sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Incansável escritor*

Wilame Prado

Desde quando me conheço por gente que consome literatura, o nome do escritor Moacyr Scliar está presente em minha cabeça. Prestes a completar 73 anos, esse gaúcho, de fala tranquila e que aparenta estar vivendo uma parceria eterna com a serenidade, hoje coleciona uma das maiores, senão a maior, bibliografia produzida no Brasil, com mais de oitenta títulos publicados.

Fiz umas contas. Um dos primeiros livros publicados por Scliar (que também é médico com pós-graduação concluída em Israel) data de 1968, ou seja, há 42 anos. É um livro de contos chamado “O carnaval dos animais”. Se pegarmos o número exato 80 e dividirmos por 42 anos, chegaremos à conclusão matemática de que o incansável escritor produziu uma média de quase dois livros por ano. E isso sem parar um ano sequer de escrever, atuando como médico especialista em saúde pública e ainda dando aulas na universidade.

Só que, diferentemente dos títulos conquistados por um time qualquer de futebol, na literatura a quantidade não é, em si, um fator predominante. O escritor J. D. Salinger, por exemplo, é até hoje apreciado por uma única obra, que inclusive tem um preço salgado na livraria e que continua vendendo bem, chamada “O apanhador no campo de centeio”, publicada no longínquo ano de 1951. Posso ainda citar outro escritor renomado, que fez uma literatura de primeira, mas que não produziu muito, o ítalo-americano John Fante.
Com isso, porém, não estou querendo dizer que Moacyr Scliar produz livros que não há qualidade. Pelo contrário. Dos quase dez livros que li deste autor, poucos eu declaradamente não gostei. Aliás, gostar, eu gostei de todos. Mas o gosto, em sim, não significa dizer que o livro é bom ou ruim.
É que, em algumas obras, senti-me distante da trama fictícia pelo fato de o autor mergulhar de cabeça nas questões gauchescas ou então judaicas (um dos melhores livros do Scliar, chamado “O centauro no jardim”, foi incluída na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center).

É justamente essa capacidade que Scliar tem em produzir alucinadamente livros bem escritos que me chamou atenção e que me fez coçar os dedos para escrever esta crônica. Outro motivo que também me instigou a discorrer sobre Scliar se deu por conta de seus últimos prêmios conquistados na literatura.

Com seu romance “Manual da paixão solitária” (Companhia das Letras, 2008), o gaúcho levou para casa mais um prêmio Jabuti de melhor romance e também de melhor livro de ficção do ano de 2009. Neste livro, Scliar confecciona uma trama de 216 páginas inspirada numa única passagem bíblica: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos Er, Onan e Shelá, e de uma mulher chamada Tamar. Eu recomendo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A literatura pautada pela dor de existir*

Nos contos de “A boca da verdade”, mais recente livro do escritor e jornalista Mario Sabino, a existência humana é algo visto, quase sempre, pela ótica da infelicidade



Wilame Prado

Com uma linguagem extremamente formal, os contos do mais recente livro lançado pelo escritor e jornalista Mario Sabino, “A boca da verdade” (editora Record, 2009), passeiam de forma interessante por questões filosóficas que cercam a vida dos homens e as relações humanas envolvendo aspectos da racionalidade, da religião, dos sentimentos e da intelectualidade.

Os onze contos de Sabino são divididos em três partes, intituladas, respectivamente, de “Inexistência”, “Recortes” e “Representações”. Com exceção dos três contos que compõem a última parte do livro, os demais são curtos. Contos pequenos, mas nem por isso facilmente maleáveis. Para que o leitor não perca os detalhes da prosa de Sabino (que, em alguns casos, são mais importantes do que o pleno entendimento da história descrita como um todo), é preciso muita atenção na leitura.

Não seria exagero também recomendar aos leitores estarem acompanhados de um dicionário para descobrirem o significado de palavras incomuns, porém bem utilizadas pelo autor, em quase todos os contos. Isso não quer dizer, no entanto, que ler “A boca da verdade” é tarefa exaustiva ou desestimulante por esse exercício de consulta constante.

Pela capacidade que o autor tem em abastecer suas histórias com paradigmas de uma vida moderna um tanto quanto amargurada e cheia de desilusões, o tempo utilizado para terminar de ler cada conto do livro será, com certeza, menor do que o tempo que o leitor ficará refletindo após o término da leitura.

Sobre sua literatura amarga, em certo ponto realista e reveladora, Sabino se justifica no posfácio do livro: “o mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim”.

Decadência

De todos os contos do livro, apenas um foge um pouco da premissa de ser pautado pela “dor de existir”, como Sabino afirma no posfácio. Trata-se do singelo “Genética” – duas páginas de pura prosa-poética. O conto narra, repetindo sempre as palavras “homem”, “menino”, “pai” e “filho”, uma emocionante história de um homem que vê em seu filho pequeno a possibilidade esperançosa de fazer coisas que não pôde fazer com seu pai.

As demais histórias falam da decadência humana, simbolizada pela trajetória de um pai e sua dentadura mal ajustada na boca; de um suposto pinguim (um velho homem) que faz reflexões sobre a força das necessidades fisiológicas versus a racionalidade; do drama de um cardeal, que, prestes a se tornar papa, passa a não acreditar na existência de Deus; de um testamento dividido em duas partes, sendo que a segunda só poderia ser lida pelo inventariante quando os filhos completassem 35 anos (momento, segundo o pai, em que era chegada a hora de os filhos conhecerem algumas verdades cretinas acerca dele próprio, para finalmente entenderem - e isso era a herança - que não se pode haver muita esperança com relação a existência).

Já o conto chamado “Demônio com coração de mármore”, por sua qualidade incontestável, poderia perfeitamente ter emprestado seu título ao livro. Na trama, o modo como o personagem Renato se deixa levar alucinadamente pelo mundo das aparências pretensiosas, às vezes vazias, que cerca a classe consumidora da arte e da cultura elitizada, pode ser traduzida num trecho revelador do conto: “O seu conhecimento e a sua sensibilidade não passavam de implantes tão artificiais quanto o do Outro. O máximo a que podia almejar era o bom gosto que se recodificava aos sabores da moda”.

Estando na moda ou não (vide a declarada aversão que muitos críticos e leitores dizem sentir por Mario Sabino pelo fato de ele ser editor-chefe da revista Veja), consumir a literatura – e isso é o que realmente importa – do autor, que também publicou pela Record o romance “O dia em que matei meu pai” e o livro de contos “O antinarciso”, é recomendação para quem quer ler textos, acima de tudo, muito bem escrito.

Para ler
Título: “A boca da verdade”.
Autor: Mario Sabino.
Editora: Record.
Páginas: 144.
Preço: R$ 29,9



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deus te ama muito*



                    Wilame Prado
Antes de ligar sua motocicleta na garagem do prédio, olhou para cima e notou que havia, contrastando com o céu azul daquele verão tórrido maringaense, nuvens acinzentadas que prenunciavam garoa ou, pelo menos, pancadas dispersas de chuva.

Mas não tinha outro jeito. O ar pesado cheirando a amônia do apartamento – consequência das urinadas e defecadas do gato trancafiado naqueles cinquenta metros quadrados de moradia – obrigava-o a visitar urgentemente o supermercado mais próximo para renovar a areia do banheiro (caixinha) do felino solitário e mijão.

Nenhuma gota de água caiu do céu naquela tarde abafada de janeiro. Já dentro do supermercado, na avenida Cerro Azul, sentiu uma imensa alegria ao ver, na banquinha de DVD´s, que, incrível e finalmente, encontrara o filme “O Siciliano”, de Michael Cimino (o mesmo diretor de “O franco atirador”, protagonizado por Robert de Niro).

Com módicos R$ 10,90, comprou o longa-metragem, estreado em 1987, inspirado no livro homônimo de Mário Puzo que narra a história real de Salvatore Giuliano, um anti-herói siciliano que desafiou a igreja, o governo e a temida Máfia. Há mais de quatro anos, quando consumiu o livro de Puzo em dois dias alucinantes, depois de tê-lo descoberto e comprado no Sebo Cultura, tentava, em vão, baixar o filme pela internet.

Portanto, sentiu-se iluminado naquele momento, segurando, numa das mãos, um saquinho com quatro pães, e na outra, o pacote de areia para gatos, quando olhou, em meio a inúteis filmes, a capa laranja com um sujeito garboso – o ator Christopher Lambert interpretando o corajoso Giuliano, um siciliano íntegro, cheio de princípios. Não havia ninguém por perto. Mesmo assim, correu, deixando as compras pelo chão, e logo pegou o DVD, tal qual uma criança quando vê um brinquedo dando mole.

Afobado, tentava rapidamente colocar o capacete, ligar a moto e sair voando pelas ruas transitadas de Maringá para colocar o filme em seu aparelho de DVD. Mas um rapaz escanelado, com vestes sociais amassadas, também prestes a ligar sua moto vermelha ao lado, olhou para ele e iniciou, sem permissão ou parcimônia, um diálogo, no início, amistoso, mas logo depois, perturbador:
- Que calor rapaz!


- É, mas, pelo jeito, vai chover de novo.
Respondeu.


- Mas a chuva é boa pra refrescar.


- Não aguento mais essas chuvas.
Disse, tentando, em vão, finalizar o papo furado metereológico e, assim, poder assistir tranquilamente ao filme.


O rapaz da moto vermelha continuou sorrindo amigavelmente e falou:
- Você não quer que chova, né (risos)? Deus te ama muito! Tchau.


Atônito com os dizeres “Deus te ama muito!”, imediatamente esqueceu-se do produto da indústria cultural que tanto queria consumir. Nunca ninguém havia dito aquilo para ele, pelo menos não sem nenhuma intenção de coleta de dízimo ou tentativa de convencimento que igreja x é melhor do que igreja y, ou vice-versa.

Seguiu, um tanto quanto voado, com sua motocicleta pela Cerro Azul. Distraído, tentando refletir sobre a frase do magro rapaz da moto vermelha, foi acertado em cheio por um ônibus coletivo no redondo do Teatro Reviver.

O trânsito, que já era conturbado, transformou-se em caos. Seu sangue escuro derramado no asfalto molhou o saquinho de pão. A areia do gato esparramou-se por toda a pista, retocando o clima trágico existente no ar. Ele nunca assistiu ao tão desejado filme “O Siciliano”. Seu apartamento continuou, por muitos dias, fedendo a amônia. A última frase que ouviu em vida foi: “Deus te ama muito”.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Carta em homenagem aos 80 anos da Dona Luzia Garcia do Prado*


Wilame Prado


Você já experimentou, em um dia qualquer, sentar para conversar com a Dona Luzia Garcia do Prado? Não? Então faça isso. Seu relato pessoal de vida, no mínimo, daria um livro.
Dona Luzia teve uma infância difícil, se é que poderia ser chamado de infância. Perdeu sua mãe ainda criança, com apenas 9 anos de idade. Essa tragédia obrigou Dona Luzia a se tornar mãe com menos de 10 primaveras vividas. Suas brincadeiras, na verdade, eram sérias, cuidando dos irmãos mais novos. Seus brinquedos não passavam de panelas, enxadas ou vassouras.
Difícil ver lado bom nisso tudo, né? Mas, pensando bem, Dona Luzia aprendeu cedo o significado da palavra responsabilidade. Isso porque, embora tivesse de trabalhar e cuidar dos irmãos desde pequena, nunca se esqueceu da importância do estudo. O lápis e o caderno sempre a acompanharam.
Ela também se lembrou da palavra responsabilidade quando, aos 21 anos, não pensou duas vezes em querer casar com um tal de João Azarias do Prado - um moço paquerador, mas muito bonito e trabalhador, que a rodeava na colônia.
Tanto Dona Luzia como João Azarias tinham vários motivos para chorar, sejam por problemas nas famílias, sejam pelas dificuldades financeiras. Mas, pelo contrário, preferiram sorrir, se amar e, como fruto desse amor, cultivar 10 filhos.
Evanir, Neuza, Luci, Carmen, João Azarias Filho, Ana Maria, Mário, Carlos, Solange e Marcos Roberto. Essas foram as graças que os filhos receberam. Eles, mais tarde, seguiram o amor dos pais e deram de presente à Luzia e a João Azarias mais de 30 netos e já alguns bisnetos. E essa fábrica não para por aí!
No decorrer desses 80 anos, Dona Luzia faz questão, até hoje, de trabalhar. Não teve um desafio sequer que ela não enfrentou. Durante todo esse tempo, muita coisa boa e, infelizmente, coisas ruins, aconteceram com ela e com a família.
Talvez, com seus 80 anos de idade, Dona Luzia percebeu que amar vale a pena. E que valorizar as pessoas que estão ao seu redor, vale mais ainda. Para dar um exemplo: quem nunca foi elogiado pela Dona Luzia ou nunca ganhou adjetivos como “trabalhador”, “esforçado”, “bonito”, “bonzinho”, e tantos outros, que atire a primeira pedra.
 É por isso que hoje, Dona Luzia, ou Vó Luzia, ou ainda Mãe, Sogra, enfim, hoje você é um orgulho para a Família Azarias do Prado. Nesta carta, só queríamos deixar bem claro o quanto te amamos e o quanto temos de agradecer à senhora, pois nos mostrou a importância que há na dedicação diária para que os sonhos se tornem realidade.
Agradecemos a senhora pelo iogurte que há tantos anos nos alimentou e fez das nossas tardes de verão um dia inesquecível. Dias esses em que tios, mães, pais, irmãos, vó, vô, ficavam sentados nas cadeiras de área, enquanto as crianças brincavam de Balança Caixão, correndo pra lá e pra cá por toda a lajota da “Vó”.
Agradecemos a senhora que, assim como na Oração da Família do Padre Zezinho, sempre respeitou o lar, seu marido e, dessa maneira, deu o exemplo a seus filhos, que amam você eternamente.
Agradecemos a senhora por sempre deixar a casa aberta para qualquer um da família, sem exceção ou discriminação. Quantas e quantas vezes, nós não fomos “filar” uma “boia” na casa da Dona Luzia?
Agradecemos por, na hora de tantas fatalidades, como nos falecimentos de Evanir, João Azarias, Silvia, Mário e Wilame Elias, ter sido a mais forte da família e a que nos manteve de pé, enquanto que, erroneamente, ficávamos preocupados, pensando que a senhora não aguentaria a dor de uma perda tão grande.
Enfim, Dona Luzia, agradecemos pelo a dádiva do seu nascimento, ocorrido há 80 anos, no dia 6 de abril de 1928. Essa data deve ser marcada como o dia em que nasceu uma pessoa que nunca fez mal pra ninguém.
Todos nós te amamos e desejamos um feliz aniversário. E que, a partir dos 80, sua vida se renove para que chegue, no mínimo, ao 100 anos, com amor, fé, serenidade e muitas histórias para contar.
A senhora é simplesmente linda!
São os votos da Família Azarias do Prado – filhos, netos, bisnetos, genros, mulheres e namoradas de netos, maridos e namorados de netas, e por aí vai!!!!!!!


*Carta escrita por mim em homenagem aos 80 anos da minha querida avó Luzia Garcia do Prado (completados em 6 de abril de 2008), que, infelizmente, nos deixou nesta tarde quente e sufocante do dia 19 de janeiro de 2010, aos 81 anos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memórias polêmicas em uma sauna finlandesa*

Wilame Prado
Especial para O Diário


Quem acompanha os escritos do colunista do site Congresso em Foco Marcelo Mirisola pode notar que, com ele, não há meias palavras. O que precisa ser escrito, sobre qualquer assunto, em especial sobre a mesquinhez da classe média e alta brasileira, o escritor paulistano, ora residente no Rio de Janeiro, parece sentir prazer em escrever, sem nove horas, sem censura, sem medo de críticas profissionais ou até mesmo de cunho pessoal. Com seus livros, e já são onze publicados, não é diferente.

Em seu último lançamento, “Memórias da sauna finlandesa”, publicado pela editora 34, a acidez de Mirisola vai além dos temas tratados em suas crônicas, que também não perdoam absolutamente ninguém, diga-se de passagem.

Para exemplificar, em crônicas recentes disponibilizadas em sua coluna ele supôs que o bispo R.R. Soares é a “encarnação agrícola de Belzebu“ e afirmou que o cantor de rap Mano Brown assinou “contratinho com o capeta” ao firmar parceria comercial com uma marca esportiva famosa.

Nas 176 páginas do livro, composto por 21 contos, o leitor não encontrará de maneira explícita histórias bonitinhas de amor. Misturando claramente relatos que parecem ter acontecido realmente com ele próprio e uma ficção absurdamente crua e nua, Mirisola, porém, demonstra que pessoas descaradamente canalhas – assim como ele próprio se auto-intitula em trechos do livro – também têm sentimentos, e geralmente acabam tendo de encarar a solidão, e amam, e choram com a partida da mulher, e reconhecem o valor de rabanadas fritas em pleno Natal.

A primeira impressão, lendo algumas páginas de “Memórias da sauna finlandesa”, é a de que se está lidando com uma literatura menor, escrachada demais e sem maiores preocupações literárias. Só primeira impressão. Na verdade, Mirisola facilita a compreensão dos fatos desenvolvendo uma prosa curta e simples. É como se o autor estivesse ao seu lado relatando todas aquelas histórias. E, deste modo, conseguindo repassar o recado, quase sempre venenoso.

Depois de apreciar contos como “Sobre os ombros dourados da felicidade”, em que o autor joga no lixo os costumes de uma classe alta decadente e fútil, ou no conto homônimo do livro, relato de um homem que finalmente cai na real, refletindo, numa sauna finlandesa, sobre a baixeza dos acontecimentos vividos em seus últimos trinta e cinco anos, Mirisola prova que tem algo a dizer e que algo precisa ser criticado. No livro, ele critica, sim, mas também acaba divertindo o leitor.

Para o autor (que demonstrou ter ficado pelo menos uma década, só na espreita, com o ouvido atento, dentro de uma sauna finlandesa alegórica, lotada de gente que tem posses e de gente que finge ter), a imbecilidade de alguns costumes que estão em voga na sociedade – tratar os animais de estimação como se fossem legítimos filhos ou aprender a comer sushi para ser chique são exemplos – é a matéria-prima para sua literatura corrosiva.

Com seus contos, Mirisola parece querer gritar que, independentemente das posses ou das conquistas pessoais e profissionais, a vida é uma eterna, mas sempre combatida, solidão nostálgica. Restam a todos (personagens, autor e leitores) cultivar o vazio existencial regando samambaias, cuidando de filhos-cachorros ou comprando sorvetes para a menininha que o chama de tio Marcelo.

Rabugentos

Atualmente no Brasil, poucos são os cronistas que escrevem sem censura e sem medo das consequências que a publicação pode acarretar. O colunista Diogo Mainard, da Veja, com sua obsessão em criticar o PT e o presidente Lula, perdeu há tempos o posto de escritor mais rabugento do país.

A briga para tal alcunha é disputada ferrenhamente por Marcelo Mirisola, que descarrega suas diatribes semanalmente no site Congresso em Foco (www.congressoemfoco.ig.com.br), e pelo também cronista Juremir Machado da Silva, que publica até seis crônicas por semana no jornal gaúcho Correio do Povo.

Tanto Machado da Silva quanto Mirisola, além das crônicas, têm livros publicados. “Memórias da sauna finlandesa” é a 11ª obra de Mirisola e a quarta publicada pela Editora 34, que também publicou “O azul do filho morto” (romance, 2002), “Bangalô” (romance, 2003) e “Notas da arrebentação” (2005). Com o livro de contos “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, publicado pela Estação Liberdade em 1998, Marcelo Mirisola estreou na literatura com aplausos da crítica.

Para ler
“Memórias da sauna finlandesa”, de Marcelo Mirisola (Editora 34, 176 páginas). R$ 28 (frete grátis pelo site da Editora 34 – www.editora34.com.br)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Só me restam os textos*

          Wilame Prado
Quero contar uma coisa engraçada que aconteceu comigo. Era uma quarta-feira. O telefone tocou. Um tal de Marcelo na linha. Gente fina, o cara. Convidou-me para fazer um papel num comercial para a televisão. Eu seria um jornalista, numa praça de alimentação, informando que o shopping estava lotado.  
Nunca atuei. Sou tímido. Mas a grana era boa. Pelo que parece, 400 reais. Não podia recusar. Afinal, era só dizer duas frases e ir embora. Reprovei no teste. Perdi de ganhar dinheiro. Mas ganhei alguns conselhos e elogios. O Marcelo disse que eu era bonito e fotogênico (muito provavelmente, apenas consolos). Mas disse também que, caso eu quisesse entrar nesse mundo maquiado dos comerciais televisivos, teria de fazer pelo menos um curso de interpretação. E perder a timidez. Valeu pela experiência. 
Convidei-me para ser, quando ele precisasse, um figurante – aquela pessoa que passa despercebida na propaganda, geralmente fingindo estar conversando, sorridente, no segundo plano da imagem. O cara me disse que o cachê de um figurante é de 70 reais. Grana boa também. Mas, pensando bem, caso fosse trabalhar na área da propaganda, gostaria mesmo é de escrever os roteiros dos comerciais. O duro é que, geralmente, o roteirista não ganha 400 paus escrevendo duas frases. Talvez, nem mil frases.  Enfim.
Formei-me recentemente em jornalismo. O primeiro convite de trabalho que tive, depois de formado, foi para fingir ser um jornalista. E, ao contrário da minha fracassada tentativa cênica, isso não é engraçado. Aliás, pouca graça tem a vida de um jornalista recém-formado em Maringá. Não há muitas opções de trabalho, e, na maioria delas, a remuneração é pífia.  
Agora, formado e correndo atrás do seguro-desemprego, tento refletir sobre o que pode ser melhor para mim, profissionalmente falando. Estou a um passo de, por enquanto, desistir das reportagens para atuar em outra área de trabalho. É melhor do que ficar parado. Sendo assim, terei mais chances de ganhar dinheiro.
As pessoas se chocam, principalmente professores e colegas jornalistas, quando digo que poderei não atuar na área em que me formei. Eu não me importo muito. Afinal, sei o quanto a graduação foi importante para mim. Vou levar os ensinamentos para toda vida. Fazendo reportagem, sendo vendedor ou em qualquer área de atuação, conhecimento nunca é demais.
Tenho conversado bastante com pessoas mais velhas do que eu. Tenho ouvido conselhos sábios. E percebo que terei de escolher um caminho a seguir. Por enquanto, ainda não me decidi. É como se eu estivesse fechado para balanço. Ser ou não ser jornalista? Trabalhar para ganhar dinheiro ou pelo amor à profissão? Eis as questões. Bom seria conciliar as coisas. Quem sabe um dia.
A minha única certeza, neste momento, é que, independentemente da profissão escolhida, nunca, jamais, pararei de escrever. É uma questão de sobrevivência. É como respirar ou beber água.
Seja, quem sabe, num tão sonhado livro, neste blogue, no jornal, em outras colunas de jornal, em documentos de Word, numa sulfite datilografada, numa folha de caderno branca, num papel de pão, num guardanapo, num papel higiênico, na palma da mão ou, alucinadamente, nas paredes brancas de todo o apartamento, continuarei deixando os meus pensamentos se transformarem em letras, palavras, frases, parágrafos, textos. Ah, os adorados textos. Nesta vida sufocante, só me restam os textos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A reportagem mais "deliciosa" que já fiz


Para a última edição da revista maringaense ZAZ, nº 56, eu e o fotógrafo Fábio Dias fizemos uma reportagem sobre o Mercadão Municipal de Maringá. Quem tiver interesse em ler essa e outras interessantes matérias publicadas na revista, o preço de banca é R$ 12,90. Entretanto, a revista bimestral ZAZ é encontrada em inúmeros estabelecimentos comerciais de Maringá. Leia, aprecie as fotos e me conte o que achou da reportagem. Depois, visite o Mercadão Municipal de Maringá. É um show de gastronomia. Foi a reportagem mais "deliciosa" que já fiz.

Aproveito esta postagem para agradecer aos leitores que insistem em visitar A Poltrona. No último dia 8 de janeiro, este blogue completou dois anos, data a qual tinha me esquecido completamente. Fica aqui meus sinceros agradecimentos a todos que apreciam meu trabalho. Um abraço. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O que a gente tava falando mesmo?*

Wilame Prado

Em viradas de anos, amigos de boteco (os famosos filósofos de mesa de bar) não ficam juntos. Com suas famílias reunidas em torno de churrasqueiras fumegantes e sobremesas que ficam fora da geladeira, aproveitam o primeiro feriado do ano para reafirmarem seus papéis de maridos, pais, filhos e netos.

Carneiros e abacaxis passados, tudo volta rapidamente ao normal. No balcão do Bar do Vargas, numa pequena cidade perdida do interior do Paraná, José Carlos e Joaquim Eduardo se encontram pela primeira vez em 2010.

Naquela terça-feira quente e desanimadora, José Carlos é o primeiro a chegar ao bar. Pede uma cerveja, garrafa de 600ml, e um copo. Vira seu banquinho, próximo ao balcão, em direção do gramado verde da mesa de sinuca. Não dá palpites, mas analisa as tacadas tortas dos companheiros do bilhar. Deixa, vez ou outra, escapar de leve um sorriso miúdo de escárnio.

Poucos minutos depois, Joaquim Eduardo, um verdadeiro fanfarrão, já vai logo gritando com o Vargas, pedindo um copo limpo e afirmando para todos que tomaria da cerveja do José Carlos porque, caso contrário, o líquido amarelo na garrafa e no copo do amigo atrairia os mosquitos da dengue.

José Carlos estava distraído vendo as unhas carcomidas do pé de um bêbado sentado na parte de fora do bar quando Joaquim Eduardo fez uma pergunta difícil de responder:

- O que espera pra 2010?

- O que o Osvaldinho tem no pé, hein Joaquim? Se viu aquela bicheira ali? – indaga José Carlos, não respondendo a pergunta do amigo porque já tinha se esquecido o que havia sido perguntado.

- Ô Osvaldinho! Passa uma arnica nesse teu pé podre porque já tá atraindo mosca aqui pro bar, caramba! Ou então joga esse teu copo de pingão na ferida pra dar uma desinfetada! – grita Joaquim Eduardo, motivando risos de todos que estão no bar.

Os amigos continuam a beber cerveja e a conversar sobre coisas inúteis da vida. E isso é o que eles vêm fazendo há muitos anos naquele balcão do Bar do Vargas.

Com um repentino silêncio, Joaquim Eduardo se lembra do que ele programou para conversar com seu amigo José Carlos. E pergunta novamente:

- Ô Zé! O que cê quer fazer em 2010?

- Pergunta difícil, hein Joaquim! Sei lá, meu. Aguentar o Dunga sendo campeão do mundo. Aguentar o horário político.

- Falando sério, Zé! Neste ano de 2010, quero ser menos brincalhão e parar de ficar o tempo todo aqui no Bar do Vargas...

- Ué! Aconteceu alguma coisa com você na virada? Ce tá esquisito, Joaquim...

Joaquim Eduardo nem ouviu o que seu amigo José Carlos respondeu. Naquele momento, com uma ligeireza sem tamanho, já estava jogando um copo de pinga no pé bichado do bêbado Osvaldinho e dando tapinhas amigáveis em sua cabeçorra suja.

- Ô Vargas! Duas doses de pingão calibradas aqui pro Osvaldinho. É por minha conta.

- O que a gente tava falando mesmo, Zé?

*Conto publicado dia 5 de janeiro de 2010 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná