quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A ilha somos nós*


Wilame Prado
Minha casa e eu. Estamos sós. Paredes e móveis. E não adianta olhar pela janela o movimento da avenida. Lá fora são eles, e não participamos deste movimento inerte rumo a lugar nenhum.

Somos sós nós dois. Casa e eu. O barulho da geladeira até conforta. E não pense, vizinho, que o som ligado às alturas é uma expressão de felicidade e reunião. É simplesmente uma artimanha para ludibriar o grito mais alto de todos – o do silêncio.

Perceba que até na cadência do samba há melancolia. “Vai passar”, canta Chico. Mas quando tudo passar, o eterno retorno nos levará à frieza da solidão. Frieza percebida nos azulejos e paredes brancas.

E não adianta abandonar a casa e fumar um cigarro na calçada, depois de um cafezinho tomado na padaria, olhando as pessoas apressadas indo e vindo na avenida Herval. Ninguém vai te olhar porque não é viável perder tempo.

O mundo é competitivo. Todos querem dinheiro. Tempo é dinheiro. E olhar para o fumante solitário é perder tempo, e talvez saúde, e, consequentemente, dinheiro. Para não respirar a fumaça alheia, passam longe, pensando em alguma forma de ganhar mais dinheiro.

Então, casa, somos sós nós dois mesmo. Almoçar sentado no sofá ouvindo a televisão e seus comparsas mentirem é outra tática de calar a boca do silêncio. Nada vai acontecer, fiquemos tranquilos. Nada mesmo. O resumo da ópera da vida: comer, dormir, eliminar resíduos do corpo e, finalmente, sentir-se só.

Cada um é cada um. Peço perdão aos socialistas, mas devo dizer que será difícil reunir o pessoal por uma causa nobre. Todos estão sós, prenderam-se. E não pense que a companhia etílica dos bares trará conforto permanente. É tudo passageiro. A filosofia embriagada não tem embasamento suficiente para calar o silêncio posterior à reunião entre bêbados.

É quando, no meio de um banho quente, inerte em pensamentos fúteis, a única forma de confortar a inquietude mental é imaginar que, daqui para frente, tudo será diferente. Mas nunca é. Não adianta. Os carros vão continuar lotando as ruas. E a corrupção no Senado continuará reinando.

Alternativas não há. É o fim, mas só do começo, pois, depois de uma confortável noite de sono, talvez sonhando com as coisas que nunca terá, é hora de acordar. É hora da luta, rapaz! Ou encara, ou pede para sair.

Não tem jeito. Em algum momento de sua vidinha mais ou menos, verá que tudo aquilo que foi vivido não passava de uma peça teatral mal ensaiada. A vida não permite ensaios? A vida não passa de um ensaio daquilo que gostaríamos de atuar. Na vida, não há peça perfeita. Mas bem que queríamos.

Estamos sozinhos. Carinho, palavras e gestos de pessoas que dizem te amar são grãos de areias em meio à velocidade do vento. E o que sobrará é simplesmente você, e talvez a casa. Inerte em seus pensamentos, dentro de casa. Finalmente entendendo que ninguém nunca conseguirá tapar a boca do silêncio ou atar as mãos da solidão.

Um dia, em algum momento, num segundo, perceberá, acordará e sentirá o peso de tudo e de todos. E verá a insignificância tua para com o mundo. Não precisa ir a uma ilha deserta para tentar entender isso tudo, basta ficar em casa. É o momento de admitir: a ilha somos nós.

*Crônica publicada dia 29 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.