quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Poderia ser pior*

Wilame Prado
Para o rapaz que não consegue ver beleza em nada e acaba gerando discórdia por onde passa com sua arrogância, digo: a vida poderia ser pior. Para a moça balzaquiana que não aguenta mais esperar seu príncipe encantado chegar de cavalo ou carro branco, afirmo: a vida poderia ser pior.

Ao senhor que só na velhice percebeu o quanto desperdiçou as oportunidades que lhe surgiram quando jovem, reafirmo: a vida poderia ser pior. E para a senhora, que derrama diariamente lamúrias a quem quiser e não quiser ouvir sobre eternas dores do corpo e da alma e o quanto acha tudo uma injustiça, saliento: a vida poderia ser pior.

Quero contar a história do João. Sua vida, talvez, não poderia ser pior do que já é. Para ele, nada é legal. Tudo é triste, muito triste. Um dia de sol é triste. Um dia de chuva é triste. Os carros passando, é triste. Mulheres e velhos caminhando pelo parque, é triste. Acordar ou dormir é triste. E, triste, João vai sendo praticamente carregado pela vida.

Sabe-se que João gosta de beber cachaça e cerveja. Mas o álcool não lhe representa alegria alguma. Somente uma maneira de tirar da tomada a máquina chamada corpo. De bar em bar, em suas procissões etílicas pelas ruas de Maringá, ele vai, todas as noites, encontrar seu desligamento corporal.

É quando João sente estar entre o céu e o inferno. Talvez num purgatório imaginário, onde ninguém e coisa alguma representam mais do que nada (uma palavra difícil de traduzir). É quando tudo e todos, inclusive ele próprio, significam menos do que a merda do cachorro empastada no sapato de um pedófilo.

Um dia, João, já chumbado de pinga com mel e limão e rabo de galo, foi parar num bar frequentado por jovens burgueses de Maringá, perto da Catedral. Pediu uma cerveja porque estava com fome. Pinga é bebida; cerveja é comida, para João.

Dormiu sentado na cadeira amarela do bar e encostou a cabeça, de leve, na mesa. Por lá, ficou alguns eternos minutos. Vez ou outra, deixava a cabeça deslizar um pouco para trás, o suficiente para o esguicho de vômito sair de sua boca e ir diretamente ao chão, sem fazer sujeira na mesa.

Nem notou, o João, que virara, naquele dia, atração circense para os jovenzinhos aspirantes a alcoólatras que se encontravam no bar. Levantou-se no intuito de seguir em frente. Mas, antes de continuar a via sacra rumo ao barraco, sentiu a necessidade de mijar. Na pista de skate ao lado do bar, na frente de todo mundo, descarregou seu líquido amarelo.

Depois desse episódio, quase nada mudou na vida de João. Triste, continuava vivendo por viver. No outro dia, porém, sentiu um enorme vazio entre a língua e o céu da boca. É que no descarrego intestinal (também conhecido por gorfo) praticado no bar, foi-se embora a dentadura junto com toda aquela nojeira líquida visguenta.

João é triste. João é triste, e agora sem dentes. Poderia ser pior?
Crônica publicada dia 15 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_P_IACpd7f9g/SRIr4j06MII/AAAAAAAAAUo/ZILUHfF41IM/s400/20080801040941-triste.jpg