terça-feira, 24 de março de 2009

Capitão Gancho*

Wilame Prado Não tenho a intenção de imitar o escritor Cristovão Tezza ao relatar a insólita história que me ocorreu quando fui renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Para refresco de memória, Tezza escreve crônicas também às terças no jornal Gazeta do Povo e, em dois textos publicados dia desses, discorreu sobre uma verdadeira maratona que enfrentou no Detran, aguardando todo o processo de renovação da carteira, das 7h30 às 12h40. Diferentemente do que ocorre com muita gente, até com o escritor do premiado “O filho eterno”, não tive de ficar com calo nas nádegas esperando a boa vontade da senhora burocracia, ao renovar minha carteira. Devo confessar que o processo se deu rapidamente, com a ressalva de que precisei voltar no Detran uns 20 dias depois para fazer o teste de visão – agenda lotada. É aí que começa a bizarrice desta pequena história. Mas, antes de começar a contá-la, informo aos leitores que tenho mais de dois graus de miopia em cada olho e um bom tanto de astigmatismo. É só reparar em meu óculos na foto aí em cima do texto para provar que não estou mentindo – até nas fotos o óculos está junto a mim. Voltando ao causo, estou eu lá na fila quando ouço chamar meu nome, pronunciado erradamente como sempre (motivo para uma outra crônica qualquer dia desses). Entro na humilde, quase grotesca, salinha do médico oftalmologista, que parece estar mais entediado naquele cargo público do que o protagonista do excelente filme nacional “O cheiro do ralo” (também rende uma boa crônica este filme), interpretado por Selton Mello. Nossa! Como estou demorando a contar o que aconteceu! Até parece que foi algo sensacional, de outro mundo, uma revelação. Mas, podem ficar tranquilos que não farei igual ao Deus da crônica brasileira, Rubem Braga. Não foi nem uma e nem duas vezes em que ele começava uma história instigante numa crônica para só terminar na outra, ou na outra ainda. Vamos lá, finalmente o ocorrido: sentei-me e encaixei a cabeça naquele instrumento em que você se depara com um monte de letrinhas miúdas; o médico foi perguntando que letrinhas eram aquelas e, simplesmente, não pude responder uma sequer, pois pareciam formigas; ele tentou mais algumas vezes, já irritado, mas desistiu. Ao final, disse que só iria me aprovar porque, segundo ele, eu estava enxergando bem com o olho direito, o que era mentira, pois, na verdade, não enxerguei absolutamente nada com nenhum dos olhos. Ele disse que eu poderia ir embora. Então, fui. A mocinha da recepção disse a mim que, dentro de cinco dias, minha carteira chegaria em casa e que teria de renová-la daqui três anos. Estranhei, pois, sempre achei que o prazo de vencimento era de cinco anos. Um belo dia, eis que depositam a carta, com o logotipo do Detran, na caixinha de correspondências número 53. Abro e me deparo com minha CNH, novinha, mas com a observação “A” na parte de trás. Está explicado porque terei de renová-la em três anos: No entender do médico oftalmologista, tenho visão monocular, ou seja, só enxergo de um olho. Então, mesmo discordando do laudo médico, a partir de hoje, se virem pelas ruas alguém dirigindo com um tapa-olho, igual ao do Capitão Gancho, não se assustem. Sou eu. *Crônica publicada, resumidamente, dia 24 de março na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://2.bp.blogspot.com/_P45bfC0PA3s/SNZc44t-zNI/AAAAAAAAAAs/BFT7thF_E1A/s400/pirata.jpg

Literatura mágica*

Wilame Prado Os anos passaram rápidos demais. Distraído, quase que ao mesmo tempo em que observava uma folha seca no outono cair da árvore e flutuar, quando fui notar já estava prestando vestibular, entrando numa faculdade, saindo pela porta dos fundos da casa da mãe, mudando de cidade e estreando no mundo rebelde das repúblicas universitárias da zona 07 de Maringá. Acompanhado apenas de um mini-system, de um aparelho de dvd e dos aparatos para se fazer um bom tereré com a erva Campanário, a vida foi passando, aliás, flutuando, assim como aquela folha seca ou então como uma sacolinha plástica de supermercado, com aqueles escritos sempre em vermelho e azul, jogada na rua por alguém sem consciência ambiental, que, provavelmente, acabara de comprar uma lata de coca e um chips Fandangos para fazer aquele almoço rápido e sincero. Entre um cachorro-quente simples e outro no HM, entre uma canção e outra do Raul Seixas no bar Don Juan (que não existe mais), entre uma caminhada e outra da universidade até a Biblioteca Municipal onde estagiava, entre um livro e outro do Gabriel García Márquez (lidos freneticamente por todos os lugares em que a leitura se fazia possível), os anos se passaram de uma maneira estrondosamente ligeira, sem pausa para o segundo tempo, sem pitstop, sem fechamento para balanço. Atualmente, continuo buscando um canudo universitário para poder ficar em cela especial, caso alguém queira me prender por difamação ou desacato. Tirando isso e a preferência pela erva Campanário de tereré, quase tudo se modificou em minha vida, principalmente o modo como os dias, os meses e os anos têm se passado. Lembrei-me disto ao perceber que, incrivelmente, amanhã (18 de março), fará somente um ano que me tornei cronista deste jornal. Durante este tempo, a vida passou com uma calmaria sem tamanho, quase com serenidade, muito bem obrigado, que nem parece ter sido somente um ano e sim uma vida inteira. As semanas, agora, são divididas entre uma crônica e outra, que quase sempre escrevo nas manhãs dominicais, acompanhado de uma caneca de café, ouvindo o silêncio das ruas maringaenses e olhando para o céu mais azul do mundo pela janela de um quarto que chamo de escritório. Tem gente que sonha conquistar o mundo. Eu sempre sonhei em ter um escritório, uma máquina de escrever (computador), muitos romances em uma estante de livros e uma coleção razoável de bons filmes para os momentos em que a preguiça de ler me obrigar apenas a apreciar a sétima arte. É claro que, no meio desse conto de fadas da indústria cultural, vem a vida real, com muito trabalho, estudo, dores de cabeça e contas a pagar espalhadas pela mesa. Porém, caro leitores, o que seria de mim, ou de nós, não fosse a mágica da literatura, o escape do mundo bruto e ensandecido, com pais que engravidam as filhas, com pais que convidam as filhas para dar um passeio suicida de avião, com pais que arremessam as filhas pela janela do apartamento ou com pais que, sob efeito do crack, deixam seus filhos recém-nascidos voltarem para onde nunca deviam ter saído? *Crônica publicada dia 17 de março na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://farm1.static.flickr.com/157/411286893_f53e945cd8_o.jpg

Mulheres: amo vocês*

Wilame Prado O autor da frase “mulher é tudo igual, só muda o endereço” provavelmente desconhecia o mundo feminino e, ainda por cima, devia ser machista ao extremo. Quer fazer um teste e comprovar que cada mulher tem as suas particularidades? Não, você não terá de ir obrigatoriamente a algum lar para achar uma dona de casa. Isso porque, hoje, pelo menos aqui no Brasil, as mulheres estão inseridas em praticamente todos os segmentos da sociedade, atuando de maneira ativa em diversos ramos profissionais. A maioria delas, não importando o tipo de profissão que exerce, demonstra uma capacidade incrível de ser polivalente. Ou seja, elas conseguem fazer mil coisas de uma só vez, e isso com inteligência e sem perder a delicadeza. Não é todo dia que se vê pela rua uma mulher tocando violino e andando de bicicleta ao mesmo tempo, assim como naquela propaganda que passava na televisão antigamente. Porém, essa é uma boa alegoria para representar o quanto elas conseguem atingir seus objetivos sem se preocupar com o grau de dificuldade. Andar de bicicleta e tocar violino ao mesmo tempo não deve ser tarefa das mais difíceis para os homens se comparada ao que muita mulher faz ao mesmo tempo: arrumar os filhos para irem ao colégio, escolher a roupa que combine com o sapato e com a bolsa, colocar as almofadas no sofá, dar ração para o cachorro, ajeitar a barra da calça e a gola da camisa do marido e ainda não perder o rebolado para chegar no horário, sã e salva, em seu trabalho. Com os fatos presenciados diariamente, claro está que as mulheres ainda têm muito o que conquistar, pois ainda recebem menos trabalhando o mesmo do que os homens, ainda sofrem violência em seus próprios lares, ainda são alvos de estupradores e marginais desalmados e ainda têm de aguentar o pensamento machista de grande parte da sociedade. Porém, é com beleza, carinho, e muita destreza, armadas, é claro, de batom, blush e bom gosto, que elas vão enfrentando as barreiras, quebrando paradigmas e provando, por a + b, que “Agora é que são elas”. Eu, um confesso adorador das mulheres, parabenizo a todas pelo Dia Internacional da Mulher. Sei que o 8 de março já passou, porém fico tranquilo pelo meu atraso, afinal, todo dia é dia de se fazer uma homenagem a elas. Por fim, aproveito a data para dizer que amo muito vocês: mãe, tias, avós, a minha Denise, irmã, sobrinhas, primas, patroa, sogra, cunhadas, colegas de trabalho, colegas de faculdade, a garçonete que tão bem me atende na padaria, a motorista da circular, a catadora de lixo, a profissional do sexo, a empresária perfumada que passa apressada pela rua, as professoras queridas, a mulher que trabalha na roça, as que um dia me deram carinho e me beijaram com tanto ardor, tantas outras que não me recordo no momento e, claro, as digníssimas leitoras deste cronista. *Crônica publicada dia 10 de março na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.vivercidades.org.br/publique222/media/tamara_AndroMulherNua.jpg