sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Autoajuda só atrapalha*

Wilame Prado

Dizem que para criticar algum livro é preciso lê-lo primeiro. É verdade. Por isso, nunca critico Paulo Coelho. Simplesmente não perderei meu tempo lendo obra sobre alquimia dele. Também nunca li nada que está na prateleira dos chamados livros de autoajuda. Folheei alguns por curiosidade. Experiência boa para rir do quanto é obvio, clichê e de mau gosto o quê esses caras da autoajuda escrevem.
Mesmo com meu absoluto desdém pelos livros de autoajuda, sinto medo de ficar falando sobre isso. É que tem muita gente que gosta, assim como de Paulo Coelho, de praticar a chamada ideologia do pensamento positivo. Situação complicada é quando alguém te recomenda, ou então te presenteia, com livros dessa categoria. Nessas horas, a sinceridade é algo totalmente dispensável e difícil de ser praticada.
Um amigo meu afirma mais ou menos isso: “as pessoas otimistas não dormem de noite pensando que amanhã elas precisarão ganhar o mundo. O pessimista, já consolado com toda a desgraça que é sua vida, provavelmente terá uma noite de sono mais tranquila”. Concordo com ele. Durmo igual a uma pedra.
Não acredito na hipótese de que as pessoas que estão no fundo do poço são únicas e exclusivamente culpadas pela situação em que se encontram. O mundo também não ajuda. Posso ficar pensando positivamente minha vida inteira e nada conseguir. De nada vale eu ficar só ambicionando, por exemplo, um excelente emprego, numa excelente empresa. Também preciso agir. A começar: entrar num curso de inglês.
O parágrafo de cima soou como algo positivista. Poderia bem tê-lo apagado, mas o deixo ali em homenagem aos leitores que apreciam escritos de autoajuda. E já que é para ajudar de alguma forma, que tal começando pelos verdadeiros clássicos da literatura? Penso que quem consome bons livros são pessoas melhores.
Para o amor, poderia citar Gabriel García Márquez e obras como “O amor nos tempos do cólera”, “Do amor e outros demônios” e “Memória de minhas putas tristes”. Para entender que são nas coisas simples da vida que encontramos felicidade, ler “As margens da alegria”, conto do livro “Primeiras histórias”, de João Guimarães Rosa, é uma boa pedida. Você vai ficar fascinado de perceber o quanto o menino ficou alegre só porque viu um pavão no terreiro da casa dos tios.
São tantos os clássicos da literatura que fica difícil recomendar numa crônica só. É tanto livro que existe neste mundo, e que cada vez mais se encontra acessível (vide: www.estantevirtual.com.br), que ler autoajuda deveria ser considerado crime. Isso até me lembrou aquele filme do Truffaut, “Fahrenheit 451”, em que proibiam o pessoal de ler, queimando todos os livros que encontrassem nos lares.
Tive vontade de escrever sobre esta autoajuda que só atrapalha porque, finalmente, encontrei alguém que anunciou publicamente o seu profundo desafeto com o pensamento positivo. É a jornalista e escritora americana Barbara Ehrenreich, que acaba de publicar o livro "O lado ruim das coisas: como a promoção incansável do pensamento positivo prejudicou a América" (tradução livre).
Ehrenreich percebeu o quanto a autoajuda lhe prejudicou quando foi diagnosticada com um câncer de mama. Ela afirma, em entrevista na Istoé, que, caso seguisse a linha da autoajuda, teria de “lutar não somente para aguentar os tratamentos terríveis, mas também fazer um esforço enorme para pensar positivamente”.
Ainda na entrevista, disse constatar “que o excesso de positivismo atrapalha a economia, a política e a sociedade como um todo, porque faz com que as pessoas fiquem mais individualistas, egoístas e, em última instância, infelizes”.
Genial esse ponto de vista. Quando o livro for traduzido aqui no Brasil, darei um exemplar de presente para cada pessoa que já me indicou alguma obra de autoajuda, na vã ilusão de que acreditaria em fórmulas mágicas de “Como alcançar o primeiro milhão” ou então de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Crônica publicada dia 17 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná