quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os fortes também choram*

Wilame Prado


Era fevereiro. As temperaturas em Maringá atingiam facilmente os 40º C. Já vestida com aquela beca esquisita, uma faixa azul separando o negrume da vestimenta, ela acreditava estar sentindo o maior calor de toda sua vida. Mas não desmaiaria. Considerava-se uma garota de fibra. Não seria um calorzinho que a derrubaria.

Com seu senso crítico e um natural modo azedo de ver como as coisas ocorrem nesta vida, mesmo estampando um sorriso para a foto, esboçava mentalmente uma análise negativa da simplória decoração do local.

Depois de discursos prontos e inevitavelmente clichês do reitor, de professores e do paraninfo da turma, finalmente era chegada a hora de anunciar os nomes dos “neograduados” – essa foi a palavra utilizada pela cerimonialista ao se referir aos formandos sedentos por canudos e diplomas.

Adriana Cruz. Antonio Albuquerque. Bruna Almeida da Silva. Carlos Eduardo Porto. Os nomes de seus colegas de classe iam sendo chamados em ordem alfabética. Quando começaram a chamar os nomes que se iniciam com a letra “E”, seu coração começou a disparar mais fortemente.

Edna Miori Moreira. Era seu nome. Tinha certeza. Emoção a mil. Descendo as escadas, notava maquiagens manchadas de garotas emocionadas com a conquista. Mas ela não choraria. Era forte e estava feliz por finalmente se livrar daquela chatice de graduação.

Diferentemente da maioria dos formandos, Edna não ganhou faixa, apito, carnaval ou festa da plateia na hora em que pronunciaram seu nome. É que, de conhecidos, apenas sua irmã, seu cunhado e sua prima prestigiaram o evento. E isso a deixou um pouco triste. Mas só um pouco, pois era uma garota forte e não se deixava levar facilmente pela tristeza.

Pronto. Colara o grau. Acabou essa palhaçada, pensava aliviada. Finalmente poderia tirar aquela roupa esquisita. Foi quando a cerimonialista resolveu prestar uma homenagem aos pais dos alunos. Pra quê? Imediatamente, Edna começou a se desesperar. E aquilo que estava lhe afligindo durante todo o dia foi traduzido em lágrimas. Incontidas mil lágrimas.

Cadê aquela força? E a aquela menina que não se abala? Cadê? Foi como um muro de Berlim indo ao chão. A ferida que mais doía em seu coração fora tocada. Enquanto via a todos os pais dos formandos de pé, ouvindo uma bela canção tocada em homenagem a eles, Edna bem que queria, mas não encontrou seu pai nem sua mãe na plateia.

Com aquela esperança boba, olhava para o portão de entrada do salão. E nada deles chegarem. Poderia ser um atraso. Mas não. Os pais de Edna realmente não prestigiariam sua colação de grau. Uma decepção só. Conseguindo retomar o fôlego, a garota forte mentiu para suas amigas ao lado alegando que suas lágrimas eram de felicidade. Mesmo não querendo admitir, os fortes também choram. O rosto borrado e a beca molhada de Edna são provas disso.