sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Incansável escritor*

Wilame Prado

Desde quando me conheço por gente que consome literatura, o nome do escritor Moacyr Scliar está presente em minha cabeça. Prestes a completar 73 anos, esse gaúcho, de fala tranquila e que aparenta estar vivendo uma parceria eterna com a serenidade, hoje coleciona uma das maiores, senão a maior, bibliografia produzida no Brasil, com mais de oitenta títulos publicados.

Fiz umas contas. Um dos primeiros livros publicados por Scliar (que também é médico com pós-graduação concluída em Israel) data de 1968, ou seja, há 42 anos. É um livro de contos chamado “O carnaval dos animais”. Se pegarmos o número exato 80 e dividirmos por 42 anos, chegaremos à conclusão matemática de que o incansável escritor produziu uma média de quase dois livros por ano. E isso sem parar um ano sequer de escrever, atuando como médico especialista em saúde pública e ainda dando aulas na universidade.

Só que, diferentemente dos títulos conquistados por um time qualquer de futebol, na literatura a quantidade não é, em si, um fator predominante. O escritor J. D. Salinger, por exemplo, é até hoje apreciado por uma única obra, que inclusive tem um preço salgado na livraria e que continua vendendo bem, chamada “O apanhador no campo de centeio”, publicada no longínquo ano de 1951. Posso ainda citar outro escritor renomado, que fez uma literatura de primeira, mas que não produziu muito, o ítalo-americano John Fante.
Com isso, porém, não estou querendo dizer que Moacyr Scliar produz livros que não há qualidade. Pelo contrário. Dos quase dez livros que li deste autor, poucos eu declaradamente não gostei. Aliás, gostar, eu gostei de todos. Mas o gosto, em sim, não significa dizer que o livro é bom ou ruim.
É que, em algumas obras, senti-me distante da trama fictícia pelo fato de o autor mergulhar de cabeça nas questões gauchescas ou então judaicas (um dos melhores livros do Scliar, chamado “O centauro no jardim”, foi incluída na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center).

É justamente essa capacidade que Scliar tem em produzir alucinadamente livros bem escritos que me chamou atenção e que me fez coçar os dedos para escrever esta crônica. Outro motivo que também me instigou a discorrer sobre Scliar se deu por conta de seus últimos prêmios conquistados na literatura.

Com seu romance “Manual da paixão solitária” (Companhia das Letras, 2008), o gaúcho levou para casa mais um prêmio Jabuti de melhor romance e também de melhor livro de ficção do ano de 2009. Neste livro, Scliar confecciona uma trama de 216 páginas inspirada numa única passagem bíblica: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos Er, Onan e Shelá, e de uma mulher chamada Tamar. Eu recomendo.