quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Plantando saudades*

Wilame Prado
Foram poucos, tio Mário, mas marcantes, os momentos em que passamos juntos, lá na roça, terra arrendada, onde o senhor, o padrinho Zé Preto e o primo Carlinhos cultivavam as oleaginosas valiosas – pelo menos naquela época em que a saca de soja era bem paga. Hoje em dia, compensa mais se abandar para os lados da cana-de-açúcar ou então construir granjeiro e plantar pomar para adubar os pés de laranja com o esterco dos frangos.
Digo isso para te manter bem informado, embora acredite que aí dos céus, das plantações divinas, das fazendas longínquas sagradas, o senhor deva estar acompanhando as dificuldades que têm os homens que labutam na roça diariamente. Não bastassem os ladrões de galinha e de gado, nos dias de hoje, tio, até gangue especializada em roubos de tratores já tem.
É por essas e outras que sinto saudade daqueles tempos. O senhor, aí de cima, deve se lembrar do dia em que fomos passar veneno na soja. Eu, moleque de tudo, vindo de São Paulo, capital, tendo nojo de pisar na terra, aprendi a respeitar a vida vivida pelo homem do campo naquele dia, que se iniciara às cinco da manhã, tomando café preto e forte e vendo a Carminha, sua irmã e minha tia, fritando ovos para nossa boia.
Recordo-me que, no mais tardar, às dez e meia da manhã já estávamos devorando aquele arroz com feijão, ovo e batata frita, como se fôssemos reis. Reis com suas boias-frias! Os reis da roça, daquele mundão verde, em perfeita harmonia com o azul do horizonte!
Senti fome logo cedo. Senti frio em cima do trator. Senti náuseas com o cheiro do agrotóxico. Mesmo com essas dificuldades, estar perto do senhor, tio Mário, sem dúvida, era a melhor das sensações. As recordações daquele e de outros momentos vividos ao seu lado, volta e meia, latejam em minha mente. Essas lembranças insistem em me jogar na cara que não mais poderei viver tudo aquilo novamente com o senhor.
Não somos mais reis, tio Mário. A seca acabou com nossa lavoura mágica. E, hoje em dia, homens como o senhor, que nasceram na roça, que brincaram de guerrinha de mamona na infância, que passaram a adolescência catando algodão, que ergueram as mãos para o céu quando a tão esperada chuva prenunciava e que trabalharam dignamente até o último dia em vida, quase não há. Mesmo assim, a gente tenta sorrir ao ver um príncipe Arthur, seu filho, dando um pouco mais de verde para o sertão que é nossas vidas com a tua ausência. Por isso, penso que, mesmo com todas as intempéries que nos acometem nessa estrada rural da vida, tudo valeu à pena, pode ter certeza.
Os homens da roça, os legítimos, os desbravadores, os que cutucavam onça com vara curta, os que almoçavam, jantavam, dormiam e acordavam cedo, devem estar, numa hora dessas, reunidos com o senhor na roça dos céus. E todos, sem exceção, plantaram de tudo aqui na roça da Terra, principalmente saudades.
Crônica publicada dia 10 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná