terça-feira, 6 de abril de 2010

Brasil, mostra tua cara prateada

Wilame Prado



Se você, caro leitor, ainda não viu, sugiro que procure a notícia e a foto de Vanderlei Pires, morador de rua que foi atacado covardemente enquanto dormia, por alguém que literalmente o pintou da cabeça aos pés com um spray de cor prateada. Olhe bem para a cara do mendigo prateado, sinta a humilhação e a tristeza estampada em seu semblante e agora veja se não concorda comigo: é ou não é a cara do Brasil?


Fico tentando entender, praticamente em vão, porque alguém, na madrugada fria de Porto Alegre, dá-se ao trabalho de gastar um spray de tinta em um pobre coitado, que nada mais fazia do que dormir o sono dos injustiçados, o sono dos miseráveis, um sono provavelmente recheado de pesadelos (que em nada superam a vida real) de uma pessoa que não tem sequer uma cama macia para descansar de noite.

Não bastasse a tinta, uma testemunha viu alguém urinando nos pés do morador de rua, que, ao acordar, todo prateado, foi prestar queixa na delegacia. Com sua cara tristonha, lamentavelmente pintada, lembrando até aqueles artistas que fingem ser estátua nos centros das cidades, Vanderlei apenas diz ter certeza de uma coisa: a pessoa que fez isso com ele não tem coração.

É, Vanderlei. Falta coração neste país. Falta gente que te acorda no meio da noite, oferecendo um colchão para você não pegar friagem. Sobra gente querendo sacanear os mais fracos, gente que, talvez querendo se mostrar para a turma de amigos babacas, pinta o corpo de moradores de rua todo de cinza.

Cenas como essa, Vanderlei, são comuns neste país lotado de gente que sai pelas madrugadas a exterminar mendigos, prostitutas e travestis. Seu rosto todo pintado, Vanderlei, sua cara de choro, com a barba por fazer, com o incômodo cheiro forte da tinta entrando em suas narinas, é o rosto do Brasil, que também não gosta de ver índios dormindo nas ruas.

Nessas horas, é difícil, Vanderlei, mas tente agradecer por não ter sido queimado vivo por grupo de jovens delinquentes, assim como em 1997 aconteceu em Brasília com aquele índio Pataxó, o Galdino de Jesus, que Deus o tenha.

Não quero te desanimar, Vanderlei, mas, infelizmente, pouca coisa vai acontecer com a pessoa que te deixou todo prateado. Ela pode até ser encontrada, mas não vai sofrer um dia sequer numa cela gelada na prisão. Esse ser humano (humano?) provavelmente doará cestas básicas para uma entidade carente e tudo ficará certo. Mas você não vai comer nem um pouco da farinha que vem na cesta.

Vanderlei, você tem a cara triste do Brasil. E, lamentavelmente, assim como não acredito que atos ensandecidos como esses não cessarão tão já, também não tenho fé que o nosso país, um dia, será representado por um lindo rosto sorridente, e sem uma gota sequer de spray.


Crédito da imagem: www.ultimosegundo.ig.com.br

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