sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sinhazinhas e burguesinhas*

Wilame Prado

Convenço-me, cada dia mais, que a essência em si dos homens e do mundo nunca muda, e sim apenas os personagens e as terminologias para tais manifestações comportamentais.

Olha como escrevi bonito! Terminologias, manifestações etc. Fruto de um trabalho de conclusão de curso alucinante, que me obrigou a dialogar com esse vocabulário mais bonitinho durante quase o ano todo.

Mas, voltando ao raciocínio sobre a essência da vida, quero explicar a mesmice do mundo fazendo uma singela comparação entre duas canções da nossa rica Música Popular Brasileira. São 24 anos separando a música “Sinhazinha (despertar)”, de Chico Buarque, e “Burguesinha”, de Seu Jorge. Ambas retratam a rotina de uma garota de posses.

Na música de Chico, interpretada por Zezé Mota no disco “Para viver um grande amor” (1983), a sinhazinha tem de buscar sempre mais conhecimentos e mostrar-se culta aos pretendentes namorados. “Tem cabeça pra tratar/ Tem que ler caderno B/ Hora no homeopata/ Fita no vídeo-clube” diz um trecho da letra.

A sinhazinha do século 21, apelidada de “Burguesinha” por Seu Jorge, representa também uma garota que precisa se sobressair de alguma maneira na sociedade, investindo em algo que possa torná-la especial.

Nos tempos modernos, porém, já não é preciso ser culta ou pelo menos fingir ter um certo grau de intelectualismo para conquistar os machos. Acompanhe a rotina de uma burguesinha, no trecho da música, e entenderá o que quero dizer: “Vai no cabeleireiro/ No esteticista/ Malha o dia inteiro/ Pinta de artista”.

O interessante é que, diferentemente da sinhazinha anos 80 de Chico Buarque, a burguesinha anos 2000 de Seu Jorge não está interessada em conquistar ninguém, e talvez nem pense em casamento. Quer curtir a vida, aproveitar sua grana na casa de praia e jamais esquentar a cabeça com nada. Afinal, pode sacar dinheiro e andar com o motorista em seu carro esportivo.

É ou não é o retrato vivo de nossa sociedade individualista e consumista, caro leitor? Em meio aos repetidos cantares de “burguesinha, burguesinha, burguesinha”, Seu Jorge demonstra na canção – que faz parte do CD “América Brasil” (2007) – a vontade de ter, e não de ser, das fêmeas endinheiradas: “Só no filé/ Tem o que quer/ Do croissant/ Suquinho de maçã”.

As garotas já não querem mais entrar de cabeça nas águas profundas de um relacionamento amoroso sério. Elas já não sofrem iguais às sinhazinhas das antigas, que entravam no ciclo vicioso: “Namorado pra casar/ Casamento pra sofrer/ A cabeça pra dançar/ E a vontade de morrer/ Disco novo pra rodar/ Vinho branco pra esquecer”.

De qualquer forma, ainda sou muito mais uma sinhazinha que lê o caderno B do que uma burguesinha que fica com sua tribo na balada até de madrugada.