quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deus te ama muito*



                    Wilame Prado
Antes de ligar sua motocicleta na garagem do prédio, olhou para cima e notou que havia, contrastando com o céu azul daquele verão tórrido maringaense, nuvens acinzentadas que prenunciavam garoa ou, pelo menos, pancadas dispersas de chuva.

Mas não tinha outro jeito. O ar pesado cheirando a amônia do apartamento – consequência das urinadas e defecadas do gato trancafiado naqueles cinquenta metros quadrados de moradia – obrigava-o a visitar urgentemente o supermercado mais próximo para renovar a areia do banheiro (caixinha) do felino solitário e mijão.

Nenhuma gota de água caiu do céu naquela tarde abafada de janeiro. Já dentro do supermercado, na avenida Cerro Azul, sentiu uma imensa alegria ao ver, na banquinha de DVD´s, que, incrível e finalmente, encontrara o filme “O Siciliano”, de Michael Cimino (o mesmo diretor de “O franco atirador”, protagonizado por Robert de Niro).

Com módicos R$ 10,90, comprou o longa-metragem, estreado em 1987, inspirado no livro homônimo de Mário Puzo que narra a história real de Salvatore Giuliano, um anti-herói siciliano que desafiou a igreja, o governo e a temida Máfia. Há mais de quatro anos, quando consumiu o livro de Puzo em dois dias alucinantes, depois de tê-lo descoberto e comprado no Sebo Cultura, tentava, em vão, baixar o filme pela internet.

Portanto, sentiu-se iluminado naquele momento, segurando, numa das mãos, um saquinho com quatro pães, e na outra, o pacote de areia para gatos, quando olhou, em meio a inúteis filmes, a capa laranja com um sujeito garboso – o ator Christopher Lambert interpretando o corajoso Giuliano, um siciliano íntegro, cheio de princípios. Não havia ninguém por perto. Mesmo assim, correu, deixando as compras pelo chão, e logo pegou o DVD, tal qual uma criança quando vê um brinquedo dando mole.

Afobado, tentava rapidamente colocar o capacete, ligar a moto e sair voando pelas ruas transitadas de Maringá para colocar o filme em seu aparelho de DVD. Mas um rapaz escanelado, com vestes sociais amassadas, também prestes a ligar sua moto vermelha ao lado, olhou para ele e iniciou, sem permissão ou parcimônia, um diálogo, no início, amistoso, mas logo depois, perturbador:
- Que calor rapaz!


- É, mas, pelo jeito, vai chover de novo.
Respondeu.


- Mas a chuva é boa pra refrescar.


- Não aguento mais essas chuvas.
Disse, tentando, em vão, finalizar o papo furado metereológico e, assim, poder assistir tranquilamente ao filme.


O rapaz da moto vermelha continuou sorrindo amigavelmente e falou:
- Você não quer que chova, né (risos)? Deus te ama muito! Tchau.


Atônito com os dizeres “Deus te ama muito!”, imediatamente esqueceu-se do produto da indústria cultural que tanto queria consumir. Nunca ninguém havia dito aquilo para ele, pelo menos não sem nenhuma intenção de coleta de dízimo ou tentativa de convencimento que igreja x é melhor do que igreja y, ou vice-versa.

Seguiu, um tanto quanto voado, com sua motocicleta pela Cerro Azul. Distraído, tentando refletir sobre a frase do magro rapaz da moto vermelha, foi acertado em cheio por um ônibus coletivo no redondo do Teatro Reviver.

O trânsito, que já era conturbado, transformou-se em caos. Seu sangue escuro derramado no asfalto molhou o saquinho de pão. A areia do gato esparramou-se por toda a pista, retocando o clima trágico existente no ar. Ele nunca assistiu ao tão desejado filme “O Siciliano”. Seu apartamento continuou, por muitos dias, fedendo a amônia. A última frase que ouviu em vida foi: “Deus te ama muito”.