terça-feira, 20 de abril de 2010

A invenção de Leida Reis*

Wilame Prado


Na Líbia, Assam é barrado logo na entrada do local onde trabalha há 14 anos e não entende o porquê. Deste modo, já não poderá continuar traficando armas para os russos. Com o Vicente, no Rio de Janeiro, algo semelhante acontece.

Porém, em vez de não conseguir entrar no trabalho, o matador de aluguel, que atua no morro do Alemão, vê-se como um idiota tentando, em vão, entrar em sua casa há onze dias. Em Angola, o empresário podre de rico é expulso a pontapés do luxuoso hotel que jura de pés juntos um dia ter sido seu.

São em capítulos separados pelo nome de diferentes cidades espalhadas pelo mundo, com o mistério sendo o tempero comum entre ambos, que Leida Reis, editora e cronista do jornal mineiro “Hoje em dia”, desenvolve o livro “A invenção do crime” (Editora Record, 165 páginas, R$ 32,90) – seu romance de estreia.

E que estreia! Em “A invenção do crime”, Leida consegue prender o leitor facilmente com sua prosa objetiva, ligeira e sem muitos floreios, mas recheada de conteúdo e cotidiano. Um livro escrito, muito bem escrito, por uma jornalista acostumada com a velocidade da notícia e com os acontecimentos dos fatos mundiais.

Sendo jornalista experiente, Leida sabe também que não é raro encontrar na vida real histórias que parecem ser mais fantásticas do que uma ficção completamente inventada pelo autor. Com um arsenal de fatos da realidade em mãos, a escritora conseguiu fazer um romance policial verdadeiro, com histórias que, embora ficcionais, convencem o leitor e o faz mergulhar de cabeça na trama misteriosa e envolvente do livro.

“A invenção do crime” é uma obra viva, quente e palpável. Leida, diferentemente de tantos escritores brasileiros, põe nas páginas de sua obra, sem medo de ser feliz, objetos comuns da nossa vida brasileira. O leitor encontrará nas páginas do livro o perfume do Boticário, os uísques Red Label e Ballantines e os carros Corsa Sedan e Chevrolet Celta, por exemplo.

As histórias misteriosas de pessoas que simplesmente são esquecidas pelo meio em que vivem, em diferentes lugares do mundo, são explicadas, de maneira brilhante, no último e metalinguístico capítulo -quase metade do livro em número de páginas. O leitor vai se encantar com o escritor “semiesquizofrênico” que criou (ou não) o personagem “Herói”, o grande inventor de um crime, que prefere “desconstruir” as pessoas a simplesmente matá-las.

Chegando às livrarias neste mês de abril, “A invenção do crime” dá fôlego ao romance policial brasileiro. Em 2010, Leida Reis, com seu belo romance de estreia, é forte candidata a prêmios literários, como o Jabuti e o São Paulo de Literatura.


Um comentário:

André Ferrer disse...

Ótima resenha Prado! Estive lendo uma entrevista do José Castello no Portal Literal na qual se afirma que a crítica literária, digamos, não acadênica, anda cada vez mais escassa na imprensa e mesmo na WEB. O José Castello diz que há falta imensa de resenhas despretensiosas, baseadas unicamente naquilo que interessa, que é a leitura de um livro. É o que basta. A sua resenha é prova disso.

Até mais!

Ah! Leia o conto que eu publiquei, "Bem alinhado", no www.andre-ferrer.blogspot.com.br e deixe um comentário. Veja o meu blog. Estou seguindo o teu conselho.