quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Colombina*















Wilame Prado

Júlio e Vanessa namoraram por cinco anos e alguns meses. Separaram-se recentemente, poucos dias depois do Ano Novo. Passaram seis meses de 2009 pagando uma temporada de quatro dias em Salvador, Bahia, no carnaval de 2010. Não havia como devolver o dinheiro. Mesmo separados, foram para o passeio. Longe um do outro no avião. Em quartos separados num hotel à beira mar.

Resumindo em poucas palavras, o primeiro dia do passeio, para Júlio, foi bem aproveitado. Enturmou-se com foliões beberrões vestidos de mulher e, com um tomara que caia pink, tomou uma quantidade de cerveja nunca antes consumida em sua vida.

Seus olhos, inescapavelmente, miraram por apenas duas vezes, naquele dia, sua ex-namorada, justamente em suas duas retornadas ao hotel para buscar artifícios químicos estimulantes para a farra. Nas duas vezes, encontrou Vanessa, sentada numa arejada varanda com vista para o imenso mar, com um calhamaço do Dostoievski nas mãos.

Domingo. Segundo dia de viagem. Duas horas da tarde. Júlio não se lembra como chegou, mas, milagrosamente, está em sua king size, de pijama e aparentemente limpo. Mesmo depois de alguns comprimidos que combatem dores no corpo e no estômago, mesmo depois de finalmente conseguir alimentar-se com a maravilhosa comida do hotel, mesmo depois de até já conseguir voltar a tomar umas latinhas de cerveja, isso por volta da meia-noite, com um grupo de amigos, num carnaval de rua, mesmo assim, Júlio sentia-se infeliz.

Conseguiu desvencilhar-se dos fanfarrões. Correu ao hotel. Não encontrou Vanessa. Dormiu ao som da televisão. No canal, uma chata apresentação do desfile das escolas de samba de São Paulo. Revigorado, Júlio tomou café da manhã, leu notícias na internet, mandou alguns emails importantes, almoçou e foi pular carnaval convicto de que encontraria uma bela de uma garota que espantaria de vez sua solidão naquela cidade em festa.

Algumas horas se passaram. Meio alto, encontrou Vanessa beijando um rapaz dotado de músculos e nitidamente suado. Cena nojenta para ele. Decidiu enojar-se de vez buscando o maior número de beijos possíveis com as mulheres que estavam distantes a pelo menos num raio de 100 metros. Muito rapidamente, sem ter noção, recebeu um beijo de uma mulher feira que tinha acabado de beijar outro cara. Foi embora vomitar.

Terça-feira de carnaval. Último dia do passeio. Júlio estava um fiasco. Ligou seu mp3. Ivete Sangalo? Claudia Leite? Chiclete com Banana? Que nada. Ouvia “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” – um belo e triste disco de Otto. Antes de ir ao aeroporto, Vanessa, sempre com seu jeito amigável de ser, foi falar com Júlio em seu quarto.

Perguntas esparsas. O velho papo de elevador. E Júlio, observando a simplicidade de Vanessa (tênis, calça jeans e blusinha regata branca), achou-a mais adorável do que nunca, ainda mais com o cabelo preso e os óculos de sol na cabeça. Ficou grato ao saber que, no sábado, fora ela quem o levou para o chuveiro, completamente bêbado e trespassado, o vestiu e o obrigou a comer meia lata de leite condensado para combater uma possível hipoglicemia devido ao consumo exagerado de álcool.

Quando Vanessa saiu do quarto, Júlio olhou para o seu traseiro – outrora totalmente dele. Lembrou-se do fortão suado passando a mão na bunda dela. Antes de fechar a porta, sua ex-namorada ainda sorriu e disse que já estava com saudades de Maringá. “Desgraçada, mas adoravelmente linda, Colombina”, sussurrou Júlio enquanto terminava de arrumar sua mala.

*Conto publicado dia 16 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.



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