terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sistema binário da vida*

Wilame Prado

Vida mutante é a nossa. Mudanças acontecem todos os dias com a gente. Somos um organismo vivo, e isso significa dizer que não podemos, nem conseguimos, estacionar de um jeito só. É o ciclo natural de mudanças que nos leva do nascimento à morte. Assim acontece também com as cidades, que são organismos vivos, que nascem, sobrevivem, desenvolvem-se e estão fadadas ao desaparecimento. 

Estive em São Paulo por uma semana, uma cidade que completou 456 anos no último dia 25 de janeiro. A impressão que dá, junto ao caos, ao trânsito inescapável e ao mar de chuvas que cai todos os dias do céu, é que a famosa Terra da Garoa vai submergir. Ou explodir, levando em consideração o grau de aborrecimento que os motoristas adquiriram dirigindo nas ruas esburacadas e cheias da maior cidade do Brasil.

Faz poucos dias que retornei a Maringá - a recém-nascida Maringá, com seus 62 anos de vida. No sábado, presenciei um início de engarrafamento no quarteirão do Mercadorama, na avenida São Paulo. Decidi desviar o caminho. No carro, enquanto cantarolava as canções da banda curitibana Charme Chulo, tive vontade de rir, porque percebi a pequenez dos problemas maringaenses ao me lembrar do fim do mundo que é o engarrafamento paulistano.

Mesmo gostando muito das grandes metrópoles, posso dizer, sem medo de errar, que Maringá, no aspecto urbano, é uma das melhores cidades que se tem para viver. Os problemas encontrados por aqui são perfeitamente solucionáveis. Há luz no fim do túnel. Em São Paulo, não há nem túnel mais.

Dou o exemplo do trânsito. Os motoristas de Maringá não aguentavam mais ver o sinal da esquina da Santos Dummont abrir e fechar três vezes sem sair do lugar. Agora, com o sistema binário, creio que as coisas vão melhorar. No começo, vai ser difícil acostumar-se com as mudanças. Questão de meses para os motoristas maringaenses entenderem as regras do trânsito.

Em mais um aspecto, a cidade assemelha-se à vida. As mudanças incomodam no início, mas, depois, tudo se resolve. E a gente vai tocando sempre pra frente, seguindo o caminho, torcendo para pegar a onda verde, vivendo ou sobrevivendo.

Já está dando até saudade da época em que podíamos descer tranquilamente a avenida São Paulo rumo ao Parque do Ingá, ou então subir a Paraná para chegar na Colombo. A saudade é o que fica, mas é passado. Em pouco tempo, o esquecimento das direções das ruas e avenidas de Maringá será consequência certa. Neste aspecto, a cidade diferencia-se um pouco da nossa vida.

Muitas vezes, algumas mudanças acabam significando, com o passar do tempo, lembranças que não nos sai da cabeça. No sistema binário da vida, em que incrivelmente sempre temos dois caminhos a seguir e com escassos retornos a 300 metros, as escolhas que nos proporcionam mudanças podem ser erradas. Bate o arrependimento, e não o esquecimento. Infelizmente.

Longe de qualquer trânsito, fluxos de veículos alterados, longe das chuvas torrenciais, longe das capitais e também das cidades provincianas, neste momento, gostaria mesmo é de estar pilotando um carro potente, conversível e vermelho, curtindo a brisa e o sol, com o rádio ligado no último, tomando alguma bebida gelada para me refrescar e procurando não pensar em absolutamente nada, dando um tchau para as mutações, para as escolhas e para o sistema binário da vida. 

2 comentários:

Diniz Neto disse...

Dar um tchau pra os sistemas binários da vida... eu também queria!
Muito bom!

disse...

Se fosse capaz, eu teria dito o mesmo.

Adorei o blog.