quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Só me restam os textos*

          Wilame Prado
Quero contar uma coisa engraçada que aconteceu comigo. Era uma quarta-feira. O telefone tocou. Um tal de Marcelo na linha. Gente fina, o cara. Convidou-me para fazer um papel num comercial para a televisão. Eu seria um jornalista, numa praça de alimentação, informando que o shopping estava lotado.  
Nunca atuei. Sou tímido. Mas a grana era boa. Pelo que parece, 400 reais. Não podia recusar. Afinal, era só dizer duas frases e ir embora. Reprovei no teste. Perdi de ganhar dinheiro. Mas ganhei alguns conselhos e elogios. O Marcelo disse que eu era bonito e fotogênico (muito provavelmente, apenas consolos). Mas disse também que, caso eu quisesse entrar nesse mundo maquiado dos comerciais televisivos, teria de fazer pelo menos um curso de interpretação. E perder a timidez. Valeu pela experiência. 
Convidei-me para ser, quando ele precisasse, um figurante – aquela pessoa que passa despercebida na propaganda, geralmente fingindo estar conversando, sorridente, no segundo plano da imagem. O cara me disse que o cachê de um figurante é de 70 reais. Grana boa também. Mas, pensando bem, caso fosse trabalhar na área da propaganda, gostaria mesmo é de escrever os roteiros dos comerciais. O duro é que, geralmente, o roteirista não ganha 400 paus escrevendo duas frases. Talvez, nem mil frases.  Enfim.
Formei-me recentemente em jornalismo. O primeiro convite de trabalho que tive, depois de formado, foi para fingir ser um jornalista. E, ao contrário da minha fracassada tentativa cênica, isso não é engraçado. Aliás, pouca graça tem a vida de um jornalista recém-formado em Maringá. Não há muitas opções de trabalho, e, na maioria delas, a remuneração é pífia.  
Agora, formado e correndo atrás do seguro-desemprego, tento refletir sobre o que pode ser melhor para mim, profissionalmente falando. Estou a um passo de, por enquanto, desistir das reportagens para atuar em outra área de trabalho. É melhor do que ficar parado. Sendo assim, terei mais chances de ganhar dinheiro.
As pessoas se chocam, principalmente professores e colegas jornalistas, quando digo que poderei não atuar na área em que me formei. Eu não me importo muito. Afinal, sei o quanto a graduação foi importante para mim. Vou levar os ensinamentos para toda vida. Fazendo reportagem, sendo vendedor ou em qualquer área de atuação, conhecimento nunca é demais.
Tenho conversado bastante com pessoas mais velhas do que eu. Tenho ouvido conselhos sábios. E percebo que terei de escolher um caminho a seguir. Por enquanto, ainda não me decidi. É como se eu estivesse fechado para balanço. Ser ou não ser jornalista? Trabalhar para ganhar dinheiro ou pelo amor à profissão? Eis as questões. Bom seria conciliar as coisas. Quem sabe um dia.
A minha única certeza, neste momento, é que, independentemente da profissão escolhida, nunca, jamais, pararei de escrever. É uma questão de sobrevivência. É como respirar ou beber água.
Seja, quem sabe, num tão sonhado livro, neste blogue, no jornal, em outras colunas de jornal, em documentos de Word, numa sulfite datilografada, numa folha de caderno branca, num papel de pão, num guardanapo, num papel higiênico, na palma da mão ou, alucinadamente, nas paredes brancas de todo o apartamento, continuarei deixando os meus pensamentos se transformarem em letras, palavras, frases, parágrafos, textos. Ah, os adorados textos. Nesta vida sufocante, só me restam os textos.

5 comentários:

Flauzino disse...

Sem querer discutir a fundo o termo, mas você é um sortudo. Se quiser discutir, também, precisaríamos de mais espaço.

Wilame Prado disse...

Não entendi, Flauzino. Que "termo" você não quer discutir a fundo? Eu sou sortudo por quê? Se não há espaço para a discussão, você tem meu email. Caso queira, posso dar o telefone também.

Tatha Fernandes disse...

eu voto nos 'formados sem campo de atuação em Maringá' fazer as malas! o/

Tatha Fernandes disse...

e eu não acredito em sorte, e sim em talento!

Rafael Zanatta disse...

Tenho notado o termo "sufocante" em alguns textos.

É assim que se sente, em termos gerais? Sufocado?