terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Silêncio crônico*

Wilame Prado


Todos os dias, o mundo grita. Há pouco silêncio no ar. Mas é quase imperceptível o fato de que estamos rodeados por uma série de ruídos. É que nos acostumamos à companhia do barulho. Com isso, é como se não estivéssemos mais sós em nossas vidas.

Só que, de vez em quando, em momentos raros hoje em dia é verdade, ficamos frente a frente ao silêncio. É quando algumas verdades são ditas pela inquietude. É quando finalmente nos quedamos a pensar na vida.

O silêncio gerado pela ignorância é malvado, e é capaz de interromper qualquer ruído que nos cerca. O sujeito, quando é ignorado, mesmo estando em meio a uma guerra de barulhos, com bombas caindo em seus pés e cornetas instaladas em seus ouvidos, querendo ou não acaba dando ouvidos ao silêncio cortante da rejeição pré-formulada e, na maioria das vezes, certeira.

De que adianta querer ludibriar o silêncio providencial gerado quando somos ignorados? Não, meu pobre rapaz, se ela não ligou é porque infelizmente não te quer mais. Não, minha querida donzela, se nunca mais eles apertaram sua campainha é porque sua ausência já nem é percebida. Não, meu quixoteano escriba, se a editora não te respondeu o e-mail é porque não tem interesse algum em publicar teu livro.

Dizem que as palavras estrategicamente proferidas doem mais do que um tapa na cara. Pois eu digo que mais doloroso ainda é quando não há nem tapas nem palavras. Pensando bem, temos é muita sorte de, nos dias de hoje, vivermos num mundo que grita. Afinal, se convivêssemos mais tempo com o silêncio sincero e real, estaríamos fadados a um racionalismo muito cruel.

Caso ouvíssemos a toda hora o silêncio, os números de suicídios aumentariam, o casamento seria um costume cultural visto nos livros de História e a amizade seria tema constante de uma literatura nostálgica. Aberta e sinceramente, aproximar-nos-íamos de outras pessoas somente em busca dos interesses materiais.

Viveríamos numa sociedade brutalmente sincera. O silêncio de cada uma das pessoas seria como um talismã, um guru que viveria sussurrando em nossos ouvidos.

Enquanto, porém, o silêncio não consegue gritar mais alto do que o mundo, enquanto a britadeira alienada de nossas vidas barulhentas não é desligada, pelo menos, meus caros e poucos leitores, eu vos dou o silêncio da coluna “Crônico”.

Portanto, aproveitem suas terças-feiras, talvez agora um pouco mais silenciosas, sem minhas palavras. Mas não pensem que eu os ignoro. Apenas saio um pouco de cena para tentar entender o que significam as incessantes verdades que os silêncios insistem em berrar para mim intermitentemente.