terça-feira, 31 de março de 2009

Chico, Radiohead e o gato*

Wilame Prado
Dia desses, um amigo me pegou desprevenido ao perguntar quanto eu pagaria para ver um show do Chico Buarque. Surpreso com o questionamento de supetão, disse que poderia desembolsar até R$ 300 para ver um dos maiores ícones da música brasileira. Mas, como é sabido, a vida não é bolinho e nem sempre podemos ter o que queremos, na hora que queremos.
Digo isso ao me lembrar que, há alguns dias, a banda inglesa Radiohead se apresentou, pela primeira vez, no Brasil, lá em Sampa. E, assim como o bom e velho mpb, gosto muito de ouvir o rock melancólico de Thom Yorke e companhia. A falta de dinheiro pisou, de coturno, em cima de um dos meus sonhos, que é o de ir ao show do Radiohead. Restou-me, então, ficar ouvindo “Ok Computer”, um dos melhores CDs de todos os tempos, e me acostumando com a idéia de que dificilmente a banda voltará ao Brasil e que mais difícil ainda será a minha participação em algum show no exterior. Depois de todo este raciocínio pessimista, concluo que menti ao meu amigo quando disse que poderia pagar R$ 300 para ver o Chico Buarque tocar. Tudo depende do dinheiro que terei disponível no banco ou do grau de loucura que atingirá minha cabeça, fazendo com que eu tenha coragem de não pagar o aluguel para pegar um ônibus e ir a alguma capital do País ouvir o grande Chico. Na verdade, nem sei porque estou escrevendo isso. Afinal, o show do Radiohead já foi e um possível show do Chico Buarque vai demorar a acontecer. Isso porque, ele, que além de compor canções maravilhosas ainda se arrisca no mundo cruel, pessimista e delicado da literatura, acaba de lançar mais um romance, com o título “Leite derramado”. Por conta disso, muito provavelmente ficará mais um tempo sem lançar CD e, conseqüentemente, sem fazer aquelas enxutas turnês de shows. Prefiro o Chico compositor ao BUARQUE, Chico escritor, o que não me impede de querer, por demais, ler seu novo romance. É complicado consumir algo que foi feito por um ídolo seu. Facilmente, a razão é deixada de lado para dar lugar aos sentimentos positivos acerca do artista. Para se criar uma áurea envolta do criador, é daqui pra li. E já que estou falando nele, gostaria de informar aos leitores que Chico Buarque, o gato comunitário (lembram-se?), vai muito bem, obrigado. Com pouco mais de um ano de idade, Chiquinho teve de abandonar um de seus lares. Agora, só fica em meu apartamento porque meu vizinho e sua mulher ganharam uma adorável e delicada boneca, a filhinha Juliana. No começo, o gato sentiu ciúmes do bebê, queria continuar sua vida dualista, indo e vindo a dois lares, recebendo carinho e ronronando para quatro donos. Sentiu febre, teve dor no ouvido e deixou tufos de pêlos por todo lugar. Mas, depois de uma série de medicamentos e cuidados, melhorou. Não sei porque, mas sempre quando estou ouvindo as melancolias amorosas de Chico Buarque ou as canções depressivas de Radiohead, o gato parece se acalmar, ao meu lado. Olhando para o nada, ele deve sentir saudades do tapete fofo e de outras peculiaridades que desfrutava em seu outro lar. Logo, se espreguiça, come um pouco de ração e afia as unhas em algum sofá. Assim como eu, o gato vai tocando a vida devagar, acostumado às derrotas.
*Crônica publicada, resumidamente, dia 31 de março na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná