quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As dez vozes do escuro*




“A parede no escuro”, de Altair Martins, diferencia-se pela variedade da linguagem e dos pontos de vista de seus dez narradores; livro é ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Jabuti


Por Wilame Prado
Dependendo do modo como uma pessoa se expõe em sua linguagem, e atentando-se aos assuntos que, volta e meia, compõem o enredo de sua fala, consegue-se conhecê-la melhor.

É por meio da oralidade, representada nas palavras proferidas pelas pessoas, que os personagens do livro “A parede no escuro”, de Altair Martins, vão se revelando e se caracterizando. O romance foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Estreia do Ano”.

São mais de dez narradores no livro. Em muitas páginas, o leitor encontrará um mesmo fato descrito por mais de um narrador. Isso enriquece a cena imaginada e estimula um raciocínio lógico de que a verdade nunca é absoluta e que é dependente do ponto de vista de cada um.

O exercício narrativo proposto por Martins é arriscado no campo da literatura. O autor gaúcho, para produzir o romance, nadou em águas turvas da criatividade, que poderiam muito bem tê-lo arrastado à superficialidade. Mas isso não aconteceu.

O resultado final, além de todos os prêmios conquistados, inclusive sendo um dos finalistas ao Prêmio Jabuti de melhor romance, foi uma obra genial, que exala originalidade (pelo menos quando comparado a escritores brasileiros) e riqueza estética literária. Uma prosa quase poética.

O difícil é imaginar como o autor de “A parede no escuro” conseguiu a proeza de criar tantos narradores, cada qual com suas especificidades, e os consequentes discursos relatados no livro. Em entrevista ao jornal literário “Rascunho”, Martins revela um pouco de sua labuta para tal feito.

“Escrever, para mim, é antes de tudo escutar. E colher. Meu laboratório é meu dia-a-dia: estou sempre coletando sucata. Por isso, para a elaboração de tantos narradores diferentes, adotei envelopes com seus nomes, dentro dos quais fui depositando frases e estruturas sintáticas que me pareciam convir com cada um deles”, revela o escritor.

Nesse exercício atento de observação e coleta de dados, Martins incorporou nos personagens características de pessoas conhecidas, como sua mãe, seu padrasto, professores colegas de trabalho e até alunos.

“Onira tem a sintaxe de minha mãe; Adorno, de meu padrasto; colhi o Coivara de vários professores de cursinho com os quais convivi, e ele tem um pouco da minha linguagem também. Já o Emanuel nasceu da sintaxe de textos dos alunos, algo como uma escrita aos pedaços, com referentes anafóricos desnecessários, com frases viúvas”, explica, na entrevista, a gênese dos personagens do livro.

Em meio a constantes relatos dos narradores, ora representando diálogos, ora representando seus pensamentos, o ponto de partida da trama é o atropelamento e morte do padeiro Adorno. A partir deste fato, o leitor conviverá principalmente com os dramas psicológicos de Emanuel, filho de Fojo, vizinho de Adorno, e supostamente o autor do crime, e de Maria do Céu, filha do padeiro.

Embora Martins negue ter se inspirado em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, cabe uma comparação entre Raskólnikov e Emanuel, ambos totalmente abalados psicologicamente em razão da culpa que pesa na consciência e com a insana necessidade de desabafar o crime.

Os diálogos entre os professores Emanuel e Coivara acabam levando ao leitor um cenário contundente, mas infelizmente desastroso, da situação atual do ensino brasileiro. É nas palavras de Coivara (que sofre o peso do preconceito dos alunos por não ter um dos braços) que as críticas mais ácidas do sistema são feitas.

Emanuel, enquanto ouve os discursos inflamados do professor de História, encontra-se preocupado com o atropelamento praticado, com a relação amarga entre ele e seu pai e também com a ordem dos copos na mesa e a limpeza do chão abarrotado de giz esmagado – um dos personagens principais do livro parece sofrer de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Esse é só um dos tantos episódios que merecem destaque em “A parede no escuro”. Outro exemplo de maestria linguística e capacidade de conseguir transformar acontecimentos em literatura é a descrição dos pensamentos e sentimentos de Maria do Céu, ao saber da morte do pai.

Recém saída de casa, e ainda colecionando as palavras amargas da última briga com Adorno, o processo digestivo de aceitação da morte se dá aos poucos, com riqueza de detalhes e com surtos de sordidez, raiva, desprezo e, por fim, aceitação.

Das primeiras páginas até o fim do livro, a parede da casa de Adorno, o padeiro atropelado, configura-se quase como um outro personagem, representando a figura onipresente necessária para que o leitor entenda os dramas vividos pelo padeiro, por sua mulher, Onira, e por Maria do Céu, antes e depois do
atropelamento.

Em determinado momento do livro, dias depois da morte de Adorno, Onira pensa alto: “E tem vez que eu penso que tu não partiu ainda, e eu dou uma cochilada e me acordo assustada, porque parece que eu tenho que levar uma toalha seca ou esquentar um leite ou arrumar uma outra coisa da casa. Me dá uma tremura nos nervos por causa que parece que tu pega e te esconde atrás de cada parede.”

No escuro, a parede da casa torna-se testemunho de alguns episódios cruciais na vida de Adorno e de sua filha. Graças a um desses fatos marcantes ocorridos na vida de Maria do Céu, ela consegue uma redenção justificada pelo que pensa ter cometido: a morte do pai.

Nesse ponto, ela se parece muito com Emanuel, que vive suportando um peso de simplesmente não sentir nada pelo pai, ao fato de estar, num bar, tomando um porre homérico e criando coragem para desabafar ao amigo Coivara o crime cometido, enquanto o velho Fojo, numa cama de hospital, parece viver os últimos momentos de sua vida. Emanuel também acredita que matou seu pai.

Todos os personagens de Martins vivem se culpando ou reclamando de algo. Sua literatura não vem com enfeites ou prioriza histórias límpidas e maquiadas de pessoas quase irreais, tão comuns na literatura.

Em “A parede no escuro”, o escritor gaúcho, ao dar voz a pessoas simples, tão bem caracterizadas por seus discursos verossimilhantes, enraizadas nas tradições gauchescas de determinada cidadezinha interiorana e sem muitas ambições para o futuro, consegue traduzir a vida como ela é, por mais cretina que possa parecer.
 Métodos literários

Em sete anos de trabalho solitário escrevendo seu primeiro romance, Martins prova que metodologias e cientificidade também podem ser aplicadas à literatura. “A parede no escuro”, com o título “Desamparo”, foi o texto de sua tese de mestrado. Hoje, dando prosseguimento à sua vida corrida de professor e pai de família, Martins busca seu doutorado também em literatura.

A demora para escrever o livro é justificada pela dificuldade de se criar diferentes discursos narrativos, sem com isso perder a qualidade. Seu projeto literário, o de mexer com a estrutura habitual do romance (quase sempre com apenas um narrador e com os comuns travessões em diálogos) é ousado e perturbador. Mas ele não se importa; gosta de correr riscos.

Ainda em entrevista a “Rascunho”, Martins alfineta os escritores secos e conservadores da linguagem: “Leio securas publicadas aqui e ali, sobretudo de jovens como eu, e penso sempre que faltou a coragem de se arriscar ao erro. Sempre pequei pelo excesso, pela ousadia, e nunca pela covardia. Prefiro uma frase rica em meio a um ramalhete de coisas tortas do que qualquer coisa com cheiro de plástico”, diz.
 Contos do professor de contos

Embora “A parede no escuro” seja seu primeiro romance, Altair Martins, hoje com 34 anos, iniciou sua carreira literária com apenas 24. Na ocasião, lançou a antologia de contos “Como se moesse ferro” e, logo em seguida, o bem visto pela crítica e finalista do Prêmio Jabuti “Se choverem pássaros”, também de contos.

Martins não apenas faz, como ensina a fazer contos. É responsável pela cadeira de Conto no Curso de Formação de Escritores da Unisinos, em São Leopoldo.

Em entrevista ao jornal “Rascunho”, revela estar trabalhando num próximo livro de contos chamado, segundo o autor, provisoriamente de “Enquanto água”. “São textos sobre sensações fluidas, afogamentos, mergulhos, derretimentos. São reflexões sobre a fluidez como a vida desliza hoje, sem que possamos reter qualquer coisa”, diz.


Serviço
Título: A parede no escuro
Autor: Altair Martins
 Editora: Record
 Número de páginas: 256
 Preço: R$ 37,9
Fragmento de “A parede no escuro”
 Um pouco de qualquer coisa, filha, meu pai já respondia quando eu perguntava o que ele misturava dentro do pão. Naquele tempo o pão falava. Tinha farinha, pai? e o pão respondia que tinha. Tinha açúcar? e açúcar, pitada de nada, tinha. Tinha ovo? e o pão respondia que tinha ovo, sim. E farinha? Farinha eu já tinha perguntado?, mas farinha tinha, e muita. Tinha leite e tinha disso e daquilo mais um pouco? E íamos, o pai e eu, colocando todas as coisas dentro dos pães que, o forno apitando, iam saindo do mesmo tamanho, embora cada vez o miolo ampliasse mais sua complexidade de segredos. Se era verão, eu sentava no segundo degrau de madeira. A escada levava a casa à padaria, e eu ficava ali, na transição entre o pai e o padeiro, olhando para o pão que fumegava no prato de louça. Então eu esticava o vestido de algodão até os joelhos e improvisava uma mesa entre as pernas. E olhava para o pão como quem olhasse o escaravelho dourado. Se o virava, era com um respeito às pessoas de idade, e o fazia para ver as marcas da fôrma, verificar o vinco doído da ferida na casca. Só então, com um cuidado-menina, eu o partia. De dentro vinham fumaças de cheiro. O segredo era branco. E olhava o pai que nunca se cansava de trabalhar — meu padeiro tinha muita força nos pães o pai já tinha feito, todos todos. E voltava o meu olho a cavoucar o miolo branco do pão me perguntando O que mais ele põe aqui dentro? E enfim já era eu passando margarina de derreter a vontade. E uma pitada de açúcar como aprendi com meu pai, ou com meu padeiro, pode ser. E o comia sem resposta, barulhos bons do romper-se da casca, satisfação de dentes que vencem tudo, dedo molhado para colher o melhor dos farelos. Quantos pães eu já havia comido, todos todos, até os seis anos, e depois até os sete, e depois e depois?
Sentada no colo dele, eu acompanhava o café. Se fazia frio, as mãos quentes de meu pai me esquentavam as pernas e o peito. Não quero mais, pai, estou cheia de pão. E meu pai vinha fazer aquilo que me iluminava: ele beijava o pedaço de pão antes de atirá-lo aos cachorros. Um pecado, demais, jogar pão fora. Pão não-beijado atraía os ratos.