terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Feriado chuvoso*

Wilame Prado Devidamente vestido para o compromisso de logo mais, o homem, com seus trejeitos e defeitos, ainda hesitou por alguns minutos antes de seguir em frente. Nesse tempinho, olhou a chuvarada pela janela e pôde observar que esse fenômeno natural, a chuva, é quase um ser vivo, por ser tão sincronizado o ato de cair água do céu, freneticamente com força, querendo levar o que tem pelo caminho, almejando fazer novos rios, por entre ruas asfaltadas, outras de terra, daquela cidade pequena. Foi como um estudo teórico, aquele olhar absorto do homem, vendo a chuva cair. Foi, também, como um exercício mental de cálculos e fórmulas para chegar ao resultado final e obter uma conclusão do que aconteceria logo adiante, a um passo, quando resolvesse, enfim, seguir em frente. Então, foi-se. Seguiu-se em frente, sim. Com seus trejeitos e defeitos, vestido a caráter para o compromisso de logo mais, o homem se foi pela chuva forte. O início do caminho é ruim, admitiu a si mesmo. É como um nascer, pois, sob um teto, sentindo a temperatura confortável da roupa e do corpo seco, significa proteção, acolhimento, igual, imaginou, acontece dentro da barriga de uma mãe. Sentir a chuva gelada caindo na cabeça, perceber, gradualmente, as vestes se encharcarem, notar que uma corrente de água fria atinge com força absoluta as meias e os sapatos novos, irritar-se com a ausência de visão plena porque o óculos é contaminado por pingos vorazes, que insistem em nublar as lentes, isso tudo, imaginou também, é o mundo novo, o nascimento de um bebê, chegando a um lugar desprotegido, frio e grotesco. Mas, como tudo na vida é viver, pensou o homem, vivenciou aquela chuva, enfrentou as dificuldades de clima e de conforto e habituou-se, enfim, àquilo tudo. E, agora sim, o que há de belo e bom na vida de alguém que está tomando um banho de chuva, o homem pôde sentir. Cheiro de terra molhada, solidão por entre ruas desertas, saudade do lar e da energia elétrica e vontade enorme de comer chocolate era o que passava por sua cabeça naquele momento, digamos, molhado. Alguns minutos antes de chegar ao seu destino, espantou-se com o término da chuvarada, com a mudança repentina de temperatura, com a luminosidade de um sol que já estava quase se pondo, com o repentino aumento de transeuntes pelas ruas e poças, com a volta do cantar de pássaros e com a facilidade com que seus cabelos estavam se secando. Quando deu por si, chegou onde queria chegar. Entrou, meio molhado ainda, já demonstrando seus trejeitos, cumprimentou um ou dois conhecidos e se serviu de uma bebida alcoólica. Depois de um tempo e de algumas cheiradas no lança perfume (queria ser clássico, resistindo às drogas sintéticas), quando viu, estava discursando para uma rodinha de moças sorridentes (algumas, praticamente nuas) e rapazes chapados. Claramente demonstrando seus defeitos, trejeitos e anacronismos, falou por vários minutos sobre os dias de folia, sobre sua fantasia que se desmanchara com a chuva, sobre o Pierrô, o Arlequim e a Colombina e sobre a possibilidade de tomar um banho quente naquela casa esquisita. Ficou até o final da festa à fantasia tentando se lembrar, em vão, onde esteve e se tinha chovido no carnaval do ano passado. *Crônica publicada, resumidamente, dia 24 de fevereiro, hoje, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://www.sneakersbr.com.br/upload/image/Chuva.jpg