sexta-feira, 14 de maio de 2010

A poltrona rasgou - FIM

Algumas pessoas não perceberam o link disposto ao final do post anterior, que trata-se de uma brincadeira convidativa para o meu novo blog, agora inserido na blogosfera de odiário.com.


Por isso, peço gentilmente a todos que sentiam prazer em sentar-se nesta poltrona que agora visitem meu novo espaço na internet, onde publicarei diariamente minhas crônicas e outras delongas. Acessem:


http://www.odiario.com/blogs/wilameprado

A poltrona rasgou

A poltrona foi para o conserto e talvez não volte mais. Obrigado, caros leitores, pelas visitas e comentários feitos neste humilde blog, que começou meio na brincadeira, em janeiro de 2008, mas que hoje já me rende alguns frutos.

Para quem acredita em ressurreição, talvez exista vida depois da morte. Ou, talvez ainda, a morte seja somente umas férias indeterminadas. Saiba mais. 

terça-feira, 4 de maio de 2010

O jogo segue*

Wilame Prado


Sou um cara que já não vibro tanto com as minhas vitórias. Para mim, é mais prazeroso contar as boas novas para os meus heróis do que a conquista em si. O problema é que nem isso eu posso mais. Isso porque, um processo de desencantamento e quietude, existente em meu ser até nas horas em que sorrisos poderiam estar escancarados, deu-se início há três anos, quando o Bila (assim os conhecidos chamavam o meu pai porque o nome Wilame era muito difícil de se pronunciar) resolveu fazer a viagem sem volta da morte.

Bila é o meu herói. Ou melhor, o meu anti-herói. Nossa relação entre pai e filho não foi das melhores, admito. Faltava diálogo. Faltava carinho. Acho que meu pai passou vinte anos tentando encontrar alguma forma de me agradar. Errou ao tentar me mimar com coisas materiais. Acho que passei vinte anos tentando provar para o meu pai que eu o amava. Errei ao aceitar sua inconstante distância.

Tendo em vista tudo isso, pergunto-me, principalmente quando ergo a taça de campeão na vida, se realmente as brindadas valeram a pena. A felicidade é tão fugaz, não? Escorre dos nossos dedos como manteiga derretida. Almejamos tanto os momentos felizes, mas ficamos totalmente perdidos quando chegam. Se felizes, não sabemos direito o que fazer.

Nessas horas benquistas, o melhor seria, pelo menos, propagar a felicidade contando para os nossos heróis o quanto você se sente feliz. Mas nem esse gostinho eu tenho mais. É que não só o Bila pegou o bonde do infinito rumando para o desconhecido. Compraram também o bilhete só de ida avós, tios e amigos, impedindo-me de tentar ser um pouco mais feliz, pelo menos nas horas em que, pressupõe-se, deveria estar, sim, feliz.

Sei que, ao revelar esse meu completo desprendimento com as maravilhas que acontecem em minha vida, acabo por desmerecer um milhão de pessoas que estão ao meu redor e que torcem para que tudo dê certo. Por isso, peço desculpas a eles, reiterando algo em que talvez não saibam direito: as vitórias só acontecem porque estou vivo para buscá-las; e se estou vivo, é graças a todos eles – os heróis que ainda não me deixaram.

Neste último sábado, 1º de maio, o dia do trabalhador, três anos se passaram desde que o velho Bila se foi. E, incrivelmente, os últimos três anos da minha vida foram quando finalmente conquistei alguns pódios. Antes disso, chateado ficava quando tinha de admitir ao meu anti-herói que seu filho ficara em último lugar ou, 
o mais corriqueiro, que nem chegara a participar da prova.

Pergunto-me, inquieto, se alguma força superior vem tentando me compensar em vida a tristeza tão grande que é perder o pai. Sendo isso uma verdade ou não, fato é que todas minhas conquistas são enlutadas e, por isso, é bem provável que ainda continuarei marcando alguns gols nesse mundão, mas, mesmo se algum dia ele for de placa, não haverá comemorações. Pegarei a bola e a colocarei novamente no meio de campo. A vida continua. Vitórias e derrotas existirão, sempre. Segue o jogo, então, mas com a tarja preta enlaçando o braço.


terça-feira, 27 de abril de 2010

Com a internet, o Acre é logo ali*

Wilame Prado

Entre as milhares de coisas que a internet nos oferece, uma em especial me deixa muito contente: a comunicação que posso manter diretamente com escritores, músicos e outras pessoas que realizam trabalhos dos quais eu admiro.


Semana passada, neste espaço onde escrevo às terças-feiras, publiquei uma resenha elogiosa sobre o lançamento “A invenção do crime”, romance de estreia da jornalista mineira Leida Reis. Com as possibilidades da internet, pude sugerir a leitura do texto para a própria autora. Mais do que isso, pude também iniciar uma gostosa amizade via email com ela.


Fiquei muito feliz quando Leida, via twitter, pediu para que eu encaminhasse meu endereço residencial a ela. É que vou ser presenteado com uma edição rara e independente do primeiro livro da autora, o “The cães amarelos”, uma seleção de contos publicada em 1991.

Dias atrás, também iniciei uma conversa no twitter com um dos músicos, em meu ponto de vista, mais brilhantes deste país, o paulistano Romulo Fróes. Tenho todos os quatro CDs (em mp3, no PC) do brilhante compositor e intérprete, mas fiquei curioso quando, ao ler uma entrevista, descobri que ele tinha uma banda antes de iniciar o trabalho solo.

Resultado: ganhei, via email, quatro músicas raras de Romulo Fróes que fazem parte de um EP lançado pelo músico há praticamente dez anos. Também já estou tramando com ele uma entrevista exclusiva para quando eu visitar a querida terra da garoa.

Por email, converso com Miguel Sanches Neto (um dos grandes escritores paranaenses), Cristovão Tezza (fez “O filho eterno”, eleito o melhor romance de 2008 pelo Jabuti), Domingos Pellegrini (me presenteou com dois bonitos livros de poesias), Roberto Gomes (cronista do jornal Gazeta do Povo), Ana Paula Maia (postou em seu blog a resenha que fiz do seu último livro), Juremir Machado da Silva (um dos grandes cronistas e escritores do Brasil) e tantos outros artistas por quem tenho apreço.

Via email, twitter ou facebook, também mantenho contato com diversos jornalistas espalhados por esse Brasil, sempre no intuito de crescer profissionalmente com as trocas de ideias. Aliás, vocês, caros leitores, sabem como consegui um espaço como cronista do Diário?

Respondo: enchendo o saco, via email, dos editores do Diário por quase seis meses, mandando textos e mais textos para eles e tentando provar que os meus escritos poderiam compor o caderno de cultura. Desde então, já são mais de dois anos de “Crônico” e quase cem crônicas publicadas.

É por essas e outras que faço a recomendação: utilizem o que a internet pode nos oferecer de bom, entre em contato com seus ídolos e converse com pessoas capacitadas da sua área, mesmo que elas residam em São Paulo, Nova York, Paris ou até mesmo no longínquo e desconhecido Acre, no Pará (brincadeira, a de dizer que o Acre fica no Pará, de tão desconhecido que é, que gerou confusões hoje no twitter!).


*Crônica publicada dia 27 de abril de 2010 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A invenção de Leida Reis*

Wilame Prado


Na Líbia, Assam é barrado logo na entrada do local onde trabalha há 14 anos e não entende o porquê. Deste modo, já não poderá continuar traficando armas para os russos. Com o Vicente, no Rio de Janeiro, algo semelhante acontece.

Porém, em vez de não conseguir entrar no trabalho, o matador de aluguel, que atua no morro do Alemão, vê-se como um idiota tentando, em vão, entrar em sua casa há onze dias. Em Angola, o empresário podre de rico é expulso a pontapés do luxuoso hotel que jura de pés juntos um dia ter sido seu.

São em capítulos separados pelo nome de diferentes cidades espalhadas pelo mundo, com o mistério sendo o tempero comum entre ambos, que Leida Reis, editora e cronista do jornal mineiro “Hoje em dia”, desenvolve o livro “A invenção do crime” (Editora Record, 165 páginas, R$ 32,90) – seu romance de estreia.

E que estreia! Em “A invenção do crime”, Leida consegue prender o leitor facilmente com sua prosa objetiva, ligeira e sem muitos floreios, mas recheada de conteúdo e cotidiano. Um livro escrito, muito bem escrito, por uma jornalista acostumada com a velocidade da notícia e com os acontecimentos dos fatos mundiais.

Sendo jornalista experiente, Leida sabe também que não é raro encontrar na vida real histórias que parecem ser mais fantásticas do que uma ficção completamente inventada pelo autor. Com um arsenal de fatos da realidade em mãos, a escritora conseguiu fazer um romance policial verdadeiro, com histórias que, embora ficcionais, convencem o leitor e o faz mergulhar de cabeça na trama misteriosa e envolvente do livro.

“A invenção do crime” é uma obra viva, quente e palpável. Leida, diferentemente de tantos escritores brasileiros, põe nas páginas de sua obra, sem medo de ser feliz, objetos comuns da nossa vida brasileira. O leitor encontrará nas páginas do livro o perfume do Boticário, os uísques Red Label e Ballantines e os carros Corsa Sedan e Chevrolet Celta, por exemplo.

As histórias misteriosas de pessoas que simplesmente são esquecidas pelo meio em que vivem, em diferentes lugares do mundo, são explicadas, de maneira brilhante, no último e metalinguístico capítulo -quase metade do livro em número de páginas. O leitor vai se encantar com o escritor “semiesquizofrênico” que criou (ou não) o personagem “Herói”, o grande inventor de um crime, que prefere “desconstruir” as pessoas a simplesmente matá-las.

Chegando às livrarias neste mês de abril, “A invenção do crime” dá fôlego ao romance policial brasileiro. Em 2010, Leida Reis, com seu belo romance de estreia, é forte candidata a prêmios literários, como o Jabuti e o São Paulo de Literatura.


sábado, 17 de abril de 2010

Agora quem dá bola é o Santos*

Wilame Prado


Ao vencer do São Paulo por 3 a 2 neste último domingo, o Santos prova de vez que é o grande time a ser batido neste ano de 2010. Que me desculpem os críticos de plantão, principalmente aqueles que são palmeirenses, corintianos ou são-paulinos, mas não restam dúvidas de que somente um time de qualidade consegue aplicar seguidas goleadas, algumas vezes até históricas, como o 10 a 0 contra o Naviraense e o 9 a 1 contra o Ituano.

Eu sei, caríssimos rivais, que é difícil admitir. Eu entendo vocês. Mas agora dizer que o Santos é frágil e que a molecada não vai atuar bem em jogos decisivos, isso é conversa fiada de quem está com medo do potencial do alvinegro praiano. O time santista joga fácil, toca a bola como ninguém e faz um verdadeiro espetáculo para o torcedor conferir, seja pela TV ou no próprio estádio.

Muita gente diz que futebol bonito não dá título e que o Santos e atletas excepcionais como o Neimar e o Paulo Henirque Ganso ainda não provaram nada porque não são campeões. Outra conversa pra boi dormir. Os meninos estão há apenas um ano no profissional, e, tanto eu como os rabugentos invejosos que criticam a maneira como o Santos joga, sabemos que a coleção de medalhas e troféus será realidade na vida de todos que elencam aquele time.

Para o clube, de nada pode valer o futebol arte se os títulos não vierem, concordo. Já para o torcedor, conquistar títulos é bacana sim, mas se resume ao fato de ter o ego elevado e a possibilidade de ficar se vangloriando naqueles papos imbecis futebolísticos que traçamos com outros apaixonados pela bola.

Para o torcedor, o que importa mesmo é ver seu time ganhar nos 90 minutos e ainda de uma maneira prazerosa por ser testemunha de jogadas belíssimas e que raramente são vistas numa partida. A conquista de títulos será uma consequência desse trabalho fantástico traçado pelo técnico Dorival Jr., pelos atletas e pela nova diretoria do clube, que assumiu postos no início deste ano.

Ao ver o futebol inteligente e bonito de Neimar e Ganso, coisa que não via desde 2002 e 2004, época de Diego, Robinho, Elano e tantos outros craques, fico pensando nos critérios que um treinador tem na hora de escolher os jogadores para uma copa do mundo. Está na cara que pelo menos três garotos do Santos deveriam vestir a camisa amarela da Seleção Brasileira a partir de junho, quando começa a copa da Fifa.

O Santos pode muito bem perder a vaga para a final do Paulistão no próximo domingo em partida contra o São Paulo. Assim como pode perder para o Guarani na Copa do Brasil e dar adeus ao caminho mais curto para se chegar à Libertadores.

Pode, ainda, fazer um péssimo Campeonato Brasileiro e, talvez, desmanchar o elenco no meio do ano e ganhar rios de dinheiro com a venda de jogadores. Mas nada disso vai tirar da cabeça dos santistas quatro meses de futebol-arte, vitórias, goleadas, dancinhas ensaiadas na hora do gol e muita, mas muita, alegria. Como bem diz o hino do clube: “Agora quem dá bola é o Santos”.



terça-feira, 6 de abril de 2010

Brasil, mostra tua cara prateada

Wilame Prado



Se você, caro leitor, ainda não viu, sugiro que procure a notícia e a foto de Vanderlei Pires, morador de rua que foi atacado covardemente enquanto dormia, por alguém que literalmente o pintou da cabeça aos pés com um spray de cor prateada. Olhe bem para a cara do mendigo prateado, sinta a humilhação e a tristeza estampada em seu semblante e agora veja se não concorda comigo: é ou não é a cara do Brasil?


Fico tentando entender, praticamente em vão, porque alguém, na madrugada fria de Porto Alegre, dá-se ao trabalho de gastar um spray de tinta em um pobre coitado, que nada mais fazia do que dormir o sono dos injustiçados, o sono dos miseráveis, um sono provavelmente recheado de pesadelos (que em nada superam a vida real) de uma pessoa que não tem sequer uma cama macia para descansar de noite.

Não bastasse a tinta, uma testemunha viu alguém urinando nos pés do morador de rua, que, ao acordar, todo prateado, foi prestar queixa na delegacia. Com sua cara tristonha, lamentavelmente pintada, lembrando até aqueles artistas que fingem ser estátua nos centros das cidades, Vanderlei apenas diz ter certeza de uma coisa: a pessoa que fez isso com ele não tem coração.

É, Vanderlei. Falta coração neste país. Falta gente que te acorda no meio da noite, oferecendo um colchão para você não pegar friagem. Sobra gente querendo sacanear os mais fracos, gente que, talvez querendo se mostrar para a turma de amigos babacas, pinta o corpo de moradores de rua todo de cinza.

Cenas como essa, Vanderlei, são comuns neste país lotado de gente que sai pelas madrugadas a exterminar mendigos, prostitutas e travestis. Seu rosto todo pintado, Vanderlei, sua cara de choro, com a barba por fazer, com o incômodo cheiro forte da tinta entrando em suas narinas, é o rosto do Brasil, que também não gosta de ver índios dormindo nas ruas.

Nessas horas, é difícil, Vanderlei, mas tente agradecer por não ter sido queimado vivo por grupo de jovens delinquentes, assim como em 1997 aconteceu em Brasília com aquele índio Pataxó, o Galdino de Jesus, que Deus o tenha.

Não quero te desanimar, Vanderlei, mas, infelizmente, pouca coisa vai acontecer com a pessoa que te deixou todo prateado. Ela pode até ser encontrada, mas não vai sofrer um dia sequer numa cela gelada na prisão. Esse ser humano (humano?) provavelmente doará cestas básicas para uma entidade carente e tudo ficará certo. Mas você não vai comer nem um pouco da farinha que vem na cesta.

Vanderlei, você tem a cara triste do Brasil. E, lamentavelmente, assim como não acredito que atos ensandecidos como esses não cessarão tão já, também não tenho fé que o nosso país, um dia, será representado por um lindo rosto sorridente, e sem uma gota sequer de spray.


Crédito da imagem: www.ultimosegundo.ig.com.br

Assista a reportagem:

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Isabella foi esquecida*

Wilame Prado


Na madrugada de sexta-feira última para o sábado, fiquei espantado com a reação do público que estava acompanhando, do lado de fora, o julgamento do casal Nardoni. Ao saber que Alexandre e Anna Carolina ficarão uns pares de anos presos, a multidão simplesmente perdeu o controle do bom senso e caiu na folia.

O carnaval brasileiro, que consome os dois primeiros meses do ano, teve um replay nas primeiras horas daquela madrugada em que muitos brasileiros acompanhavam pelos noticiários (verdadeiros circos jornalísticos) o desfecho dessa história lamentável envolvendo a morte de Isabella.

E por falar na garota de sorrisos largos que o Brasil conheceu somente por fotografias, será que a galera, em meio aos rojões, lembrou-se que, justiça seja feita ou não, Isabella está morta?

Não teria sido muito mais decente todos terem retornado às suas casas em silêncio, sem provocar o raivoso spray de pimenta da Polícia Militar, meditando, rezando, orando ou simplesmente pensando na garota que foi vítima dos atos inescrupulosos feitos por adultos frios e calculistas?

Louvável é o povo e sua reunião. Bom seria se a pressão pública se fizesse presente não apenas no caso Isabella Nardoni – campeão de mídia e audiência –, mas também no caso do João, da Maria, do José, enfim, de todos os brasileiros que foram lesados de alguma forma e que clamam por justiça.

Seria bacana também se o povo tivesse essa disposição (provalvemente, muitos ali presentes no julgamento do casal Nardoni precisavam levantar cedo no outro dia e, mesmo assim, abdicaram do descanso noturno para participar do julgamento) para pressionar os políticos que governam, mandam e desmandam neste país. Seria legal se as sessões semanais das muitas Câmaras de Vereadores recebessem tal público caloroso e sedento pela verdade, pelas coisas certas.

Fico pensando, quando desses episódios, no poder que a grande mídia, principalmente a televisiva, tem na vida das pessoas. Será que se não houvesse tido tanta atenção da mídia pelo caso Nardoni ocorreria, mesmo assim, tanta comoção por parte do público? Acho que não.

Para a mídia, tudo é uma questão de pauta e audiência. A menina negra da favela que é estuprada e espancada diariamente pelo pai alcoólatra talvez receba não muito mais do que uma nota de rodapé da imprensa. Nessas horas, vendo o “shownarlismo” rolando solto e público aplaudindo de pé os animais do circo da vida sendo extremamente expostos, fico triste com a hipocrisia que fede no ar.

Mas, fiquemos tranquilos: hoje, terça-feira, depois da novela, tem a final do Big Brother Brasil. O caso Isabella será esquecido por um bom tempo. Na quarta-feira pela manhã, a discussão nos transportes coletivos e nos corredores das empresas será pautada pelo merecimento ou não do Cadu ter finalmente conquistado o prêmio do BBB de R$ 1 milhão e meio.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Pais e filhos devem sempre se amar*

Wilame Prado

Senhoras e senhores,
A intenção dessa mensagem é salientar algo que todo mundo já sabe:
A importância dos pais nos desafios que enfrentamos na vida.
Hoje é um dia de festa!
Isso porque, uma das etapas da vida, a busca pelo diploma universitário, foi vencida com sucesso por esses jornalistas que hoje aqui se encontram.
Porém, queremos dizer, antes de qualquer coisa, o quanto pode ser amplo o significado das palavras pai e mãe.
O jargão é válido: não basta ser pai, tem que participar.
Muitas vezes, por motivos que não nos cabem neste momento enumerar, os pais ficam distantes de seus filhos.
É nessa hora que esse filho, com todas suas dificuldades, nesse caso, dificuldades pra concluir o ensino superior, se vê obrigado a adotar papais e mamães por aí.
Têm esposa ou marido, namorada ou namorado que se tornam pais e mães.
Têm avós, tios, padrinhos ou madrinhas que se tornam pais e mães.
Têm até amigos e amigas que são muito mais pais e mães do que os próprios.
Portanto, esta homenagem é dedicada pra todos que assumiram o papel de pai e mãe na vida desses jovens jornalistas.
Mas, de quem é a culpa para esse distanciamento?
Depende.
Muitas vezes, não encontramos culpados para a distância entre pais e filhos.
Pode ser uma fatalidade.
Um acidente de trânsito.
Um derrame.
Ou um infarto fulminante.
O excesso de trabalho.
Ou os quilômetros que separam a cidade natal da cidade universitária.
Pode ser qualquer coisa, pais e mães.
Mas não importa.
Os filhos, mesmo muitas vezes não querendo admitir, sentem falta de vocês!
Hoje, esses filhos, já com vinte e poucos anos, não querem admitir, mas choram sim escondidos, num canto da casa ou no banheiro da faculdade, lembrando de momentos marcantes da infância.
Lembrando do chocolate trazido pelo pai depois de mais um dia de trabalho.
Lembrando daquele empurrãozinho quando se está aprendendo a andar de bicicleta.
Lembrando da historinha contada antes de dormir.
E lembrando principalmente dos milhões de beijos e abraços que, com o tempo, foram ficando cada vez mais raros.
Hoje, os garotos já com barba na cara e as meninas com suas maquiagens, jóias e brilhos, no fundo continuam sendo aquelas crianças que corriam pela casa toda, gritando, pulando e rasgando o sofá.
Com uma diferença: agora são crianças formadas em Jornalismo.
Sabemos o quanto vocês, pais, estão orgulhosos de suas crianças, que, a cada dia que passa, se tornam mais adultos, com atitudes sérias e com responsabilidades assumidas.
Sabemos que é muito legal pra vocês poderem ler um bom texto produzido pelos seus filhos, ouvi-los contando uma notícia no rádio ou sendo repórter na televisão.
Sabemos também que são nessas horas que vocês param um pouco pra pensar e refletem: “como o tempo passou rápido demais, não?!”.
As brincadeiras e os doces fazem parte do passado.
Pra essas crianças, o brinquedo predileto é o gravador, o microfone e a caderneta de papel.
Essas crianças ocupam uma importante função na sociedade e podem, por meio de um trabalho sério e honesto, ajudar o mundo a ser melhor.
Essas crianças, queiram ou não, têm poder nas mãos.
Tanto pra fazer o bem como pra fazer o mal.
Mas podem ficar tranquilos pais.
Conhecendo bem a todos que hoje aqui estão se formando, não restam dúvidas de que essas crianças jornalistas utilizarão a inteligência dotada por Deus pra fazer simplesmente o bem.
E é nesse momento que devemos agradecer aos pais.
Agradecer pela educação que essas crianças receberam.
Agradecer pelo sermão.
Agradecer pelos conselhos.
Agradecer pelas broncas.
Agradecer por tudo.
Se, neste momento, o mundo ganha guerreiros da paz, jornalistas que sairão por aí querendo fazer o bem, querendo por meio de seu trabalho mudar essa realidade desastrosa, os grandes responsáveis por isso são os pais.
Os pais talvez são os únicos que amam incondicionalmente seus filhos.
Não há interesse no amor de pai e mãe.
Simplesmente, a criança nasce e junto dela nasce esse sentimento lindo.
É verdade que pode haver distância e, em muitos casos, certo rancor na relação entre pais e filhos.
Mas é importante que tudo isso seja quebrado.
Pais e filhos devem sempre estar em paz.
Pais e filhos devem sempre ser amigos.
Pais e filhos devem sempre ajudar uns aos outros.
Pais e filhos devem sempre cuidar uns dos outros.
Pais e filhos, não importa a idade, devem sempre se abraçarem e se beijarem.
Pais e filhos devem sempre se amar, pois esse amor é de verdade, é pra sempre, é pra eternidade.
Obrigado pais!

*Texto feito em homenagem aos pais da turma de formandos de Jornalismo do Cesumar, lido no jantar de formatura ocorrido dia 5 de março, na Casa do Criador (Parque de Exposições de Maringá).



segunda-feira, 8 de março de 2010

"Plantas que crescem a olho nu" agora no Cronópios

 "Lembrou do dia em que, talvez sob efeito de insônia, olhara pela janela de madeira o humilde jardim que embelezava a frente da casa alugada. Os pernilongos, aliados ao ronco incessante de um pai que dormia feliz por receber a visita do filho, não o deixavam dormir. Nesse jardim, que de flor não tinha nada e sim apenas matos e ervas daninhas, o menino vira plantas crescerem e se movimentando a olho nu..."


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Silêncio crônico*

Wilame Prado


Todos os dias, o mundo grita. Há pouco silêncio no ar. Mas é quase imperceptível o fato de que estamos rodeados por uma série de ruídos. É que nos acostumamos à companhia do barulho. Com isso, é como se não estivéssemos mais sós em nossas vidas.

Só que, de vez em quando, em momentos raros hoje em dia é verdade, ficamos frente a frente ao silêncio. É quando algumas verdades são ditas pela inquietude. É quando finalmente nos quedamos a pensar na vida.

O silêncio gerado pela ignorância é malvado, e é capaz de interromper qualquer ruído que nos cerca. O sujeito, quando é ignorado, mesmo estando em meio a uma guerra de barulhos, com bombas caindo em seus pés e cornetas instaladas em seus ouvidos, querendo ou não acaba dando ouvidos ao silêncio cortante da rejeição pré-formulada e, na maioria das vezes, certeira.

De que adianta querer ludibriar o silêncio providencial gerado quando somos ignorados? Não, meu pobre rapaz, se ela não ligou é porque infelizmente não te quer mais. Não, minha querida donzela, se nunca mais eles apertaram sua campainha é porque sua ausência já nem é percebida. Não, meu quixoteano escriba, se a editora não te respondeu o e-mail é porque não tem interesse algum em publicar teu livro.

Dizem que as palavras estrategicamente proferidas doem mais do que um tapa na cara. Pois eu digo que mais doloroso ainda é quando não há nem tapas nem palavras. Pensando bem, temos é muita sorte de, nos dias de hoje, vivermos num mundo que grita. Afinal, se convivêssemos mais tempo com o silêncio sincero e real, estaríamos fadados a um racionalismo muito cruel.

Caso ouvíssemos a toda hora o silêncio, os números de suicídios aumentariam, o casamento seria um costume cultural visto nos livros de História e a amizade seria tema constante de uma literatura nostálgica. Aberta e sinceramente, aproximar-nos-íamos de outras pessoas somente em busca dos interesses materiais.

Viveríamos numa sociedade brutalmente sincera. O silêncio de cada uma das pessoas seria como um talismã, um guru que viveria sussurrando em nossos ouvidos.

Enquanto, porém, o silêncio não consegue gritar mais alto do que o mundo, enquanto a britadeira alienada de nossas vidas barulhentas não é desligada, pelo menos, meus caros e poucos leitores, eu vos dou o silêncio da coluna “Crônico”.

Portanto, aproveitem suas terças-feiras, talvez agora um pouco mais silenciosas, sem minhas palavras. Mas não pensem que eu os ignoro. Apenas saio um pouco de cena para tentar entender o que significam as incessantes verdades que os silêncios insistem em berrar para mim intermitentemente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O vinho de Fante*


Em “O vinho da juventude”, John Fante questiona a autoridade da igreja católica e a hierarquia familiar; livro de contos acaba de ser relançado pela José Olympio

Wilame Prado

Detentor de um imenso poder narrativo, o escritor John Fante (1909-1983), por toda sua vida, fez uma literatura autobiográfica. Seu alter ego mais conhecido recebe a alcunha de Arturo Bandini, nome que estampa as páginas de algumas de suas melhores obras, como “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “Espere a primavera, Bandini” e “O caminho de Los Angeles”.
Em seu livro de contos “O vinho da juventude” (José Olympio, 2010), que acaba de ser relançado, os leitores de Fante, acostumados com a saga de Bandini, poderão desfrutar uma série de histórias cândidas vividas por Jimmy Toscana – um garoto que mora num lar de ítalo-americanos e que recebe uma rígida educação católica num colégio de freiras.
Nos contos, mesmo tendo trocado o nome de seu personagem principal, Fante continua relatando acontecimentos reais de sua vida. Jimmy, portanto, nada mais é do que Arturo Bandini em sua meninice, período no qual começa a questionar as ordens autoritárias da igreja católica, a hierarquia familiar e os preconceitos para com os descendentes de italianos imigrantes nos Estados Unidos.
Narrados em primeira pessoa, os contos são relatos ingênuos do garoto Jimmy em suas aventuras no colégio, na igreja, em casa e nas ruas. Escritos na década de 1930, remetem a uma época em que o alicerce familiar, valores morais e o respeito eram premissas importantes e ainda praticadas na sociedade.
Mesmo em suas constantes traquinagens, percebe-se, lendo os contos, que há pureza nas atitudes de Jimmy. Quando ele é preso algumas horas por quebrar lâmpadas públicas, por exemplo, a justificativa apresentada para a freira, e posteriormente ao padre do colégio, é que teria apostado com um garoto para ver quem conseguia estourar mais lâmpadas: ele, o católico, ou o outro, que não era de sua religião.
Os contos são descritos de uma maneira tão simplificada que, facilmente, o leitor deixará enganar-se pensando que realmente é uma criança ou um adolescente quem está contando todas aquelas histórias. A destreza narrativa de Fante faz com que, após o início a leitura, queira-se saber ansiosamente o desfecho da história.

Uma época perdida

Em “Sequestro na família”, primeiro conto do livro, o jovem Jimmy demonstra muito orgulho e felicidade ao saber o quanto seus pais estavam apaixonados antes de se casarem. Pede insistentemente para a mãe contar as aventuras que passara com seu pai quando, antes de pedi-la em casamento, a sequestrou por três dias e três noites.
Quando sua mãe diz que, mesmo com muito medo, naquela ocasião, aceitara o pedido do casamento, o garoto se esbalda em emoção: “Isso era demais para mim. Joguei meus braços em torno dela e beijei-a, e em meus braços senti o travo pujante das lágrimas.”
Nas leituras de “O vinho da juventude”, os mais velhos verão retratados o modo como funcionava os lares de seus pais antigamente. Já os leitores mais novos, é bem certo que se recordarão das agruras e regras conservadoras que existiam, ou existem até hoje, nos lares de seus avós. O conto “O pedreiro na neve”, por exemplo, descreve de maneira perspicaz o âmago das regras da casa de Jimmy. A mulher, sua mãe, é uma eterna subordinada das tarefas domésticas e tem de conviver, calada, com as regras machistas impostas pelo marido bravo.
Jimmy Toscana vive numa época em que todos os garotos norte-americanos sonham em ser jogadores de beisebol e, quem sabe, entrar para a Liga dos Campeões. Garotos que, quando pecam, roubando doces ou distribuindo socos e pontapés no meio da rua, temem muito a Deus e se sentem renovados ao confessar e pagar as penitências determinadas pelo padre. São garotos, assim como Jimmy (ou Fante ou Bandini), que, quando fazem algo pelo qual devem se envergonhar, são capazes de ficar o período escolar inteiro trancados no banheiro para evitar o olhar recriminador da freira.
Nessa época vivida por Jimmy, e muito bem descrita por Fante, os policiais conhecem o pai e a mãe dos garotos que aprontam pelas ruas. Não raro, na tentativa de intimidar os jovens baderneiros, esses policiais os deixam presos por pelo menos uma hora, prometendo para eles que ficarão detidos por quinze anos na penitenciária estadual caso aprontem novamente. No mais tardar, os pais desses jovens os buscam na delegacia e lhe aplicam surras, pelo menos para a época, muito merecidas.

Amadurecimento

A cada história, conforme as páginas vão sendo viradas, percebe-se que o cativante Jimmy Toscana vai deixando as ingenuidades infantis de lado para começar a enxergar questões que envolvem mais o mundo dos adultos. O conto “A odisséia de um carcamano”, por exemplo, é uma bela homenagem à comunidade ítalo-americana e reflete claramente uma consciência mais amadurecida do personagem principal. Com perfeição, Fante narra o processo de aceitação própria, até chegar ao orgulho nacional, da descendência italiana de um dago (maneira desrespeitosa de se referir a um italiano nos Estados Unidos, traduzido no Brasil como “carcamano”).
São nos últimos contos da primeira parte do livro que o autor trará um Jimmy Toscana já com seus vinte e poucos anos de idade, que manda seus escritos para revistas literárias, que reza inúmeras Aves-marias torcendo para que aconteça um milagre e assim consiga pagar o aluguel de seu quarto, que namora por um tempo uma mulher bem mais velha que ele e que sente “A ira de Deus” (nome de um conto) quando a quitinete de seu affair estremece com um terremoto. É quando o leitor começa a enxergar as características de Arturo Bandini na pele do menino Jimmy e finalmente se reencontra com o clássico e adorado personagem de Fante.

Tinto Carcamano

O escritor John Fante lançou “Dago Red” (é traduzido como “Tinto Carcamano” e refere-se ao vinho que os italianos do norte de Denver bebiam durante a época da Lei Seca), uma coletânea de treze contos que foi saudada pela revista Time como “talvez o melhor livro de contos de 1940”. Em 1985, dois anos depois da morte de Fante, os contos de “Dago Red” compuseram a primeira parte do livro “O vinho da juventude”, que ganhou uma segunda parte, denominada de “Contos Tardios”, incluindo mais sete contos na obra.

Para ler
Título: O vinho da juventude
Autor: John Fante
Editora: José Olympio
Nº de páginas: 336 páginas
Tradutor: Roberto Muggiati
Preço: R$ 42 nas principais livrarias

Trecho do conto “Lar, doce lar”

Estou cantando agora, pois em breve estarei em casa. Haverá uma grande recepção para mim. Haverá espaguete, vinho e salame. Minha mãe vai preparar uma grande mesa amontoada com as delícias da minha infância. Será tudo para mim. O amor da minha mãe estará sobre a mesa e meus irmãos e minha irmã ficarão felizes de me ver entre eles de novo, pois eu sou o irmão mais velho que nunca erra, e eles ficarão um pouco invejosos das boas-vindas despejadas sobre mim e vão rir muito das coisas que eu falo, e vão sorrir quando me virem engolindo aquelas garfadas enroscadas de espaguete e gritar pedindo mais queijo e trovejar o meu prazer. Pois são minha gente e voltei para eles e para o amor de minha mãe.
Vou passar meu copo para meu pai e dizer:
- Mais daquele vinho, pai.
E ele vai sorrir e servir o líquido vermelho de gosto doce na minha taça, e vou dizer “Aí, rapaz”, e vou beber lenta e profundamente, sentindo aquecer minha barriga, formigar meu coração, entoando uma canção em meus ouvidos. E minha mãe dirá “Não tão rápido, meu filho”, e vou olhar para minha mãe e ver os mesmos olhos que eu fiz chorar tanto, tantas vezes, e meus ossos enfrentarão aquele sentimento obtuso de remorso, mas só vai durar um segundo e direi à minha mãe “Ora, mãe, não se preocupe com este sujeito, ele vai ficar bem”, e minha mãe vai sorrir com a felicidade que só minha mãe conhece e meu pai vai sorrir um pouco também, pois estará olhando para sua própria carne e sangue e vou sentir palpitação no peito e evitarei os olhos do meu pai, pois eles não conseguirão esconder sua felicidade.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Colombina*















Wilame Prado

Júlio e Vanessa namoraram por cinco anos e alguns meses. Separaram-se recentemente, poucos dias depois do Ano Novo. Passaram seis meses de 2009 pagando uma temporada de quatro dias em Salvador, Bahia, no carnaval de 2010. Não havia como devolver o dinheiro. Mesmo separados, foram para o passeio. Longe um do outro no avião. Em quartos separados num hotel à beira mar.

Resumindo em poucas palavras, o primeiro dia do passeio, para Júlio, foi bem aproveitado. Enturmou-se com foliões beberrões vestidos de mulher e, com um tomara que caia pink, tomou uma quantidade de cerveja nunca antes consumida em sua vida.

Seus olhos, inescapavelmente, miraram por apenas duas vezes, naquele dia, sua ex-namorada, justamente em suas duas retornadas ao hotel para buscar artifícios químicos estimulantes para a farra. Nas duas vezes, encontrou Vanessa, sentada numa arejada varanda com vista para o imenso mar, com um calhamaço do Dostoievski nas mãos.

Domingo. Segundo dia de viagem. Duas horas da tarde. Júlio não se lembra como chegou, mas, milagrosamente, está em sua king size, de pijama e aparentemente limpo. Mesmo depois de alguns comprimidos que combatem dores no corpo e no estômago, mesmo depois de finalmente conseguir alimentar-se com a maravilhosa comida do hotel, mesmo depois de até já conseguir voltar a tomar umas latinhas de cerveja, isso por volta da meia-noite, com um grupo de amigos, num carnaval de rua, mesmo assim, Júlio sentia-se infeliz.

Conseguiu desvencilhar-se dos fanfarrões. Correu ao hotel. Não encontrou Vanessa. Dormiu ao som da televisão. No canal, uma chata apresentação do desfile das escolas de samba de São Paulo. Revigorado, Júlio tomou café da manhã, leu notícias na internet, mandou alguns emails importantes, almoçou e foi pular carnaval convicto de que encontraria uma bela de uma garota que espantaria de vez sua solidão naquela cidade em festa.

Algumas horas se passaram. Meio alto, encontrou Vanessa beijando um rapaz dotado de músculos e nitidamente suado. Cena nojenta para ele. Decidiu enojar-se de vez buscando o maior número de beijos possíveis com as mulheres que estavam distantes a pelo menos num raio de 100 metros. Muito rapidamente, sem ter noção, recebeu um beijo de uma mulher feira que tinha acabado de beijar outro cara. Foi embora vomitar.

Terça-feira de carnaval. Último dia do passeio. Júlio estava um fiasco. Ligou seu mp3. Ivete Sangalo? Claudia Leite? Chiclete com Banana? Que nada. Ouvia “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” – um belo e triste disco de Otto. Antes de ir ao aeroporto, Vanessa, sempre com seu jeito amigável de ser, foi falar com Júlio em seu quarto.

Perguntas esparsas. O velho papo de elevador. E Júlio, observando a simplicidade de Vanessa (tênis, calça jeans e blusinha regata branca), achou-a mais adorável do que nunca, ainda mais com o cabelo preso e os óculos de sol na cabeça. Ficou grato ao saber que, no sábado, fora ela quem o levou para o chuveiro, completamente bêbado e trespassado, o vestiu e o obrigou a comer meia lata de leite condensado para combater uma possível hipoglicemia devido ao consumo exagerado de álcool.

Quando Vanessa saiu do quarto, Júlio olhou para o seu traseiro – outrora totalmente dele. Lembrou-se do fortão suado passando a mão na bunda dela. Antes de fechar a porta, sua ex-namorada ainda sorriu e disse que já estava com saudades de Maringá. “Desgraçada, mas adoravelmente linda, Colombina”, sussurrou Júlio enquanto terminava de arrumar sua mala.

*Conto publicado dia 16 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os fortes também choram*

Wilame Prado


Era fevereiro. As temperaturas em Maringá atingiam facilmente os 40º C. Já vestida com aquela beca esquisita, uma faixa azul separando o negrume da vestimenta, ela acreditava estar sentindo o maior calor de toda sua vida. Mas não desmaiaria. Considerava-se uma garota de fibra. Não seria um calorzinho que a derrubaria.

Com seu senso crítico e um natural modo azedo de ver como as coisas ocorrem nesta vida, mesmo estampando um sorriso para a foto, esboçava mentalmente uma análise negativa da simplória decoração do local.

Depois de discursos prontos e inevitavelmente clichês do reitor, de professores e do paraninfo da turma, finalmente era chegada a hora de anunciar os nomes dos “neograduados” – essa foi a palavra utilizada pela cerimonialista ao se referir aos formandos sedentos por canudos e diplomas.

Adriana Cruz. Antonio Albuquerque. Bruna Almeida da Silva. Carlos Eduardo Porto. Os nomes de seus colegas de classe iam sendo chamados em ordem alfabética. Quando começaram a chamar os nomes que se iniciam com a letra “E”, seu coração começou a disparar mais fortemente.

Edna Miori Moreira. Era seu nome. Tinha certeza. Emoção a mil. Descendo as escadas, notava maquiagens manchadas de garotas emocionadas com a conquista. Mas ela não choraria. Era forte e estava feliz por finalmente se livrar daquela chatice de graduação.

Diferentemente da maioria dos formandos, Edna não ganhou faixa, apito, carnaval ou festa da plateia na hora em que pronunciaram seu nome. É que, de conhecidos, apenas sua irmã, seu cunhado e sua prima prestigiaram o evento. E isso a deixou um pouco triste. Mas só um pouco, pois era uma garota forte e não se deixava levar facilmente pela tristeza.

Pronto. Colara o grau. Acabou essa palhaçada, pensava aliviada. Finalmente poderia tirar aquela roupa esquisita. Foi quando a cerimonialista resolveu prestar uma homenagem aos pais dos alunos. Pra quê? Imediatamente, Edna começou a se desesperar. E aquilo que estava lhe afligindo durante todo o dia foi traduzido em lágrimas. Incontidas mil lágrimas.

Cadê aquela força? E a aquela menina que não se abala? Cadê? Foi como um muro de Berlim indo ao chão. A ferida que mais doía em seu coração fora tocada. Enquanto via a todos os pais dos formandos de pé, ouvindo uma bela canção tocada em homenagem a eles, Edna bem que queria, mas não encontrou seu pai nem sua mãe na plateia.

Com aquela esperança boba, olhava para o portão de entrada do salão. E nada deles chegarem. Poderia ser um atraso. Mas não. Os pais de Edna realmente não prestigiariam sua colação de grau. Uma decepção só. Conseguindo retomar o fôlego, a garota forte mentiu para suas amigas ao lado alegando que suas lágrimas eram de felicidade. Mesmo não querendo admitir, os fortes também choram. O rosto borrado e a beca molhada de Edna são provas disso.