sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cartas de colunistas*

Do colunista Wilame Prado recebo a seguinte correspondência: “Concordo com você, Ravagnani, sobre a legalização dos flanelinhas. O meu medo é que, justamente pelo fato de eles não terem esta condição de arcar com os prejuízos de um possível carro roubado ou danificado, que, com a legalização, comece a surgir uma nova demanda de empresa, onde empresários entrariam com a grana e os pobres coitados dos flanelinhas com a mão-de-obra. Seria a privatização do espaço público de Maringá. O maior estacionamento privado a céu aberto do mundo! Acho que não podemos crucificar os flanelinhas, afinal, a sociedade nos impõe algumas regras: temos de trabalhar, temos de ganhar nosso dinheiro, ser mendigo é errado, ser favelado é feio. Essas pessoas que zelam, sem precisão, os carros, na verdade encontraram uma brecha para sobreviver de maneira mais digna, pelo menos na consciência delas. O grande problema desta ‘profissão? é que um bando de marginais se mescla no meio, ganha dinheiro e ainda assusta os motoristas. Mas, por exemplo, o flanelinha ali do Parque do Ingá, parece ser uma pessoa do bem; fica ouvindo seu radinho, já é de idade, vez ou outra dá uma varrida no local com uma vassoura feita com folhas de coqueiro, acho, e vai tocando sua vida sem prejudicar ninguém. Usava o colete da prefeitura, inclusive. Embora existam pessoas do bem sendo flanelinhas, também sou contra. Mas como acabar com uma coisa tão antiga, tão intrínseca? Não há como fiscalizar todas as ruas expulsando os flanelinhas. Qual será a solução? Deixar como está e tentar ao menos filtrar essas pessoas? Fazer um projeto intimidador para torná-los ainda mais marginalizados? Fazer uma campanha com os motoristas, pedindo para que ninguém dê dinheiro aos flanelinhas?” A resposta: Olá Wilame! "Brecha para sobreviver?" Ah, faça o favor! O flanelinha é a personificação da barbárie. É como a hiena, que espera a presa dormir para atacar. Só existe porque o poder público é covarde e preguiçoso, e só se ocupa daquilo que o sustenta, e não está nem um pouco preocupado com o cidadão, que, no fim das contas, é quem paga para que ele exista. Os flanelinhas são uma praga. Uma capitulação do homem civilizado à lei do mais forte. Quando o pacto social foi instituído, o indivíduo cedeu parte de seu direito de fazer o que bem entendesse, com as armas de que dispunha, pela segurança institucional da vida em comum. Pela segurança perdemos liberdade. Ora, o que essa escória faz é retornar ao ponto anterior ao pacto. Temos problemas sociais. E graves. E precisamos de políticas públicas para solucioná-las. O exemplo do senhor do parque, que você apresenta, é clássico. É para estas pessoas que aquelas políticas precisam ser implementadas. Usar como desculpa a existência dessas pessoas para permitir a vitória da tirania do medo que esses flanelões praticam é de uma covardia sem tamanho. A flanelagem é atividade que precisa ser coibida. Os argumentos já enumerei na coluna à exaustão. Não se restringem à responsabilização civil dos danos, não. Há outros, como os crimes praticados (são três: ameaça, extorsão e constrangimento ilegal), a dupla cobrança (o cidadão já paga a Zona Verde, que é administrada pelo município) e a apropriação indevida do espaço público por exploradores privados. Você não pode, por exemplo, abrir uma banquinha na calçada para vender suco de laranja. Por que uma pessoa pode alugar a vaga - que não possui - que é pública, para um terceiro? Finalmente é obrigação do poder público proteger o cidadão. Principalmente as mulheres e idosos, que são as vítimas preferenciais. E não o faz por incompetência e preguiça. Patrulhar as ruas dá trabalho. Muito melhor ficar nas esquinas aplicando multa em quem fura sinal vermelho. E, finalmente, Wilame: não caia nestas armadilhas dessa turma. Eles querem apenas criar currais eleitorais para se perpetuar nos cargos. Junto com os flanelinhas vem outro ataque contra a civilização: os mototaxistas. E já tem projeto de lei para regulamentar esta besteira. Já falaremos sobre isso. Abraço, Milton *Texto extraído da coluna diária de Milton Ravagnani, editor-chefe de O Diário do Norte do Paraná, publicada dia 19 de junho no jornal.