quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Virada boa*

Wilame Prado Para mim, as viradas de ano, com raras exceções, quase sempre foram dotadas de significados rasos, tentativas fracassadas de emoção, irritações por causa do banho levado de espumantes baratos e pela impaciência com o desnecessário estourar de fogos. Por isso, nesta virada, resolvi fazer diferente: tentei pelo menos simular que tinha entrado no espírito de otimismo e renovação tão comum em final de dezembro e início de janeiro. O jeito, então, foi ir à distante praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba, no litoral norte paulista, onde eu e minha mulher conseguimos um lugar para ficar, junto de alguns parentes e amigos desses meus parentes (mais tarde viraram nossos amigos também) – os donos da casa. Mas, antes disso, entre o Natal e o Ano Novo, passamos uns dias aprazíveis com o meu “amigo-irmão”, Vinicius Lino, e sua namorada na grande São Paulo, inaugurando com chave-de-ouro a nossa programação veraneia. Chegara a hora de descer a serra e finalmente queimar a carcaça no sol escaldante refletido nas areias claras da praia. Na ida, em meio ao trânsito caótico, quis refletir sobre a peça que estava pregando em mim mesmo, tentando me enganar que a virada e os dias que a antecedem e a sucedem são dotados de uma energia positiva e renovadora. Mas, de repente, no meio do diálogo filosofal, no rádio começou a tocar uma canção gostosa, sem malícias e nostálgica, que dizia simplesmente que a vida era boa e que o sapo caíra na lagoa, em meio ao caminho de uma pessoa para o sertão. Não sou admirador do chamado sertanejo universitário que muita gente vem fazendo pelo Brasil afora, mas, depois de ouvir a música “Vida Boa”, passei a respeitar bem mais a dupla Victor & Léo. Então, esqueci de vez o papo que batia comigo mesmo sobre a simbologia dessas datas e refleti, olhando nos olhos e no sorriso maroto da Laís, minha sobrinha e tesouro, que realmente a vida era boa e que poderia ter uma virada das melhores, sem simulações ou mentiras internas. Afinal, o único sentido para toda a magia do fim de ano se resume simplesmente ao fato de que estar ao lado de pessoas queridas e especiais já é o bastante para acreditar que o recém-nascido 2009 pode ser ainda melhor do que o 2008 velho de guerra. Semana que vem, prometo aos leitores que darei mais detalhes sobre uma praia fantasiosa, em que barcos e bananas flutuantes dividem espaço com pedestres aquáticos, e sobre um relógio que se aposentou faltando quatro minutos para as três, assassinando assim a rotina e fazendo com que as pessoas da casa almoçassem de noite e preparassem bolo de fubá e café preto de madrugada. *Crônica publicada dia 6 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.nuaideia.com/images2/onda-dourada-(1).jpg