quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um fevereiro sem carnaval*

Wilame Prado

No meio de uma entrevista, vibração ritmada na mesa e luz piscando em compasso: era o celular dando sinal de vida e querendo chamar atenção. Nem sei como consegui terminar o árduo trabalho de questionar o entrevistado com perguntas que eu já sabia a resposta depois de ver na telinha externa do celular as três chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô.

Com câncer no rim incurável, já que seus 80 anos de idade e seus problemas cardíacos o impossibilitavam de fazer cirurgia, só restava esperar o dia fatal, o dia em que o velhinho cearense careca, cheio de prosa e piada, nos deixasse e fosse para um lugar além.

Escrever? Que nada. Retornar a ligação? Muito menos. Andei de um lado para o outro, tentando fazer mil e uma teorias de que o mais provável - uma morte anunciada – não fosse a única opção para terem me ligado, às 15h40 de uma quinta-feira chuvosa.

Como se fosse calmante, construía possibilidades imaginárias para tentar me convencer de que o motivo da ligação não fosse mais do que um simples convite para um almoço de domingo. Olhando a chuva que não queria parar, vendo pessoas absortas em seus afazeres proletários, a pressão do pensamento lógico não me deixava ter esperanças.

Por mais um segundo de abstração, lembrei de meu finado pai, primogênito desse meu avô que estava em estado terminal. As pessoas da família diziam que o câncer fora desenvolvido por causa da morte prematura do filho, que sofrera derrame com apenas 49 anos de idade. E eu, louco para desligar meu cérebro, não queria acreditar que, em menos de um ano, perdera pai e avô.

Já com um terço da garrafa de café no estômago, resolvo retornar a ligação. Quando ouço ao telefone a voz de minha tia que mora a quase um dia de viagem da casa de meu avô, as borboletas douradas da esperança morreram com a vertigem da emoção – o pior só podia ter acontecido para ela estar na casa do velhinho atendendo ao telefone, pensei.

Meu cérebro logo transformou a sensação de ouvir aquela voz em pernas bambas, batimentos cardíacos apressados e gelo no estômago. Ao ouvir o motivo da ligação, pela primeira vez na vida senti alívio em receber uma notícia calamitosa.

Pois, ao pensar insistentemente na morte de meu avô, ouvir ao telefone que ele havia sofrido um derrame e que estava em coma no hospital universitário foi como achar nota de R$ 50 no bolso da blusa, esquecida há anos no guarda-roupa.

Dois dias se passaram, e finalmente seria minha vez de visitar o velhinho cearense no hospital. O horário da visita estava marcado para as 15h45. Mas, infelizmente, a vontade de se encontrar com o filho em algum lugar mais tranquilo foi maior do que rever o neto e permanecer em um sombrio e gelado hospital branco, cheio de tubos de oxigênio espalhados pelo corpo. Aproximadamente às 11h da manhã de um fevereiro sem carnaval não muito distante, ele morreu.

*Crônica publicada dia 24 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná