terça-feira, 4 de maio de 2010

O jogo segue*

Wilame Prado


Sou um cara que já não vibro tanto com as minhas vitórias. Para mim, é mais prazeroso contar as boas novas para os meus heróis do que a conquista em si. O problema é que nem isso eu posso mais. Isso porque, um processo de desencantamento e quietude, existente em meu ser até nas horas em que sorrisos poderiam estar escancarados, deu-se início há três anos, quando o Bila (assim os conhecidos chamavam o meu pai porque o nome Wilame era muito difícil de se pronunciar) resolveu fazer a viagem sem volta da morte.

Bila é o meu herói. Ou melhor, o meu anti-herói. Nossa relação entre pai e filho não foi das melhores, admito. Faltava diálogo. Faltava carinho. Acho que meu pai passou vinte anos tentando encontrar alguma forma de me agradar. Errou ao tentar me mimar com coisas materiais. Acho que passei vinte anos tentando provar para o meu pai que eu o amava. Errei ao aceitar sua inconstante distância.

Tendo em vista tudo isso, pergunto-me, principalmente quando ergo a taça de campeão na vida, se realmente as brindadas valeram a pena. A felicidade é tão fugaz, não? Escorre dos nossos dedos como manteiga derretida. Almejamos tanto os momentos felizes, mas ficamos totalmente perdidos quando chegam. Se felizes, não sabemos direito o que fazer.

Nessas horas benquistas, o melhor seria, pelo menos, propagar a felicidade contando para os nossos heróis o quanto você se sente feliz. Mas nem esse gostinho eu tenho mais. É que não só o Bila pegou o bonde do infinito rumando para o desconhecido. Compraram também o bilhete só de ida avós, tios e amigos, impedindo-me de tentar ser um pouco mais feliz, pelo menos nas horas em que, pressupõe-se, deveria estar, sim, feliz.

Sei que, ao revelar esse meu completo desprendimento com as maravilhas que acontecem em minha vida, acabo por desmerecer um milhão de pessoas que estão ao meu redor e que torcem para que tudo dê certo. Por isso, peço desculpas a eles, reiterando algo em que talvez não saibam direito: as vitórias só acontecem porque estou vivo para buscá-las; e se estou vivo, é graças a todos eles – os heróis que ainda não me deixaram.

Neste último sábado, 1º de maio, o dia do trabalhador, três anos se passaram desde que o velho Bila se foi. E, incrivelmente, os últimos três anos da minha vida foram quando finalmente conquistei alguns pódios. Antes disso, chateado ficava quando tinha de admitir ao meu anti-herói que seu filho ficara em último lugar ou, 
o mais corriqueiro, que nem chegara a participar da prova.

Pergunto-me, inquieto, se alguma força superior vem tentando me compensar em vida a tristeza tão grande que é perder o pai. Sendo isso uma verdade ou não, fato é que todas minhas conquistas são enlutadas e, por isso, é bem provável que ainda continuarei marcando alguns gols nesse mundão, mas, mesmo se algum dia ele for de placa, não haverá comemorações. Pegarei a bola e a colocarei novamente no meio de campo. A vida continua. Vitórias e derrotas existirão, sempre. Segue o jogo, então, mas com a tarja preta enlaçando o braço.


13 comentários:

Rafael C. Crivelaro disse...

É isso ae, meu caro.
Jogador que é jogador, não quer ficar no banco!

Saudades, Abraço.

Wilame Prado disse...

Grande Rafael boleiro! Pegou o espírito da crônica, e ainda me fez muito feliz com este comentário. Abraço, meu caro!

Henrique disse...

Bela homenagem, simpatizei muito com o texto.

Dinor Chagas disse...

Não consigo me surpreender contigo. Fico apenas embasbacado de satisfação ao avançar por seus textos e descobrir na simplicidade de suas memórias, detalhes normais à vida de qualsquer comedor de feijão. Suas crônicas da vida real são prazerosas... são verdadeiras.

Parabéns e bola pra frente.

Laboratório disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danilo Emmanuel disse...

Se me permite dizer, de vez em quando é bom chutar também as tristezas e não só a bola!

A cerveja em Brusque pode ser aqui em Maringá!?!? Abraço!

Anônimo disse...

Neste jogo, não deveria haver o apito final.

Erick Gimenes disse...

Incrível como estou me sentindo igual a vc, perdendo uma pessoa especial no mesmo dia 1 de maio. Tudo isso parece ter sido escrito pra mim.

Parabéns pelo texto.
Abraço.

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
A POLTRONA


ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE CHOCOLATE, EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .

José
ramón...

Cristiano Contreiras disse...

Fantastico o estilo do seu espaço!

por isso, sigo seus passos.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Wilamamigo

Conheci-te através da Helena do Caos. Vim ao teu blogue e gostei. Porque eu também sou jornalista, ainda que aposentado, mas jornalista nunca se retira. Escrever é viver.Convido-te, por isso, a visitar a Minha Travessa e seres seguidor dela, o que desde já te agradeço.

Desculpa a chatice que te possa causar este ‘tuga desavergonhado e escrevinhador. Também ando pelo Facebook, o que quer dizer que estou realmente aposentado, mas vivo. E tão bem disposto quanto seja possível…


Abs

Juliana Prado disse...

....é incrivel a falta que faz alguém que tão pouco esteve presente em nossas vidas...
mas mesmo sem ter a presença fisica, sempre esteve dentro dos nosso intimo, como um forte e verdadeiro amor, é...tb sinto muito falta da sua ausencia!

Giordane disse...

Wilame, bonitas palavras! Simples e emocionante! É sempre bom ler seus escritos...o olhar sobre a vida se transforma!