quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Jogador solito*

Wilame Prado Da janela do quinto andar vejo o menino batendo bola – a parede e ele. Colorida, vermelha, amarela e azul, a bola é daquelas de jogar vôlei – leve. Com chinelo de dedo, bermuda e camiseta regata, o menino se diverte no verão. Por um instante, penso que está sozinho, mas logo seu amigo, companheiro de bola, aparece para participar do jogo. Os dois brincam com a bola - os dois e a parede. Essa imagem me fez lembrar da época de menino e do quanto gostava de bater bola. Eu, as paredes e o portão de casa. Mas, diferentemente dos garotos que brincam juntos num condomínio de prédios qualquer de Maringá, eu não tinha amigos para bater bola. Mas tinha o uniforme completo do Santos Futebol Clube; tinha chuteira, mesmo que não jogasse no campo; tinha caneleira, mesmo que ninguém fosse acertar minha canela; e tinha a imaginação. Fazia tabelinha com as paredes e, egoísmo a parte, o autor do gol sempre era eu. Passava tardes a fio naquela atividade solitária. Imaginava-me como o, então craque do Santos, Giovanni, que usava tinta vermelha no cabelo. Simulava, inclusive, o extra-campo, quando atletas ficam na concentração ou se divertindo. Nas badaladas festas dos boleiros, meu uísque era um copo de guaraná. Adorava quando, em casa, éramos apenas eu, as paredes (jogadores do mesmo time), o portão (as traves do gol) e minha mãe, costurando freneticamente no quartinho ao lado. Quando tinha visita em casa, ou até mesmo pai ou irmã, não me sentia a vontade para bater bola sozinho – ficava acanhado. Muitos achavam que eu era louco, ou que precisava urgentemente de amigos. Meu pai, então, colocou-me em uma escolinha de futebol. Mas não era a mesma coisa. Não conseguia ser goleador e, ao contrário das paredes, os outros meninos não tocavam a bola para mim toda hora. Fui um mero jogador mediano, daqueles que só entram em jogo no segundo tempo. Ainda assim, desconfio de que houve verba disponibilizada por meu pai para que o técnico me colocasse na partida. Anos se passaram e só agora entendo quando as pessoas citam a solidão das capitais. Rodeado de milhões de pessoas na grande São Paulo, meus melhores amigos ainda assim continuavam sendo paredes e portão. Não apenas amigos, mas barreiras que, teoricamente, protegiam-me da violência e dos maus caminhos da rua. Não reclamo dos tempos de jogador solito. Foi bom para pensar, imaginar e dar valor aos verdadeiros, mas poucos, amigos – os únicos que não riem da minha cara quando confesso que, em meio a um jogo ilusório, acompanhado de ninguém a não ser paredes e portão, cheguei a me jogar no chão de casa para tentar cavar um pênalti, fazer um golaço e ajudar o glorioso alvinegro praiano a conquistar mais uma vitória suada no campeonato da solidão. *Crônica publicada dia 20 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.minhascamisas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2007/08/santos_1.jpg