quarta-feira, 27 de maio de 2009

O sincero pão com mortadela*

Wilame Prado Realizaria mais uma sequência de entrevistas no intuito de contratar um novo estagiário para a empresa. Na hora de escolher a melhor forma de selecionar alguém com um mínimo de caráter para trabalhar, dúvidas e mais dúvidas surgiam em sua cabeça. Sabia que, na verdade, as dinâmicas utilizadas não demonstram quem realmente o candidato é. Uma ideia meio maluca lhe veio à cabeça. Decidiu que, depois de fazer aquele questionário clichê de sempre, sendo simpático nas perguntas e observador nas respostas, sem mais nem menos faria a proposta indecente de pedir para o candidato abrir sua bolsa ou mochila e mostrar tudo o que tem dentro. Assim, conseguiria obter um mínimo de sinceridade de cada um. Primeira candidata. Mirela, 22 anos. Cursa o último ano de Direito, noturno. Nunca trabalhou na vida e é muito sincera ao dizer que procura estágio quase que forçada pelo pai, que não aguenta mais as despesas com o cartão de crédito. Em sua bolsa, encontra estojo de maquiagem, uma carteira gorda com cartões de tudo quanto é loja do shopping, absorventes, camisinhas, chave do carro, escova de cabelo e, incrivelmente, uma pedra pesada, que a menina alegou ser para sua defesa pessoal. Nessa hora, o empregador se lembra dos desenhos do Pica-Pau. O segundo candidato, Carlos, 19, veste-se elegantemente bem, portanto, não anda nem com mochila e nem com bolsa. Apenas com a maleta do notebook. Lê mais de oito jornais diariamente pela internet, tem seu blog, fotolog, giroflog e outros logs mais. Cursando o último ano de Jornalismo, seu sonho mesmo é ser apresentador de programa televisivo, assim como o Luciano Huck. Com 40 minutos de atraso, chega mais um candidato. Meio suado, roupas simples, porém limpas, cabelo sem corte e barbicha engraçada. Horácio, 20, ainda não está na faculdade, mas faz cursinho e trabalha em regime de escravidão em um call center. O atraso se deu porque não conseguiu ser liberado tão facilmente do serviço. Quando abre sua mochila surrada e suja, fica com as bochechas rosadas. Um caderno, cópias de músicas cifradas de uma MPB distante, um livro recém-comprado no sebo (a etiqueta de R$ 5 não mente) e um pão com mortadela dentro de um saquinho marrom são os utensílios que compõem a pobre mochila de Horácio. Outros candidatos à vaga abrem suas mochilas no decorrer da semana. Um deles, libera milhões de borboletas douradas pelo escritório, exalando magia, cor e doçura. Outro, mostra portfólio invejável com fotografias cheirando a Photoshop, de tão intocáveis. Uma linda garota prefere abrir as pernas em vez de abrir a bolsa, mesmo sem estar usando calcinha. Mas não tem mais jeito. Ninguém tira da cabeça do empregador que Horácio é o rapaz certo para a vaga. É que ele achou sincero demais o saquinho marrom contendo pão com mortadela. *Crônica publicada dia 26 de maio na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://viajenaviagem.files.wordpress.com/2007/10/mortadela450.jpg