terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O que a gente tava falando mesmo?*

Wilame Prado

Em viradas de anos, amigos de boteco (os famosos filósofos de mesa de bar) não ficam juntos. Com suas famílias reunidas em torno de churrasqueiras fumegantes e sobremesas que ficam fora da geladeira, aproveitam o primeiro feriado do ano para reafirmarem seus papéis de maridos, pais, filhos e netos.

Carneiros e abacaxis passados, tudo volta rapidamente ao normal. No balcão do Bar do Vargas, numa pequena cidade perdida do interior do Paraná, José Carlos e Joaquim Eduardo se encontram pela primeira vez em 2010.

Naquela terça-feira quente e desanimadora, José Carlos é o primeiro a chegar ao bar. Pede uma cerveja, garrafa de 600ml, e um copo. Vira seu banquinho, próximo ao balcão, em direção do gramado verde da mesa de sinuca. Não dá palpites, mas analisa as tacadas tortas dos companheiros do bilhar. Deixa, vez ou outra, escapar de leve um sorriso miúdo de escárnio.

Poucos minutos depois, Joaquim Eduardo, um verdadeiro fanfarrão, já vai logo gritando com o Vargas, pedindo um copo limpo e afirmando para todos que tomaria da cerveja do José Carlos porque, caso contrário, o líquido amarelo na garrafa e no copo do amigo atrairia os mosquitos da dengue.

José Carlos estava distraído vendo as unhas carcomidas do pé de um bêbado sentado na parte de fora do bar quando Joaquim Eduardo fez uma pergunta difícil de responder:

- O que espera pra 2010?

- O que o Osvaldinho tem no pé, hein Joaquim? Se viu aquela bicheira ali? – indaga José Carlos, não respondendo a pergunta do amigo porque já tinha se esquecido o que havia sido perguntado.

- Ô Osvaldinho! Passa uma arnica nesse teu pé podre porque já tá atraindo mosca aqui pro bar, caramba! Ou então joga esse teu copo de pingão na ferida pra dar uma desinfetada! – grita Joaquim Eduardo, motivando risos de todos que estão no bar.

Os amigos continuam a beber cerveja e a conversar sobre coisas inúteis da vida. E isso é o que eles vêm fazendo há muitos anos naquele balcão do Bar do Vargas.

Com um repentino silêncio, Joaquim Eduardo se lembra do que ele programou para conversar com seu amigo José Carlos. E pergunta novamente:

- Ô Zé! O que cê quer fazer em 2010?

- Pergunta difícil, hein Joaquim! Sei lá, meu. Aguentar o Dunga sendo campeão do mundo. Aguentar o horário político.

- Falando sério, Zé! Neste ano de 2010, quero ser menos brincalhão e parar de ficar o tempo todo aqui no Bar do Vargas...

- Ué! Aconteceu alguma coisa com você na virada? Ce tá esquisito, Joaquim...

Joaquim Eduardo nem ouviu o que seu amigo José Carlos respondeu. Naquele momento, com uma ligeireza sem tamanho, já estava jogando um copo de pinga no pé bichado do bêbado Osvaldinho e dando tapinhas amigáveis em sua cabeçorra suja.

- Ô Vargas! Duas doses de pingão calibradas aqui pro Osvaldinho. É por minha conta.

- O que a gente tava falando mesmo, Zé?

*Conto publicado dia 5 de janeiro de 2010 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná