiro móveis conservados e menos pelos brancos em minhas roupas pretas, e ela quer companhia felina, carinho e risadas só de olhar pro gato que parece porcelana chinesa quando está com sono. Eu quero camisa velha do Juventus de Turim pra sair em uma noite fresca de domingo pelas ruas calmas e com chão molhado, após mais uma chuva de Primavera, de Maringá. Ela simplesmente não deixa eu me vestir do jeito que quero, e sugere-impõe a camiseta nova estampada. Quero luz, visão da janela e emoção regada a nuvens, estrelas, sol, quase um mar. Ela quer persiana fechada, escuro, edredon e que eu ainda busque seu travesseiro no quarto. Ela quer jogar fora o resto da pizza. Eu quero ver se cabe mais um pedaço de pizza em meu estômago, mesmo com as formigas e com a eminente diarreia. Ela só pode com os de picolés de fruta, uva, morango, acerola, essa intolerância à lactose acaba com ela. E eu me acabo nos de leite, milho verde, mamão papaia, creme, leite condensado, coco. Ela quer ler os encartes promocionais da Pernambucanas. Eu quero que ela leia agora a matéria que escrevi, mas não digo nada pra não parecer um desesperado por sua leitura. De novo na TV, ela quer o Pânico pra simplesmente dar risada do Jô Suado, do Melhor do Melhor do Mundo e do japonesinho que imita a Sabrina Sato. Eu finjo querer café filosófico e concerto no Theatro Municipal de São Paulo, mas também dou risada demais e deixo no programa tosco e suave. Ela não quer que acabe logo o domingo porque no outro dia é segunda-feira e tem que trabalhar. Eu também não. E vamos dormir concordando com pelo menos alguma coisa. (crônica publicada dia 6 de novembro no jornal O Diário do Norte do Paraná).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

a exclusão é necessária

a exclusão é necessária
nesse mundo cheio de gente, animais, plantas e bichinhos virtuais
a exclusão é necessária
via de regra, excluídos ficamos, a gente
é que...
somos não de plástico
sem perfumes trazidos do paraguai, somos lá não muito cheirosos
e nem podemos ser chamados de filhinhos,
assim como cães e gatos
quando crianças, tudo é ensinado pelos pais, pela vida juvenil
menos como lidar com a exclusão
o ensino vem errado, ao contrário
é tanta proteção, tanto abraço apertado, tanto beijo no pai, na mãe e no tio também
que todos nos esquecemos,
ou pelo menos fingimos esquecer,
de dizer o mais importante
dizer que seremos excluídos, e que isso ocorre simplesmente porque é necessário
naquela véspera de natal o menino torceu para que eles o chamassem para entrar
ganhar presente nem era o mais importante
apenas entrar para o aconchego do lar
latinhas de cerveja para os adultos, tubaína para as crianças
ele só queria ser chamado para entrar
menino não sabia que a exclusão é necessária
onde vive um não cabe dois, onde estão três não cabe cinco
coração de mãe o quê...
passeios noturnos com a bicicleta Monark pelas ruas da cidade pequena
é véspera de natal, e as luzes das salas das casas estão todas acessas
mesmo sendo verão, um frio nas pernas peladas, bermuda não vai esquentar
é verão, é calor, mas então por que os pelinhos dos braços insistem em arrepiar
uma vontade de chorar, lágrimas prontamente enxugadas pelo vento
corre bicicleta! corre
o coração pequeno se aperta, ficou quente a região do peito
lembranças fortes incapazes de se apagarem
e então essa é uma das primeiras lições aprendidas na marra pelo menino sobre exclusão
adulto, ele nem sabe por que se lembra disso justamente no dia do seu aniversário
voltasse no tempo, pediria, quando completasse anos na meninice, um só presente:
que alguém lhe abrisse o jogo, o alertasse
de que a exclusão é necessária.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

é preciso voltar

é. 
acabou. 
mas acredita em ciclos? 
no resto que vira sobrevivência ao pássaro e depois semeadura?
então confie em mim: um dia voltarei. 
é preciso voltar. 
é como se, de propósito, sempre esquecesse o livro de cabeceira, 
o isqueiro de estimação
ou um teco da carne da minha bochecha
por entre as almofadas do teu maldito sofá laranja.
é preciso voltar.

domingo, 4 de setembro de 2011

Paciência e excesso de amor próprio

Agoniza, mas não morre.
Um dia eu voltarei.
Um dia ela voltará.
Mas quantas vidas precisaremos morrer para o reencontro?
Um dia, quando acordei na pele de um monge velho tibetano, quase morri de tédio.
Depois aprendi a esperar, de tanto observar uma rocha do mar virar areia.
Passaram-se mil anos e alguns meses.
E então eu era mulher de malandro, sofredora, que toma e gosta de tapa na cara
Arduamente aprendi a me amar, também.
E então mais duzentos anos separaram vidas.
Estou aqui, hoje, sem ver o mar, sem tomar o tapa.
Amando demais quem não deveria,
incluindo-me no primeiro lugar da lista,
ao lado de deus,
egoísta.
Numa sala de espera sem fim, sem remédios para o tédio
e sem acreditar que um dia eu apanhei
que um dia eu esperei o grão de areia nascer da montanha.