terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mudanças de hábito*

Wilame Prado Antigamente, quem ia calçado à escola era o maioral. Absolutamente normal era caminhar, descalço, alguns quilômetros de estrada de terra para chegar ao colégio na cidade. Isso quem conta são alguns tios e tias meus que, embora não tenham conseguido concluir nem a oitava séria, são muito mais inteligentes do que eu. Quando fazia o curso de História, tive um professor que justificava o êxito do capitalismo (e por isso era absolutamente a favor do Estado mínimo e das privatizações) com um simples fato: antigamente, ninguém tinha chuveiro elétrico em casa. Concluía, então, que, graças ao capitalismo, a qualidade de vida das pessoas melhorou consideravelmente. Mas engana-se quem pensa que, com a crônica de hoje, vou entrar na chafurdada discussão entre capitalismo e socialismo, direita e esquerda, Mc´Donalds e cachorrão da esquina da Lojas Americanas, privatização da Vale do Rio Doce e Bolsa Família. Como diria Rodrigo Amarante, numa das canções de Los Hermanos: “deixa o verão pra mais tarde”. Trazendo hábitos e costumes do passado até o nosso confortável presente, quero mesmo é fazer um exercício de futurologia sobre os costumes pré-adquiridos pós-gripe-suína. Então o leitor vai dizer: “o que isso tem a ver com pé sujo de terra e banho gelado na bacia?”. Tem a ver com o fato de que, com o passar do tempo e das circunstâncias, nossos hábitos vão se modernizando e fazendo mutações. Nem sempre positivas, é verdade. Pelo menos eu, não sabia que o álcool em gel 70% era eficaz na higienização das mãos. Por esses dias de gripe suína, descobri que desinfetar as mãos com o álcool também é uma boa prática para inúmeras doenças contagiosas. Então eu me pergunto: por que não fazíamos isso antes? Quantas e quantas pessoas morreram com outros tipos de gripes e doenças contagiosas no passado? Sem polemizar, vamos logo ao exercício de futurologia prometido: creio que, num futuro não muito distante, será normal, assim como é fazer pipi e lavar as mãos, ou escovar os dentes ao acordar, passar álcool nas mãos de quando em quando, com ou sem surto de gripe. Os fabricantes não deixarão escapar a oportunidade de fazer potinhos de álcool em gel personalizados com os personagens do Homem Aranha ou da Barbie para estimular o uso das crianças. E mais: versões com cheirinhos agradáveis de uva, morango e laranja também serão feitos para aquele odor de corredor de hospital presente no álcool não incomodar ninguém. Embora eficazes, entretanto, as medidas de higienização deixarão as pessoas mais distantes e frias. O carnaval vai amornar e o futebol nem será mais considerado um jogo de contato. Dar o cotovelo para ser tocado por outro cotovelo será o máximo de uma relação amistosa entre conhecidos. Até o número de crianças recém-nascidas cairá, pois o sexo virtual, seguro e límpido, será prática cada vez mais comum. E um professor de História ficará se perguntando se a ganância dos grandes conglomerados empresariais dos setores avícolas e suínos, que queriam sempre mais e mais frangos ou porcos prontos para o abate em tempo recorde, nem que para isso fosse preciso bombar os bichos com antibióticos, tenha sido a causa do surto da gripe, que forçou as pessoas a mudar seus hábitos no dia a dia. Andar descalço, tomar banho frio, dar as mãos a um conhecido ou dois beijinhos no rosto serão práticas obsoletas, abomináveis e estudadas pelos alunos desse professor de História, curiosos em saber como as relações humanas eram tão mais intensas no passado. *Crônica publicada resumidamente dia 25 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.fenatracoop.com.br/site/wp-content/uploads/2009/03//Alcoolgel.jpg