sábado, 19 de dezembro de 2009

Notícias da prisão*

Wilame Prado
Querida mãe: nesta carta, quero dar uma boa notícia para a senhora comemorar no Natal. Creio que vai se perguntar, ao término da leitura, como consegui escrever bem, sem muitos erros ou rasuras. É que o Vinicius, agente penitenciário, amigão meu aqui dentro, entende pra caramba de texto. Ele corrigiu o que eu escrevi, na maior gentileza. Este meu brother passou num concurso disputado pra cuidar de preso e ganha quase três mil reais por mês. Quando sair daqui, vou estudar, mãe, pra ganhar dinheiro, cuidar de preso e dar uma cesta básica todo mês pra senhora. Mas, já ia me esquecendo da boa nova, né? Então. A senhora se lembra quando veio aqui na gaiola e me encontrou todo doente, fraco, pálido igual à parede aí de casa, sem forças nem pra levantar, né? Naqueles tempos, estava com uma baita moleza mesmo, além de não estar bem comigo mesmo. Acho que estava com aquela doença da vó, a tal da depressão. Não quis te contar, mas é que, naquela época, entrei numa pira muito grande comigo mesmo. É que tem um cara filho da p. (o agente não deixou eu escrever palavrão) aqui no meu pavilhão, o X-12, que encasquetou dizendo que eu era baitola. Só porque sou polaco, de olho azul e magricela. O cara queria me fazer de mulherzinha de qualquer jeito. Um dia, X-12 mais seus trutas, o Cabecinha e o Marola, fizeram uma enrascada, não tendo como escapar da putaria. Dá arrepio só de lembrar da nojeira. Estou com muita vergonha de te contar isso. Não dá pra senhora ver, mas estou até chorando e minhas lágrimas caíram no papel da carta, fazendo com que tivesse que escrever outra, tudo de novo, porque a tinta azul da minha caneta Bic se desfez junto ao branco da folha. Virou um borrão só. Como enrolo, né mãe, pra contar a boa nova? O fato é que hoje, perto do Natal e do fim do ano, tomei coragem e resolvi fazer um exame de sangue, aconselhado pelo meu irmão aqui, o agente penitenciário. Juro que agora vou contar a boa notícia, meu presente de Natal para a senhora: meu exame deu negativo, mãe! Não peguei nada nesta cadeia nojenta, cheio de pessoas ruins. Tem gente boa aqui também, mas tem muito cara que já abandonou a vida e vive num inferno. E o inferno, para eles, é esta cadeia. Estou limpo, mãe! Isso me fez respirar melhor e aproveitar os banhos de sol como se fossem os últimos e os primeiros. Até voltei a frequentar o culto – pode contar pra vó e pras tias. Ainda não consegui largar o cigarro. Mas isso é uma das metas pra 2010. Ganhei, inclusive, uns quilinhos a mais. É que o Vinicius, quase todo dia, me descola um chocolate ou uma Passatempo recheada. O cara é gente fina. Com todo esse meu otimismo, parece que fiquei forte, mãe. Corajoso, sabe? Até parece que li aqueles livros de autoajuda, que tanto a Alice insiste para que a senhora leia. Por isso, resolvi que, de qualquer jeito, vou visitar a senhora neste Natal e Ano Novo. Estou limpo e forte! E o meu irmão aqui, o Vinicius, já está mexendo numas papeladas pra eu sair numa boa. E ele disse que, mesmo que não seja legalizado, vou conseguir sair de qualquer jeito no Natal, nem que for meio nas escuras, sabe? Ele tem moral aqui, mãe. Vai arrumando o quarto, encomenda ponta de costela, asinha de frango e linguiça toscana no açougue do Dutra, pegue emprestado a churrasqueira com o Zé e me aguarde pro churrasco. Ajeite também aquele colchão e aquela almofada, pois vou levar visita. Meu camarada, o Vinicius, perguntou se poderia passar o final de ano com a gente. Diz que faz questão de te conhecer. Mas pode ficar tranquila. O cara é gente fina. A senhora verá. Só achei meio esquisito no dia em que ele falou que me achava bonito. Mãe: homem pode dizer que acha outro homem bonito? Não mostrei esta parte da carta pra ele. Só mais uma coisa: para o festejo de final de ano, vê se não vai chamar aquela vadia da Carla e nem a trambiqueira da Josilaine, viu? Meu camarada aqui está dizendo que é perigoso a mulherada ficar sabendo que eu saí da cadeia. É que elas podem me dedurar para os caras que estou devendo, lá do Mutirão. Bom, é isso. Então, até daqui uns dias, mãe. O Vinicius, a pessoa que vem me salvando deste inferno com grades, manda um abraço. E por falar em inferno, lembrei do dia em que ele disse que me levaria para o céu. Esse cara é um brincalhão mesmo. De seu filho querido: Daniel.
*Crônica publicada resumidamente dia 15 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná