segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memórias polêmicas em uma sauna finlandesa*

Wilame Prado
Especial para O Diário


Quem acompanha os escritos do colunista do site Congresso em Foco Marcelo Mirisola pode notar que, com ele, não há meias palavras. O que precisa ser escrito, sobre qualquer assunto, em especial sobre a mesquinhez da classe média e alta brasileira, o escritor paulistano, ora residente no Rio de Janeiro, parece sentir prazer em escrever, sem nove horas, sem censura, sem medo de críticas profissionais ou até mesmo de cunho pessoal. Com seus livros, e já são onze publicados, não é diferente.

Em seu último lançamento, “Memórias da sauna finlandesa”, publicado pela editora 34, a acidez de Mirisola vai além dos temas tratados em suas crônicas, que também não perdoam absolutamente ninguém, diga-se de passagem.

Para exemplificar, em crônicas recentes disponibilizadas em sua coluna ele supôs que o bispo R.R. Soares é a “encarnação agrícola de Belzebu“ e afirmou que o cantor de rap Mano Brown assinou “contratinho com o capeta” ao firmar parceria comercial com uma marca esportiva famosa.

Nas 176 páginas do livro, composto por 21 contos, o leitor não encontrará de maneira explícita histórias bonitinhas de amor. Misturando claramente relatos que parecem ter acontecido realmente com ele próprio e uma ficção absurdamente crua e nua, Mirisola, porém, demonstra que pessoas descaradamente canalhas – assim como ele próprio se auto-intitula em trechos do livro – também têm sentimentos, e geralmente acabam tendo de encarar a solidão, e amam, e choram com a partida da mulher, e reconhecem o valor de rabanadas fritas em pleno Natal.

A primeira impressão, lendo algumas páginas de “Memórias da sauna finlandesa”, é a de que se está lidando com uma literatura menor, escrachada demais e sem maiores preocupações literárias. Só primeira impressão. Na verdade, Mirisola facilita a compreensão dos fatos desenvolvendo uma prosa curta e simples. É como se o autor estivesse ao seu lado relatando todas aquelas histórias. E, deste modo, conseguindo repassar o recado, quase sempre venenoso.

Depois de apreciar contos como “Sobre os ombros dourados da felicidade”, em que o autor joga no lixo os costumes de uma classe alta decadente e fútil, ou no conto homônimo do livro, relato de um homem que finalmente cai na real, refletindo, numa sauna finlandesa, sobre a baixeza dos acontecimentos vividos em seus últimos trinta e cinco anos, Mirisola prova que tem algo a dizer e que algo precisa ser criticado. No livro, ele critica, sim, mas também acaba divertindo o leitor.

Para o autor (que demonstrou ter ficado pelo menos uma década, só na espreita, com o ouvido atento, dentro de uma sauna finlandesa alegórica, lotada de gente que tem posses e de gente que finge ter), a imbecilidade de alguns costumes que estão em voga na sociedade – tratar os animais de estimação como se fossem legítimos filhos ou aprender a comer sushi para ser chique são exemplos – é a matéria-prima para sua literatura corrosiva.

Com seus contos, Mirisola parece querer gritar que, independentemente das posses ou das conquistas pessoais e profissionais, a vida é uma eterna, mas sempre combatida, solidão nostálgica. Restam a todos (personagens, autor e leitores) cultivar o vazio existencial regando samambaias, cuidando de filhos-cachorros ou comprando sorvetes para a menininha que o chama de tio Marcelo.

Rabugentos

Atualmente no Brasil, poucos são os cronistas que escrevem sem censura e sem medo das consequências que a publicação pode acarretar. O colunista Diogo Mainard, da Veja, com sua obsessão em criticar o PT e o presidente Lula, perdeu há tempos o posto de escritor mais rabugento do país.

A briga para tal alcunha é disputada ferrenhamente por Marcelo Mirisola, que descarrega suas diatribes semanalmente no site Congresso em Foco (www.congressoemfoco.ig.com.br), e pelo também cronista Juremir Machado da Silva, que publica até seis crônicas por semana no jornal gaúcho Correio do Povo.

Tanto Machado da Silva quanto Mirisola, além das crônicas, têm livros publicados. “Memórias da sauna finlandesa” é a 11ª obra de Mirisola e a quarta publicada pela Editora 34, que também publicou “O azul do filho morto” (romance, 2002), “Bangalô” (romance, 2003) e “Notas da arrebentação” (2005). Com o livro de contos “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, publicado pela Estação Liberdade em 1998, Marcelo Mirisola estreou na literatura com aplausos da crítica.

Para ler
“Memórias da sauna finlandesa”, de Marcelo Mirisola (Editora 34, 176 páginas). R$ 28 (frete grátis pelo site da Editora 34 – www.editora34.com.br)

Um comentário:

Flauzino disse...

Boa abordagem. O Mirisola é um autor a ser descoberto. Acho legal estas resenhas, que acabam por recomendar um texto, um trabalho, um escritor. Interessante, que no domingo dia 17/01 o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, também publicou um pequeno comentário sobre este livro(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100117/not_imp496886,0.php). Aprendi uma palavra nova "diatribe".Quanto ao termo "sortudo", esqueça! Você também já deve ter feito isto. Escreveu e ao reler mudou uma palavra e nem soube a razão de tê-la escrito. Fui impulsivo. Pensava no texto que acabara de ler. Talvez eu quisesse dizer "felizardo". Se der, depois, eu me explico.