terça-feira, 18 de agosto de 2009

Apagado*

Wilame Prado Uns pingos gelados começavam a cair do céu. No intervalo das aulas, na faculdade, costumava ficar naquele local, e não seria por causa de uma simples garoa que sairia de lá, mesmo com o cigarro aceso em mãos. Enquanto todos procuravam se esconder do que não poderia nem sequer ser chamado de chuva, ele procurava uma cadeira para encostar suas nádegas, cruzar as pernas e tragar alucinadamente. Achou uma cadeira daquelas brancas, de plástico, que são encontradas em bares e sorveterias. Acomodou-se. Sentiu gota a gota molhar sua camiseta, levemente. Não havia mais ninguém ao lado. A garoa continuava amena e discreta, assim como a aragem refrescante. Com as tragadas consumidas, seu pedaço de tabaco ia se esgotando lentamente. Enquanto isso, a mente viajava para algumas léguas de toda àquela gente, chuva, longe da cadeira de plástico. Conhecidos dele, que faziam o mesmo curso na faculdade, talvez com dó de vê-lo se molhar, resolveram chamá-lo para perguntar o que estava ocorrendo. Ele desdenhou, e reagiu naturalmente: olhar sossegado, sorriso amarelo e, logo em seguida, a velha cara melancólica de sempre. A chuva nem sequer conseguiu apagar a guimba de cigarro no chão. Já era hora de voltar à aula, ainda que tendo consciência de que seria melhor ficar consigo mesmo em vez de ir à jaula do conhecimento falso. Resolveu subir os degraus rumo à sala só para não perder mais uma presença na lista de chamada. Foi acompanhado de uma aprazível colega de curso – a do cabelo vermelho que gosta de Mutantes. Ela, instigada com a abstinência social do rapaz em meio ao fervor acadêmico, perguntou: - Parece que você está meio abatido, triste, solitário? E ele, como sempre, com seu excesso de menosprezo por si, disse: - Que nada, isso é normal. Muitas vezes fico um tanto quanto distante dos demais. E ela: - Você já estudava aqui ano passado? - Sim. - Pois a primeira vez que vi você foi este ano, numa palestra chata. Ele respondeu: - É que sou meio apagado mesmo. Terminando de subir os degraus, já com uma pontada de dor na panturrilha, refletiu sobre o que havia dito à garota de cabelos vermelhos. E imediatamente se lembrou da guimba, ainda acesa, que jogara há pouco no chão. Naquele dia, desistiu de assistir aula. Desceu os degraus, voltou ao pátio, catou o cigarro, agora apagado e completamente encharcado, e jogou no lixo. Ao sentar-se novamente na cadeira de plástico branca, sentiu entrar em contato com seu corpo a poça de água gelada que se formara na superfície do assento da cadeira. A chuva virou tempestade. E não adiantava acender nenhum cigarro agora. Nem mesmo isqueiro ou um palito de fósforo. Com toda a água gelada e transparente que caía do céu, todos permaneceriam apagados. Assim como ele. *Crônica publicada dia 18 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://2.bp.blogspot.com/_X3yQA406A2c/SOm2X2cPVeI/AAAAAAAAAVY/4oBoSb74yqc/s400/Homem%2Bsentado%5B1%5D.jpg