terça-feira, 19 de maio de 2009

Peladões na camionete*

Wilame Prado Na pequena cidade, os dois eram conhecidos apenas como bons amigos. Nas noites calorosas dos finais de semana, na camionete potente e vermelha de um, ou no esportivo preto do outro, andavam pela avenida principal (e única) da cidade, exibindo suas cervejas long necks e seus cigarros importados. As mulheres se sentiam atraídas pela dupla de amigos. Afinal de contas, eles se vestiam bem, eram felizes, descompromissados e podiam oferecer status às garotas que conseguissem entrar em seus carros bonitos para desfilar na rua. Sentadas num banco macio de couro, bebericando uma Keep Cooler e curtindo uma “boa” música sertaneja, as garotas se sentiam valorizadas no mercado da paquera. Talvez estivessem, inclusive, vivendo um dos melhores momentos de suas vidas medíocres. O tempo foi passando e, quase que semanalmente, a dupla de amigos não se cansava de trocar de namoradas. Isso começou a instigar o pessoal, que não entendia o porquê de tanto desperdício de mulher bonita. Foi quando começaram a denegrir a imagem dos dois rapazes, que outrora eram considerados “os caras”. De repente, coitados, perderam toda a pompa de mauricinhos galanteadores para se tornarem motivo de piada em rodinhas formadas na pastelaria, em frente ao açougue ou no posto de gasolina. A moral dos dois já estava abalada e piorou de vez quando um policial da pequena cidade resolveu fazer uma ronda na zona rural. Na ocasião, não encontrou nenhuma gangue tentando surrupiar gado ou tratores, mas viu a camionete vermelha de um dos rapazes encostada atrás de uma moita. Pensou que talvez pudesse ter sido roubada e logo foi averiguar a situação mais de perto. Ao chegar na cabine o policial ficou extremamente chocado com a cena. Nunca imaginou que encontraria dois homens, o dono da camionete e seu fiel amigo, completamente nus dentro do veículo. Os jovens amigos alegaram que estavam fumando um baseado, e que por isso tiraram as roupas para não ficar com cheiro de maconha, o que poderia causar complicações em casa. Depois disso tudo, ninguém mais viu os dois companheiros juntos, desfilando na avenida principal com seus carros e suas mulheres. Fim. Acabou a história, mas não a crônica. Antes disso, quero lembrar aos leitores que este causo chegou até os ouvidos deste escriba por meio do perigoso boato de cidade pequena. Portanto, vê se não vai sair contando para todo mundo. Fica só entre nós, tudo bem? Afinal, pode ser mentira, pode ser verdade. Pode ser que realmente os amigos estavam curtindo um baseado mais à vontade (sem roupas). Pode ser um grande caso de amor. Ninguém sabe, mas todos sabem. Isso é o boato. Esse é o preço que os moradores de cidade pequena pagam pelo sossego diário: a qualquer momento podem cair nas graças ou nas desgraças da língua comprida do povo. *Crônica publicada dia 19 de março na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná