segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O vinho de Fante*


Em “O vinho da juventude”, John Fante questiona a autoridade da igreja católica e a hierarquia familiar; livro de contos acaba de ser relançado pela José Olympio

Wilame Prado

Detentor de um imenso poder narrativo, o escritor John Fante (1909-1983), por toda sua vida, fez uma literatura autobiográfica. Seu alter ego mais conhecido recebe a alcunha de Arturo Bandini, nome que estampa as páginas de algumas de suas melhores obras, como “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “Espere a primavera, Bandini” e “O caminho de Los Angeles”.
Em seu livro de contos “O vinho da juventude” (José Olympio, 2010), que acaba de ser relançado, os leitores de Fante, acostumados com a saga de Bandini, poderão desfrutar uma série de histórias cândidas vividas por Jimmy Toscana – um garoto que mora num lar de ítalo-americanos e que recebe uma rígida educação católica num colégio de freiras.
Nos contos, mesmo tendo trocado o nome de seu personagem principal, Fante continua relatando acontecimentos reais de sua vida. Jimmy, portanto, nada mais é do que Arturo Bandini em sua meninice, período no qual começa a questionar as ordens autoritárias da igreja católica, a hierarquia familiar e os preconceitos para com os descendentes de italianos imigrantes nos Estados Unidos.
Narrados em primeira pessoa, os contos são relatos ingênuos do garoto Jimmy em suas aventuras no colégio, na igreja, em casa e nas ruas. Escritos na década de 1930, remetem a uma época em que o alicerce familiar, valores morais e o respeito eram premissas importantes e ainda praticadas na sociedade.
Mesmo em suas constantes traquinagens, percebe-se, lendo os contos, que há pureza nas atitudes de Jimmy. Quando ele é preso algumas horas por quebrar lâmpadas públicas, por exemplo, a justificativa apresentada para a freira, e posteriormente ao padre do colégio, é que teria apostado com um garoto para ver quem conseguia estourar mais lâmpadas: ele, o católico, ou o outro, que não era de sua religião.
Os contos são descritos de uma maneira tão simplificada que, facilmente, o leitor deixará enganar-se pensando que realmente é uma criança ou um adolescente quem está contando todas aquelas histórias. A destreza narrativa de Fante faz com que, após o início a leitura, queira-se saber ansiosamente o desfecho da história.

Uma época perdida

Em “Sequestro na família”, primeiro conto do livro, o jovem Jimmy demonstra muito orgulho e felicidade ao saber o quanto seus pais estavam apaixonados antes de se casarem. Pede insistentemente para a mãe contar as aventuras que passara com seu pai quando, antes de pedi-la em casamento, a sequestrou por três dias e três noites.
Quando sua mãe diz que, mesmo com muito medo, naquela ocasião, aceitara o pedido do casamento, o garoto se esbalda em emoção: “Isso era demais para mim. Joguei meus braços em torno dela e beijei-a, e em meus braços senti o travo pujante das lágrimas.”
Nas leituras de “O vinho da juventude”, os mais velhos verão retratados o modo como funcionava os lares de seus pais antigamente. Já os leitores mais novos, é bem certo que se recordarão das agruras e regras conservadoras que existiam, ou existem até hoje, nos lares de seus avós. O conto “O pedreiro na neve”, por exemplo, descreve de maneira perspicaz o âmago das regras da casa de Jimmy. A mulher, sua mãe, é uma eterna subordinada das tarefas domésticas e tem de conviver, calada, com as regras machistas impostas pelo marido bravo.
Jimmy Toscana vive numa época em que todos os garotos norte-americanos sonham em ser jogadores de beisebol e, quem sabe, entrar para a Liga dos Campeões. Garotos que, quando pecam, roubando doces ou distribuindo socos e pontapés no meio da rua, temem muito a Deus e se sentem renovados ao confessar e pagar as penitências determinadas pelo padre. São garotos, assim como Jimmy (ou Fante ou Bandini), que, quando fazem algo pelo qual devem se envergonhar, são capazes de ficar o período escolar inteiro trancados no banheiro para evitar o olhar recriminador da freira.
Nessa época vivida por Jimmy, e muito bem descrita por Fante, os policiais conhecem o pai e a mãe dos garotos que aprontam pelas ruas. Não raro, na tentativa de intimidar os jovens baderneiros, esses policiais os deixam presos por pelo menos uma hora, prometendo para eles que ficarão detidos por quinze anos na penitenciária estadual caso aprontem novamente. No mais tardar, os pais desses jovens os buscam na delegacia e lhe aplicam surras, pelo menos para a época, muito merecidas.

Amadurecimento

A cada história, conforme as páginas vão sendo viradas, percebe-se que o cativante Jimmy Toscana vai deixando as ingenuidades infantis de lado para começar a enxergar questões que envolvem mais o mundo dos adultos. O conto “A odisséia de um carcamano”, por exemplo, é uma bela homenagem à comunidade ítalo-americana e reflete claramente uma consciência mais amadurecida do personagem principal. Com perfeição, Fante narra o processo de aceitação própria, até chegar ao orgulho nacional, da descendência italiana de um dago (maneira desrespeitosa de se referir a um italiano nos Estados Unidos, traduzido no Brasil como “carcamano”).
São nos últimos contos da primeira parte do livro que o autor trará um Jimmy Toscana já com seus vinte e poucos anos de idade, que manda seus escritos para revistas literárias, que reza inúmeras Aves-marias torcendo para que aconteça um milagre e assim consiga pagar o aluguel de seu quarto, que namora por um tempo uma mulher bem mais velha que ele e que sente “A ira de Deus” (nome de um conto) quando a quitinete de seu affair estremece com um terremoto. É quando o leitor começa a enxergar as características de Arturo Bandini na pele do menino Jimmy e finalmente se reencontra com o clássico e adorado personagem de Fante.

Tinto Carcamano

O escritor John Fante lançou “Dago Red” (é traduzido como “Tinto Carcamano” e refere-se ao vinho que os italianos do norte de Denver bebiam durante a época da Lei Seca), uma coletânea de treze contos que foi saudada pela revista Time como “talvez o melhor livro de contos de 1940”. Em 1985, dois anos depois da morte de Fante, os contos de “Dago Red” compuseram a primeira parte do livro “O vinho da juventude”, que ganhou uma segunda parte, denominada de “Contos Tardios”, incluindo mais sete contos na obra.

Para ler
Título: O vinho da juventude
Autor: John Fante
Editora: José Olympio
Nº de páginas: 336 páginas
Tradutor: Roberto Muggiati
Preço: R$ 42 nas principais livrarias

Trecho do conto “Lar, doce lar”

Estou cantando agora, pois em breve estarei em casa. Haverá uma grande recepção para mim. Haverá espaguete, vinho e salame. Minha mãe vai preparar uma grande mesa amontoada com as delícias da minha infância. Será tudo para mim. O amor da minha mãe estará sobre a mesa e meus irmãos e minha irmã ficarão felizes de me ver entre eles de novo, pois eu sou o irmão mais velho que nunca erra, e eles ficarão um pouco invejosos das boas-vindas despejadas sobre mim e vão rir muito das coisas que eu falo, e vão sorrir quando me virem engolindo aquelas garfadas enroscadas de espaguete e gritar pedindo mais queijo e trovejar o meu prazer. Pois são minha gente e voltei para eles e para o amor de minha mãe.
Vou passar meu copo para meu pai e dizer:
- Mais daquele vinho, pai.
E ele vai sorrir e servir o líquido vermelho de gosto doce na minha taça, e vou dizer “Aí, rapaz”, e vou beber lenta e profundamente, sentindo aquecer minha barriga, formigar meu coração, entoando uma canção em meus ouvidos. E minha mãe dirá “Não tão rápido, meu filho”, e vou olhar para minha mãe e ver os mesmos olhos que eu fiz chorar tanto, tantas vezes, e meus ossos enfrentarão aquele sentimento obtuso de remorso, mas só vai durar um segundo e direi à minha mãe “Ora, mãe, não se preocupe com este sujeito, ele vai ficar bem”, e minha mãe vai sorrir com a felicidade que só minha mãe conhece e meu pai vai sorrir um pouco também, pois estará olhando para sua própria carne e sangue e vou sentir palpitação no peito e evitarei os olhos do meu pai, pois eles não conseguirão esconder sua felicidade.

Um comentário:

Henrique disse...

Resenha de Fante publicada no O Diário? haha nao sei se é bom ou ruim ver isso, mas em todo caso é isso ae, meus parabéns pela divulgação.