sexta-feira, 2 de abril de 2010

Isabella foi esquecida*

Wilame Prado


Na madrugada de sexta-feira última para o sábado, fiquei espantado com a reação do público que estava acompanhando, do lado de fora, o julgamento do casal Nardoni. Ao saber que Alexandre e Anna Carolina ficarão uns pares de anos presos, a multidão simplesmente perdeu o controle do bom senso e caiu na folia.

O carnaval brasileiro, que consome os dois primeiros meses do ano, teve um replay nas primeiras horas daquela madrugada em que muitos brasileiros acompanhavam pelos noticiários (verdadeiros circos jornalísticos) o desfecho dessa história lamentável envolvendo a morte de Isabella.

E por falar na garota de sorrisos largos que o Brasil conheceu somente por fotografias, será que a galera, em meio aos rojões, lembrou-se que, justiça seja feita ou não, Isabella está morta?

Não teria sido muito mais decente todos terem retornado às suas casas em silêncio, sem provocar o raivoso spray de pimenta da Polícia Militar, meditando, rezando, orando ou simplesmente pensando na garota que foi vítima dos atos inescrupulosos feitos por adultos frios e calculistas?

Louvável é o povo e sua reunião. Bom seria se a pressão pública se fizesse presente não apenas no caso Isabella Nardoni – campeão de mídia e audiência –, mas também no caso do João, da Maria, do José, enfim, de todos os brasileiros que foram lesados de alguma forma e que clamam por justiça.

Seria bacana também se o povo tivesse essa disposição (provalvemente, muitos ali presentes no julgamento do casal Nardoni precisavam levantar cedo no outro dia e, mesmo assim, abdicaram do descanso noturno para participar do julgamento) para pressionar os políticos que governam, mandam e desmandam neste país. Seria legal se as sessões semanais das muitas Câmaras de Vereadores recebessem tal público caloroso e sedento pela verdade, pelas coisas certas.

Fico pensando, quando desses episódios, no poder que a grande mídia, principalmente a televisiva, tem na vida das pessoas. Será que se não houvesse tido tanta atenção da mídia pelo caso Nardoni ocorreria, mesmo assim, tanta comoção por parte do público? Acho que não.

Para a mídia, tudo é uma questão de pauta e audiência. A menina negra da favela que é estuprada e espancada diariamente pelo pai alcoólatra talvez receba não muito mais do que uma nota de rodapé da imprensa. Nessas horas, vendo o “shownarlismo” rolando solto e público aplaudindo de pé os animais do circo da vida sendo extremamente expostos, fico triste com a hipocrisia que fede no ar.

Mas, fiquemos tranquilos: hoje, terça-feira, depois da novela, tem a final do Big Brother Brasil. O caso Isabella será esquecido por um bom tempo. Na quarta-feira pela manhã, a discussão nos transportes coletivos e nos corredores das empresas será pautada pelo merecimento ou não do Cadu ter finalmente conquistado o prêmio do BBB de R$ 1 milhão e meio.