terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Silêncio crônico*

Wilame Prado


Todos os dias, o mundo grita. Há pouco silêncio no ar. Mas é quase imperceptível o fato de que estamos rodeados por uma série de ruídos. É que nos acostumamos à companhia do barulho. Com isso, é como se não estivéssemos mais sós em nossas vidas.

Só que, de vez em quando, em momentos raros hoje em dia é verdade, ficamos frente a frente ao silêncio. É quando algumas verdades são ditas pela inquietude. É quando finalmente nos quedamos a pensar na vida.

O silêncio gerado pela ignorância é malvado, e é capaz de interromper qualquer ruído que nos cerca. O sujeito, quando é ignorado, mesmo estando em meio a uma guerra de barulhos, com bombas caindo em seus pés e cornetas instaladas em seus ouvidos, querendo ou não acaba dando ouvidos ao silêncio cortante da rejeição pré-formulada e, na maioria das vezes, certeira.

De que adianta querer ludibriar o silêncio providencial gerado quando somos ignorados? Não, meu pobre rapaz, se ela não ligou é porque infelizmente não te quer mais. Não, minha querida donzela, se nunca mais eles apertaram sua campainha é porque sua ausência já nem é percebida. Não, meu quixoteano escriba, se a editora não te respondeu o e-mail é porque não tem interesse algum em publicar teu livro.

Dizem que as palavras estrategicamente proferidas doem mais do que um tapa na cara. Pois eu digo que mais doloroso ainda é quando não há nem tapas nem palavras. Pensando bem, temos é muita sorte de, nos dias de hoje, vivermos num mundo que grita. Afinal, se convivêssemos mais tempo com o silêncio sincero e real, estaríamos fadados a um racionalismo muito cruel.

Caso ouvíssemos a toda hora o silêncio, os números de suicídios aumentariam, o casamento seria um costume cultural visto nos livros de História e a amizade seria tema constante de uma literatura nostálgica. Aberta e sinceramente, aproximar-nos-íamos de outras pessoas somente em busca dos interesses materiais.

Viveríamos numa sociedade brutalmente sincera. O silêncio de cada uma das pessoas seria como um talismã, um guru que viveria sussurrando em nossos ouvidos.

Enquanto, porém, o silêncio não consegue gritar mais alto do que o mundo, enquanto a britadeira alienada de nossas vidas barulhentas não é desligada, pelo menos, meus caros e poucos leitores, eu vos dou o silêncio da coluna “Crônico”.

Portanto, aproveitem suas terças-feiras, talvez agora um pouco mais silenciosas, sem minhas palavras. Mas não pensem que eu os ignoro. Apenas saio um pouco de cena para tentar entender o que significam as incessantes verdades que os silêncios insistem em berrar para mim intermitentemente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O vinho de Fante*


Em “O vinho da juventude”, John Fante questiona a autoridade da igreja católica e a hierarquia familiar; livro de contos acaba de ser relançado pela José Olympio

Wilame Prado

Detentor de um imenso poder narrativo, o escritor John Fante (1909-1983), por toda sua vida, fez uma literatura autobiográfica. Seu alter ego mais conhecido recebe a alcunha de Arturo Bandini, nome que estampa as páginas de algumas de suas melhores obras, como “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “Espere a primavera, Bandini” e “O caminho de Los Angeles”.
Em seu livro de contos “O vinho da juventude” (José Olympio, 2010), que acaba de ser relançado, os leitores de Fante, acostumados com a saga de Bandini, poderão desfrutar uma série de histórias cândidas vividas por Jimmy Toscana – um garoto que mora num lar de ítalo-americanos e que recebe uma rígida educação católica num colégio de freiras.
Nos contos, mesmo tendo trocado o nome de seu personagem principal, Fante continua relatando acontecimentos reais de sua vida. Jimmy, portanto, nada mais é do que Arturo Bandini em sua meninice, período no qual começa a questionar as ordens autoritárias da igreja católica, a hierarquia familiar e os preconceitos para com os descendentes de italianos imigrantes nos Estados Unidos.
Narrados em primeira pessoa, os contos são relatos ingênuos do garoto Jimmy em suas aventuras no colégio, na igreja, em casa e nas ruas. Escritos na década de 1930, remetem a uma época em que o alicerce familiar, valores morais e o respeito eram premissas importantes e ainda praticadas na sociedade.
Mesmo em suas constantes traquinagens, percebe-se, lendo os contos, que há pureza nas atitudes de Jimmy. Quando ele é preso algumas horas por quebrar lâmpadas públicas, por exemplo, a justificativa apresentada para a freira, e posteriormente ao padre do colégio, é que teria apostado com um garoto para ver quem conseguia estourar mais lâmpadas: ele, o católico, ou o outro, que não era de sua religião.
Os contos são descritos de uma maneira tão simplificada que, facilmente, o leitor deixará enganar-se pensando que realmente é uma criança ou um adolescente quem está contando todas aquelas histórias. A destreza narrativa de Fante faz com que, após o início a leitura, queira-se saber ansiosamente o desfecho da história.

Uma época perdida

Em “Sequestro na família”, primeiro conto do livro, o jovem Jimmy demonstra muito orgulho e felicidade ao saber o quanto seus pais estavam apaixonados antes de se casarem. Pede insistentemente para a mãe contar as aventuras que passara com seu pai quando, antes de pedi-la em casamento, a sequestrou por três dias e três noites.
Quando sua mãe diz que, mesmo com muito medo, naquela ocasião, aceitara o pedido do casamento, o garoto se esbalda em emoção: “Isso era demais para mim. Joguei meus braços em torno dela e beijei-a, e em meus braços senti o travo pujante das lágrimas.”
Nas leituras de “O vinho da juventude”, os mais velhos verão retratados o modo como funcionava os lares de seus pais antigamente. Já os leitores mais novos, é bem certo que se recordarão das agruras e regras conservadoras que existiam, ou existem até hoje, nos lares de seus avós. O conto “O pedreiro na neve”, por exemplo, descreve de maneira perspicaz o âmago das regras da casa de Jimmy. A mulher, sua mãe, é uma eterna subordinada das tarefas domésticas e tem de conviver, calada, com as regras machistas impostas pelo marido bravo.
Jimmy Toscana vive numa época em que todos os garotos norte-americanos sonham em ser jogadores de beisebol e, quem sabe, entrar para a Liga dos Campeões. Garotos que, quando pecam, roubando doces ou distribuindo socos e pontapés no meio da rua, temem muito a Deus e se sentem renovados ao confessar e pagar as penitências determinadas pelo padre. São garotos, assim como Jimmy (ou Fante ou Bandini), que, quando fazem algo pelo qual devem se envergonhar, são capazes de ficar o período escolar inteiro trancados no banheiro para evitar o olhar recriminador da freira.
Nessa época vivida por Jimmy, e muito bem descrita por Fante, os policiais conhecem o pai e a mãe dos garotos que aprontam pelas ruas. Não raro, na tentativa de intimidar os jovens baderneiros, esses policiais os deixam presos por pelo menos uma hora, prometendo para eles que ficarão detidos por quinze anos na penitenciária estadual caso aprontem novamente. No mais tardar, os pais desses jovens os buscam na delegacia e lhe aplicam surras, pelo menos para a época, muito merecidas.

Amadurecimento

A cada história, conforme as páginas vão sendo viradas, percebe-se que o cativante Jimmy Toscana vai deixando as ingenuidades infantis de lado para começar a enxergar questões que envolvem mais o mundo dos adultos. O conto “A odisséia de um carcamano”, por exemplo, é uma bela homenagem à comunidade ítalo-americana e reflete claramente uma consciência mais amadurecida do personagem principal. Com perfeição, Fante narra o processo de aceitação própria, até chegar ao orgulho nacional, da descendência italiana de um dago (maneira desrespeitosa de se referir a um italiano nos Estados Unidos, traduzido no Brasil como “carcamano”).
São nos últimos contos da primeira parte do livro que o autor trará um Jimmy Toscana já com seus vinte e poucos anos de idade, que manda seus escritos para revistas literárias, que reza inúmeras Aves-marias torcendo para que aconteça um milagre e assim consiga pagar o aluguel de seu quarto, que namora por um tempo uma mulher bem mais velha que ele e que sente “A ira de Deus” (nome de um conto) quando a quitinete de seu affair estremece com um terremoto. É quando o leitor começa a enxergar as características de Arturo Bandini na pele do menino Jimmy e finalmente se reencontra com o clássico e adorado personagem de Fante.

Tinto Carcamano

O escritor John Fante lançou “Dago Red” (é traduzido como “Tinto Carcamano” e refere-se ao vinho que os italianos do norte de Denver bebiam durante a época da Lei Seca), uma coletânea de treze contos que foi saudada pela revista Time como “talvez o melhor livro de contos de 1940”. Em 1985, dois anos depois da morte de Fante, os contos de “Dago Red” compuseram a primeira parte do livro “O vinho da juventude”, que ganhou uma segunda parte, denominada de “Contos Tardios”, incluindo mais sete contos na obra.

Para ler
Título: O vinho da juventude
Autor: John Fante
Editora: José Olympio
Nº de páginas: 336 páginas
Tradutor: Roberto Muggiati
Preço: R$ 42 nas principais livrarias

Trecho do conto “Lar, doce lar”

Estou cantando agora, pois em breve estarei em casa. Haverá uma grande recepção para mim. Haverá espaguete, vinho e salame. Minha mãe vai preparar uma grande mesa amontoada com as delícias da minha infância. Será tudo para mim. O amor da minha mãe estará sobre a mesa e meus irmãos e minha irmã ficarão felizes de me ver entre eles de novo, pois eu sou o irmão mais velho que nunca erra, e eles ficarão um pouco invejosos das boas-vindas despejadas sobre mim e vão rir muito das coisas que eu falo, e vão sorrir quando me virem engolindo aquelas garfadas enroscadas de espaguete e gritar pedindo mais queijo e trovejar o meu prazer. Pois são minha gente e voltei para eles e para o amor de minha mãe.
Vou passar meu copo para meu pai e dizer:
- Mais daquele vinho, pai.
E ele vai sorrir e servir o líquido vermelho de gosto doce na minha taça, e vou dizer “Aí, rapaz”, e vou beber lenta e profundamente, sentindo aquecer minha barriga, formigar meu coração, entoando uma canção em meus ouvidos. E minha mãe dirá “Não tão rápido, meu filho”, e vou olhar para minha mãe e ver os mesmos olhos que eu fiz chorar tanto, tantas vezes, e meus ossos enfrentarão aquele sentimento obtuso de remorso, mas só vai durar um segundo e direi à minha mãe “Ora, mãe, não se preocupe com este sujeito, ele vai ficar bem”, e minha mãe vai sorrir com a felicidade que só minha mãe conhece e meu pai vai sorrir um pouco também, pois estará olhando para sua própria carne e sangue e vou sentir palpitação no peito e evitarei os olhos do meu pai, pois eles não conseguirão esconder sua felicidade.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Colombina*















Wilame Prado

Júlio e Vanessa namoraram por cinco anos e alguns meses. Separaram-se recentemente, poucos dias depois do Ano Novo. Passaram seis meses de 2009 pagando uma temporada de quatro dias em Salvador, Bahia, no carnaval de 2010. Não havia como devolver o dinheiro. Mesmo separados, foram para o passeio. Longe um do outro no avião. Em quartos separados num hotel à beira mar.

Resumindo em poucas palavras, o primeiro dia do passeio, para Júlio, foi bem aproveitado. Enturmou-se com foliões beberrões vestidos de mulher e, com um tomara que caia pink, tomou uma quantidade de cerveja nunca antes consumida em sua vida.

Seus olhos, inescapavelmente, miraram por apenas duas vezes, naquele dia, sua ex-namorada, justamente em suas duas retornadas ao hotel para buscar artifícios químicos estimulantes para a farra. Nas duas vezes, encontrou Vanessa, sentada numa arejada varanda com vista para o imenso mar, com um calhamaço do Dostoievski nas mãos.

Domingo. Segundo dia de viagem. Duas horas da tarde. Júlio não se lembra como chegou, mas, milagrosamente, está em sua king size, de pijama e aparentemente limpo. Mesmo depois de alguns comprimidos que combatem dores no corpo e no estômago, mesmo depois de finalmente conseguir alimentar-se com a maravilhosa comida do hotel, mesmo depois de até já conseguir voltar a tomar umas latinhas de cerveja, isso por volta da meia-noite, com um grupo de amigos, num carnaval de rua, mesmo assim, Júlio sentia-se infeliz.

Conseguiu desvencilhar-se dos fanfarrões. Correu ao hotel. Não encontrou Vanessa. Dormiu ao som da televisão. No canal, uma chata apresentação do desfile das escolas de samba de São Paulo. Revigorado, Júlio tomou café da manhã, leu notícias na internet, mandou alguns emails importantes, almoçou e foi pular carnaval convicto de que encontraria uma bela de uma garota que espantaria de vez sua solidão naquela cidade em festa.

Algumas horas se passaram. Meio alto, encontrou Vanessa beijando um rapaz dotado de músculos e nitidamente suado. Cena nojenta para ele. Decidiu enojar-se de vez buscando o maior número de beijos possíveis com as mulheres que estavam distantes a pelo menos num raio de 100 metros. Muito rapidamente, sem ter noção, recebeu um beijo de uma mulher feira que tinha acabado de beijar outro cara. Foi embora vomitar.

Terça-feira de carnaval. Último dia do passeio. Júlio estava um fiasco. Ligou seu mp3. Ivete Sangalo? Claudia Leite? Chiclete com Banana? Que nada. Ouvia “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” – um belo e triste disco de Otto. Antes de ir ao aeroporto, Vanessa, sempre com seu jeito amigável de ser, foi falar com Júlio em seu quarto.

Perguntas esparsas. O velho papo de elevador. E Júlio, observando a simplicidade de Vanessa (tênis, calça jeans e blusinha regata branca), achou-a mais adorável do que nunca, ainda mais com o cabelo preso e os óculos de sol na cabeça. Ficou grato ao saber que, no sábado, fora ela quem o levou para o chuveiro, completamente bêbado e trespassado, o vestiu e o obrigou a comer meia lata de leite condensado para combater uma possível hipoglicemia devido ao consumo exagerado de álcool.

Quando Vanessa saiu do quarto, Júlio olhou para o seu traseiro – outrora totalmente dele. Lembrou-se do fortão suado passando a mão na bunda dela. Antes de fechar a porta, sua ex-namorada ainda sorriu e disse que já estava com saudades de Maringá. “Desgraçada, mas adoravelmente linda, Colombina”, sussurrou Júlio enquanto terminava de arrumar sua mala.

*Conto publicado dia 16 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os fortes também choram*

Wilame Prado


Era fevereiro. As temperaturas em Maringá atingiam facilmente os 40º C. Já vestida com aquela beca esquisita, uma faixa azul separando o negrume da vestimenta, ela acreditava estar sentindo o maior calor de toda sua vida. Mas não desmaiaria. Considerava-se uma garota de fibra. Não seria um calorzinho que a derrubaria.

Com seu senso crítico e um natural modo azedo de ver como as coisas ocorrem nesta vida, mesmo estampando um sorriso para a foto, esboçava mentalmente uma análise negativa da simplória decoração do local.

Depois de discursos prontos e inevitavelmente clichês do reitor, de professores e do paraninfo da turma, finalmente era chegada a hora de anunciar os nomes dos “neograduados” – essa foi a palavra utilizada pela cerimonialista ao se referir aos formandos sedentos por canudos e diplomas.

Adriana Cruz. Antonio Albuquerque. Bruna Almeida da Silva. Carlos Eduardo Porto. Os nomes de seus colegas de classe iam sendo chamados em ordem alfabética. Quando começaram a chamar os nomes que se iniciam com a letra “E”, seu coração começou a disparar mais fortemente.

Edna Miori Moreira. Era seu nome. Tinha certeza. Emoção a mil. Descendo as escadas, notava maquiagens manchadas de garotas emocionadas com a conquista. Mas ela não choraria. Era forte e estava feliz por finalmente se livrar daquela chatice de graduação.

Diferentemente da maioria dos formandos, Edna não ganhou faixa, apito, carnaval ou festa da plateia na hora em que pronunciaram seu nome. É que, de conhecidos, apenas sua irmã, seu cunhado e sua prima prestigiaram o evento. E isso a deixou um pouco triste. Mas só um pouco, pois era uma garota forte e não se deixava levar facilmente pela tristeza.

Pronto. Colara o grau. Acabou essa palhaçada, pensava aliviada. Finalmente poderia tirar aquela roupa esquisita. Foi quando a cerimonialista resolveu prestar uma homenagem aos pais dos alunos. Pra quê? Imediatamente, Edna começou a se desesperar. E aquilo que estava lhe afligindo durante todo o dia foi traduzido em lágrimas. Incontidas mil lágrimas.

Cadê aquela força? E a aquela menina que não se abala? Cadê? Foi como um muro de Berlim indo ao chão. A ferida que mais doía em seu coração fora tocada. Enquanto via a todos os pais dos formandos de pé, ouvindo uma bela canção tocada em homenagem a eles, Edna bem que queria, mas não encontrou seu pai nem sua mãe na plateia.

Com aquela esperança boba, olhava para o portão de entrada do salão. E nada deles chegarem. Poderia ser um atraso. Mas não. Os pais de Edna realmente não prestigiariam sua colação de grau. Uma decepção só. Conseguindo retomar o fôlego, a garota forte mentiu para suas amigas ao lado alegando que suas lágrimas eram de felicidade. Mesmo não querendo admitir, os fortes também choram. O rosto borrado e a beca molhada de Edna são provas disso. 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Preciosa" além do cinema

“Preciosa”, romance de estreia da escritora norte-americana Sapphire, ganha notoriedade pelo sucesso de sua adaptação para o cinema, mas também tem o seu valor como literatura

Wilame Prado


A história de Claireece Precious Jones – uma adolescente negra, obesa, analfabeta e que é molestada pelos pais – relatada no livro “Preciosa” (editora Record, 2010), da escritora Sapphire, foi adaptada, ano passado, para o cinema pelo diretor Lee Daniels e contou com produção da conhecida apresentadora de televisão norte-americana Oprah Winfrey. 

O resultado, nas telonas, não poderia ser melhor. Além do sucesso incontestável no Festival de Sundance 2009 e louros em outras premiações, “Preciosa” recebeu oito indicações ao Oscar, inclusive na categoria de melhor filme do ano.

Mas todo esse sucesso cinematográfico, que costuma chegar ao Brasil antes mesmo do que o próprio livro, tende a ofuscar o talento de quem realmente gerou a conturbada e dramática Precious Jones – personagem principal da trama. Trata-se da poetista e artista perfomática Sapphire, que, com “Preciosa”, recém-lançado no país, faz sua estreia como romancista.

Pelo menos aqui no Brasil, o leitor que adquirir um exemplar do livro de Sapphire já terá uma imagem pré-formulada da personagem principal do livro. Isso porque, na capa, há uma fotografia da atriz Gabourey Sidibe (indicada no Oscar ao prêmio de melhor atriz), que protagonizou Precious Jones no filme de Lee Daniels.

Para quem gosta de construir imageticamente os personagens apresentados nas obras de ficção, ver uma foto do personagem principal, ou até mesmo assistir ao filme antes de ler o livro, não é algo que agrada muito.

Mesmo assim, o leitor que se embrenhar nas ligeiras 192 páginas de “Preciosa” ainda poderá exercer sua imaginação com a fascinante, cruel e redentora história da adolescente Clareece Precious Jones. Inspirada numa realidade deprimente que pôde conhecer quando ensinava adultos e adolescentes a ler e a escrever no bairro nova-iorquino do Harlem, a autora da obra conseguiu criar uma personagem cativante, símbolo de toda a pobreza, ignorância, preconceitos e ausência de oportunidades que cercam os jovens, principalmente do sexo feminino, em localidades pobres dos Estados Unidos.

Erros propositais

O livro, narrado em primeira pessoa pela Precious Jones e passado entre os anos da década de 1980, é escrito propositalmente, do começo ao fim, com erros ortográficos, dando um ar mais realista e intimista para a obra.

A história se inicia com Precious contando porque reprovou na escola quando tinha 12 anos, idade em que o martírio da garota começa a ser relatado com um acontecimento marcante: sua gravidez precoce sendo fruto de uma relação sexual forçada pelo próprio pai.

Mas isso é só o começo de uma história de sofrimentos. Precious, além de obesa, analfabeta e vítima das vontades sexuais ensandecidas do pai, ainda é constantemente humilhada pela mãe, que a faz de escrava doméstica, obriga a satisfazê-la com masturbações e, depois que descobre que ela está grávida do seu marido, começa a agredi-la verbal e fisicamente.

Depois de uma surra levada da mãe, a garota finalmente dá à luz no chão da cozinha. No hospital, descobre que sua filha tem Síndrome de Down, o que a faz deixar a menina, batizada de Monguinha, sob os cuidados da avó. 

Depois desse acontecimento, a mãe de Precious consegue receber da previdência duas fontes de renda. Nunca mais sai de casa. E presencia, sem ressentimentos, as relações incestuosas entre seu marido e Precious.

Completados 16 anos, a garota, que sofre todo e qualquer tipo de preconceito na escola, lugar onde senta na última carteira e espera o sinal tocar, muitas vezes urinando nas calças por sentir vergonha de se levantar, descobre a segunda gravidez, também fruto da relação sexual com o pai. Quando já não é possível mais esconder de ninguém a nova gestação, a direção do colégio decide expulsá-la.

Todo esse drama de Precious é narrado por Sapphire na primeira parte do livro, em aproximadamente 40 páginas. Na segunda parte, é perceptível que está se iniciando uma mudança positiva na vida da garota negra, coincidindo com o fato de ela começar a participar da Educação Alternativa/Cada Um Ensina Um e, assim, poder conhecer outras meninas também marginalizadas (mexicanas, viciadas em drogas, lésbicas).

Fragmentos

Na escola “alternativa”, Precious conhece também a professora Blue Rain, provavelmente um alter-ego da autora, personagem que fará com que a jovem consiga recuperar a dignidade, aprender a ler e a escrever e, assim, expressar-se por meio de textos e poesias em seu diário – cujos fragmentos fazem parte de todo o livro.

Caso, a partir de então, conhecendo pessoas com os mesmos problemas e uma professora que auxilia no processo de libertação, tudo começasse a dar certo na vida da sofrida Precious Jones (o que geralmente não acontece na realidade), o livro certamente seria considerado mais um roteiro hollywoodiano e clichê disfarçado de romance.

Porém, isso não acontece. A garota, que em toda a trama se mostra extremamente crítica e revoltada com sua situação, mas que começa a encontrar pela primeira vez a esperança de que algumas coisas podem mudar, ainda assim passa por muito sofrimento e angústia.

A cada página virada, Precious vai provando ao leitor porque pode e deve ser considerada uma garota preciosa e adorada, longe de toda a estupidez humana demonstrada pelas atitudes inconsequentes de seus pais e também da sociedade como um todo.

O livro “Preciosa”, assim como provavelmente o longa-metragem, será visto por muitos como mais um exemplo de vida, uma lição de superação, como a história de uma garota negra e gorda que venceu os obstáculos. Fosse apenas isso, os livros de autoajuda já se bastariam. 

A obra de Sapphire vai além, pois, com criatividade e sensibilidade, cospe ao mundo, de maneira realista, o triste relato de Claireece Precious Jones – alguém que sofre em demasia numa sociedade extremamente individualista, machista, racista, fetichista e cruel. 

Trecho do livro "Preciosa"

Espero ele sair de cima de mim. Fico ali deitada olho a parede até que a parede é um filme, O mágico de Oz, posso fazer esse filme passar a qualquer hora. Michael Jackson é o espantalho. Então meu corpo toma conta de mim de novo, a vida choca depois do terremoto, me estremece, eu gozo de novo. Meu corpo não é meu, odeio meu corpo goza.

Depois vou pro banheiro. Esfrego merda na cara. A sensação é boa. Não sei por que mas faço. Não contei isso nunca pra ninguém. Mas eu fazia. Se eu for pro grupo de apoio do inseto o que vou ouvir das outras garota? Roo as unha até elas parecer doente, arranco tiras da pele. Pego a gilete de papai no armário. Corto corto corto o pulso, não tentando morrer, tentando me ligar de volta. Sou uma TV sem imagem. Tô quebrada sem pensamento. Sem tempo passado nem presente. Só os filmes de ser outra pessoa. Uma pessoa que não é gorda, de pele escura, cabelo curto, uma pessoa que não é fudida. Uma garota sensual que ninguém cutuca. Uma garota de valor. Uma garota com peitinhos pequeno que é um amor. Um aMOOOR!

Para ler
Título: Preciosa
Autor: Sapphire
Editora: Record
Páginas: 192
Preço: R$ 29,90

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sistema binário da vida*

Wilame Prado

Vida mutante é a nossa. Mudanças acontecem todos os dias com a gente. Somos um organismo vivo, e isso significa dizer que não podemos, nem conseguimos, estacionar de um jeito só. É o ciclo natural de mudanças que nos leva do nascimento à morte. Assim acontece também com as cidades, que são organismos vivos, que nascem, sobrevivem, desenvolvem-se e estão fadadas ao desaparecimento. 

Estive em São Paulo por uma semana, uma cidade que completou 456 anos no último dia 25 de janeiro. A impressão que dá, junto ao caos, ao trânsito inescapável e ao mar de chuvas que cai todos os dias do céu, é que a famosa Terra da Garoa vai submergir. Ou explodir, levando em consideração o grau de aborrecimento que os motoristas adquiriram dirigindo nas ruas esburacadas e cheias da maior cidade do Brasil.

Faz poucos dias que retornei a Maringá - a recém-nascida Maringá, com seus 62 anos de vida. No sábado, presenciei um início de engarrafamento no quarteirão do Mercadorama, na avenida São Paulo. Decidi desviar o caminho. No carro, enquanto cantarolava as canções da banda curitibana Charme Chulo, tive vontade de rir, porque percebi a pequenez dos problemas maringaenses ao me lembrar do fim do mundo que é o engarrafamento paulistano.

Mesmo gostando muito das grandes metrópoles, posso dizer, sem medo de errar, que Maringá, no aspecto urbano, é uma das melhores cidades que se tem para viver. Os problemas encontrados por aqui são perfeitamente solucionáveis. Há luz no fim do túnel. Em São Paulo, não há nem túnel mais.

Dou o exemplo do trânsito. Os motoristas de Maringá não aguentavam mais ver o sinal da esquina da Santos Dummont abrir e fechar três vezes sem sair do lugar. Agora, com o sistema binário, creio que as coisas vão melhorar. No começo, vai ser difícil acostumar-se com as mudanças. Questão de meses para os motoristas maringaenses entenderem as regras do trânsito.

Em mais um aspecto, a cidade assemelha-se à vida. As mudanças incomodam no início, mas, depois, tudo se resolve. E a gente vai tocando sempre pra frente, seguindo o caminho, torcendo para pegar a onda verde, vivendo ou sobrevivendo.

Já está dando até saudade da época em que podíamos descer tranquilamente a avenida São Paulo rumo ao Parque do Ingá, ou então subir a Paraná para chegar na Colombo. A saudade é o que fica, mas é passado. Em pouco tempo, o esquecimento das direções das ruas e avenidas de Maringá será consequência certa. Neste aspecto, a cidade diferencia-se um pouco da nossa vida.

Muitas vezes, algumas mudanças acabam significando, com o passar do tempo, lembranças que não nos sai da cabeça. No sistema binário da vida, em que incrivelmente sempre temos dois caminhos a seguir e com escassos retornos a 300 metros, as escolhas que nos proporcionam mudanças podem ser erradas. Bate o arrependimento, e não o esquecimento. Infelizmente.

Longe de qualquer trânsito, fluxos de veículos alterados, longe das chuvas torrenciais, longe das capitais e também das cidades provincianas, neste momento, gostaria mesmo é de estar pilotando um carro potente, conversível e vermelho, curtindo a brisa e o sol, com o rádio ligado no último, tomando alguma bebida gelada para me refrescar e procurando não pensar em absolutamente nada, dando um tchau para as mutações, para as escolhas e para o sistema binário da vida.