segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lúcio é Deus*

Wilame Prado Na final da Copa das Confederações, não estava torcendo por nenhuma seleção. Nunca gostei de nada que viesse dos Estados Unidos, mas também não botava fé no futebol do Brasil, comandado por um técnico inexperiente. O final desta história vocês já sabem, e o meu objetivo, nesta crônica, é escrever sobre o zagueiro Lúcio e não sobre o título da seleção. Criticado por um entre um brasileiro, o estilo de jogo do Lúcio, no mínimo desengonçado, não agrada a gregos e troianos, tampouco comedores de feijoadas e apreciadores de samba. A espinha de muitos se arrepia quando ele, num verdadeiro galope, corre rumo ao gol adversário, desafiando a lógica de que zagueiro deve defender e não atacar. Nessas investidas repentinas ao ataque, suas passadas largas e desconexas se parecem com as de um cavalo doido. Devemos reconhecer nossa implicância com este zagueiro, que, em muitos jogos do Brasil, é verdade, nos fez temer um contra-ataque mortal do time adversário, e finalmente homenageá-lo. Pois foi ele quem salvou o Brasil na decisão do último domingo; foi ele quem chorou e recebeu abraços e até beijos de todos da delegação brasileira. Lúcio é aquele cara que, com certeza, nem se importa tanto com a farra movida a álcool e a pandeiro dos outros jogadores. Talvez nem participe das festas particulares em mansões, em que prostitutas são convidadas para descontrair o ambiente. Ele é aquele cara que vai chegar em casa, dar um beijo na mulher e nos filhos e prontamente assistir à reprise do jogo. Vai analisar seus erros e provavelmente dar um murro na parede quando rever aquele lance em que quase deixou o jogador da seleção adversária fazer um gol. Depois da sessão replay, é quase certo que o zagueirão brasileiro vai ao quintal treinar uns carrinhos certeiros e uns chutes precisos. Lúcio é o brasileiro-mor. É aquele que chora e ri ao mesmo tempo; aquele que não desiste nunca; aquele que liga para o tio Zé depois do título; é o pedreiro, que vai, de Maringá a Mandaguari, dentro do ônibus coletivo, comentando em voz alta os pormenores do jogo do Brasil. Lúcio é o pobre, que não desperdiça a bolsa do Prouni e se forma na faculdade como um dos melhores da turma; é o ganhador da Mega-Sena, que doa metade da fortuna para seus milhares de parentes, amigos e novos amigos. Lúcio é o padeiro, que acorda às 3h da manhã para trabalhar; é o pequeno produtor rural, que bate palmas de felicidade quando sente que a chuva está por vir; é o proletário, que trabalha, de segunda à sábado, dez horas por dia, e, no domingo, faz um churrasquinho e ainda chama a sogra para tomar cerveja. O presidente Lula pode até ser o cara. Mas o Lúcio, meus amigos, é Deus, que foi crucificado, ressuscitado e, hoje, com a faixa de capitão da seleção no braço, louvado por todos os brasileiros, amém. *Crônica publicada dia 30 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://imagem.band.com.br/CNT_EXT_153080.jpg