quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Notícias da prisão II*

Wilame Prado

Querida mãe: não repare e nem se preocupe com as gotas de sangue que mancharam esta folha branca de caderno. É que obriguei o Vinicius, o agente penitenciário aqui, o filho da mãe, a corrigir pelo menos mais uma carta antes de matá-lo. O canivete, aquele que a Carla conseguiu me entregar na visita, deixei bem escondidinho durante todo esse tempo, dentro do colchão. Nunca precisei usar. Agora, porém, ela espeta a garganta gorda do agente penitenciário. As gotas de sangue vêm daí. Mudando de assunto, como foi o churrasco, sem mim, hoje no almoço de Natal? A senhora deve ter ficado preocupada com minha falta, né? Mas vou explicar a história rapidinho, antes que o tumulto se instale aqui na gaiola. O fato é que, no dia 24 de dezembro, o Vinicius veio com um papo besta pro meu lado, dizendo que só deixaria eu te visitar caso eu ficasse com ele. Onde já se viu, mãe? O cara gosta de mim. Disse que me amava. E eu achando que era meu amigo, que estava me dando uma força neste momento difícil da minha vida. Filho da mãe. Me engordava com bolacha só pra me ver mais forte. Igual àquela história da bruxa que engorda as crianças com doces pra comê-las depois. Sacana. Quando ele veio com esse papo besta, quase que voei no pescoço dele. Ia esganá-lo ali mesmo, no pátio. Mas, como Deus é bom, me deu um sinal. Impediu que o demônio me estimulasse a praticar um ato não pensado. Vou explicar: bem na hora que estava armando um mata-leão pra cima do Vinicius, a bola de capotão dos caras que jogavam pelada veio em nossa direção com tudo, bateu em minha cabeça e me distraiu. Todo mundo riu. Fiquei fulo. O agente penitenciário já estava longe. Sabia do perigo que estava correndo. Aguardei o momento certo pra pegar a presa. Assim como um tigre na selva, que fica um tempão na moita, em posição de ataque, só esperando a hora H pra abocanhar seu almoço. Dei um tempo ao tempo. E foi exatamente nesta noite de Natal que consegui pegar o agentezinho sacana e bicha. Fiquei de papo pro ar na cela. Estava vazia. O pessoal foi tudo comemorar a merda do Natal. Quase nenhum funcionário estava trabalhando. Fiquei fazendo charminho pro Vinicius. Você conhece meu olhar matador, né mãe? A mulherada aí da cidade que o diga. Mas, enfim. O negócio é que agora estou com ele aqui do meu lado, todo mijado e cagado. Uma marica. Agora tem medo de morrer. Já me prometeu Deus e o mundo em troca da vida. Disse pra ele que, diferentemente do que ele disse uma vez, sou eu quem vai levá-lo pro céu. Ou pro inferno. Depende dos pecados desse puto. Vai saber o que já fez na vida, né mãe? Se eu matá-lo, pelo menos vou ser mais respeitado aqui na cadeia. O X-12 vai parar de me encher o saco, e talvez até vire meu brother. Confesso que estou tenso, mãe. Nunca matei. Por isso, fumo um cigarro antes do ato final. E pode esquecer a promessa que fiz pra senhora: nem a pau que vou parar de fumar em 2010. Ainda mais se eu matar um homem da lei. Vou sofrer igual cadela nas mãos dos outros agentes penitenciários. Apesar de que, pelo o que percebia, ninguém gostava muito do Vinicius. Um coitado. Bom. É isso mãe. Vou te poupar dos detalhes mais cabreiros. Agora, acho que vai demorar pra gente se ver. Quando trombar com a Josilaine, diga pra ela me fazer uma visitinha. Estou com saudade do cheiro de mulher. Já ia me esquecendo: o agente aqui, prestes a morrer, disse que forjou o teste de sangue. Disse que, na verdade, a porra do exame deu negativo. Deve ser mentira. Na hora da morte, a gente fica é muito louco, viu. Desculpe qualquer coisa aí, mãe. A vida é uma selva mesmo. Ainda mais dentro da prisão. Desejo um feliz Natal atrasado e uma ótima virada de ano. De seu filho querido, e agora fodido: Daniel.

*Conto publicado resumidamente dia 22 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná