quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pelo olho mágico*

Wilame Prado
Era sexta-feira, e chuvosa. Cinco e quarenta da tarde. Depois de mais um dia de trabalho abominável, o estresse tinha tomado conta de sua alma e abalado por completo seu psicológico. Alguns temperos a mais contribuíram para que o nervosismo se representasse, naquele dia, nos indiscretos riscos que atravessavam de ponta a ponta sua branca testa. Enumero, pois: tentativa de assédio sexual de seu chefe sessentão; perda de apetite no almoço ao ver um pentelho nojento no molho da carne; um trânsito bruto e ignorante nas estreitas ruas do centro de Maringá; escova no cabelo desmanchada por conta de alguns irritantes pingos de água caídos daqueles toldos de lojas; e, como se fosse a cereja do bolo, o insucesso na simples operação de abrir a fechadura da porta de seu apartamento. Quase tudo isso que eu disse acima pode ser mentira. Afinal, como saberia o que realmente aconteceu com aquela mulher sendo que fiquei o dia inteiro trancafiado no apê, olhando, a cada barulho lá fora, pelo olho mágico da porta? O que posso dizer apenas é que era grande o desespero quando ela, minha vizinha, tentou abrir a sua porta por mais de trinta e sete vezes (eu contei) e não conseguiu. Senti prazer em vê-la sofrer na luta desesperadora para entrar em seu lar e, quem sabe, tomar um merecido banho, sentar no sofá, passar um requeijão numas bolachas de água e sal e comê-las assistindo à novela das seis. Poderia tê-la ajudado a abrir a porta, é verdade. Mas, pelo olho mágico, sentia quase um orgasmo vendo a moça, que não sei o nome e que beirava os 35 anos, bufar de raiva, numa posição quase sensual, naquela luta incessante entre fechadura e gente. Foram precisos 35 minutos para ela se convencer de que não conseguiria entrar no apartamento sem o auxílio de um chaveiro. Quando finalmente decidiu ligar para alguém resolver seu problema, minhas costas já estavam doendo de ficar bisbilhotando a vizinha agonizante pelo olho mágico. Mesmo assim, fui forte e assisti a sua espera de 47 minutos, sentada no chão frio, até que o abridor de portas chegasse. Foi hilário demais quando ele, em 12 segundos, abriu a porta da vizinha não sei bem de que jeito e, com mais cinco segundos, disse que o serviço custaria R$ 20. Ela pagou de cara feia e nem agradeceu o rapaz, bruaca. Nessa hora, minha vizinha deve ter sentido um alívio danado, mas também raiva por ter ficado tanto tempo tentando abrir a porta do apartamento com a chave do escritório. Ao vê-la finalmente entrando em seu lar e batendo a porta com tudo, pude descansar um pouco no sofá até que um novo barulho me empurrasse de volta em direção ao olho mágico. Assim como eu, agora, ela teria de assistir à novela das sete, pensei. *Conto publicado dia 7 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.catambu.com/album/albums/Brasil/RS/Porto%20Alegre/Outras/Olho%20magico.jpg