sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A literatura pautada pela dor de existir*

Nos contos de “A boca da verdade”, mais recente livro do escritor e jornalista Mario Sabino, a existência humana é algo visto, quase sempre, pela ótica da infelicidade



Wilame Prado

Com uma linguagem extremamente formal, os contos do mais recente livro lançado pelo escritor e jornalista Mario Sabino, “A boca da verdade” (editora Record, 2009), passeiam de forma interessante por questões filosóficas que cercam a vida dos homens e as relações humanas envolvendo aspectos da racionalidade, da religião, dos sentimentos e da intelectualidade.

Os onze contos de Sabino são divididos em três partes, intituladas, respectivamente, de “Inexistência”, “Recortes” e “Representações”. Com exceção dos três contos que compõem a última parte do livro, os demais são curtos. Contos pequenos, mas nem por isso facilmente maleáveis. Para que o leitor não perca os detalhes da prosa de Sabino (que, em alguns casos, são mais importantes do que o pleno entendimento da história descrita como um todo), é preciso muita atenção na leitura.

Não seria exagero também recomendar aos leitores estarem acompanhados de um dicionário para descobrirem o significado de palavras incomuns, porém bem utilizadas pelo autor, em quase todos os contos. Isso não quer dizer, no entanto, que ler “A boca da verdade” é tarefa exaustiva ou desestimulante por esse exercício de consulta constante.

Pela capacidade que o autor tem em abastecer suas histórias com paradigmas de uma vida moderna um tanto quanto amargurada e cheia de desilusões, o tempo utilizado para terminar de ler cada conto do livro será, com certeza, menor do que o tempo que o leitor ficará refletindo após o término da leitura.

Sobre sua literatura amarga, em certo ponto realista e reveladora, Sabino se justifica no posfácio do livro: “o mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim”.

Decadência

De todos os contos do livro, apenas um foge um pouco da premissa de ser pautado pela “dor de existir”, como Sabino afirma no posfácio. Trata-se do singelo “Genética” – duas páginas de pura prosa-poética. O conto narra, repetindo sempre as palavras “homem”, “menino”, “pai” e “filho”, uma emocionante história de um homem que vê em seu filho pequeno a possibilidade esperançosa de fazer coisas que não pôde fazer com seu pai.

As demais histórias falam da decadência humana, simbolizada pela trajetória de um pai e sua dentadura mal ajustada na boca; de um suposto pinguim (um velho homem) que faz reflexões sobre a força das necessidades fisiológicas versus a racionalidade; do drama de um cardeal, que, prestes a se tornar papa, passa a não acreditar na existência de Deus; de um testamento dividido em duas partes, sendo que a segunda só poderia ser lida pelo inventariante quando os filhos completassem 35 anos (momento, segundo o pai, em que era chegada a hora de os filhos conhecerem algumas verdades cretinas acerca dele próprio, para finalmente entenderem - e isso era a herança - que não se pode haver muita esperança com relação a existência).

Já o conto chamado “Demônio com coração de mármore”, por sua qualidade incontestável, poderia perfeitamente ter emprestado seu título ao livro. Na trama, o modo como o personagem Renato se deixa levar alucinadamente pelo mundo das aparências pretensiosas, às vezes vazias, que cerca a classe consumidora da arte e da cultura elitizada, pode ser traduzida num trecho revelador do conto: “O seu conhecimento e a sua sensibilidade não passavam de implantes tão artificiais quanto o do Outro. O máximo a que podia almejar era o bom gosto que se recodificava aos sabores da moda”.

Estando na moda ou não (vide a declarada aversão que muitos críticos e leitores dizem sentir por Mario Sabino pelo fato de ele ser editor-chefe da revista Veja), consumir a literatura – e isso é o que realmente importa – do autor, que também publicou pela Record o romance “O dia em que matei meu pai” e o livro de contos “O antinarciso”, é recomendação para quem quer ler textos, acima de tudo, muito bem escrito.

Para ler
Título: “A boca da verdade”.
Autor: Mario Sabino.
Editora: Record.
Páginas: 144.
Preço: R$ 29,9



Um comentário:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Obrigado pela excelente dica, Will. Vou procurar obter o livro então.

Adorei quando o autor diz que "o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor." É uma luva ao que literatamente penso.
abs