quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sumiço*

Wilame Prado

Nos momentos finais da faculdade, ele começou a sumir. O grupo de colegas de sala nem notou esse início de retirada social. O processo de desaparecimento foi acompanhado de algumas atitudes até então inéditas tomadas por ele. A começar pelo abandono de alguns vícios. No Espetinho do Zé, comemorando a nota máxima tirada na banca final, doou a última cartela de Marlboro para o companheiro ao lado.


No apartamento dele, ao contrário do que acontecia com frequência nos últimos meses, a entrada de refrigerante estava irrevogavelmente proibida. Ao olhar a barriga, que tomava formas astronômicas de uma maneira vertiginosa, restou a ele apontar um bode expiatório. Para não passar no seco, virou um voraz consumidor de água com gás.

Assim como o contrato de trabalho, as aulas finalmente chegaram ao fim. Estava formado e desempregado. Que beleza! Com um canudo debaixo do braço, atestando que passou quatro anos da vida participando de um suspeito ciclo universitário, ele simplesmente preferiu não visitar o mercado de trabalho.

Encostou-se confortavelmente em uma poltrona velha de seu lar. Foi lá que conheceu o ócio não criativo. Foi lá que permaneceu intacto quando o telefone ou a campainha tocaram algumas vezes. Foi lá que, antes de tacar o notebook na parede, desligou-se de todas as redes sociais e banais que participara até então. Esboçou até um refrão: “Orkut: até mais ver/ Twitter: já vai tarde/ Email: não te quero mais/ Blogue: vai ver se estou na esquina”.

Sabia que não demoraria muito para que o nome dele caísse no limbo do esquecimento eterno, amém.Comprovou isso com a diminuição das ligações telefônicas de parentes e amigos. Passado algum tempo, quebrou também os telefones e deixou de pagar as contas para que os serviços fossem cortados.

Quando já não havia mais possibilidade alguma de conviver naquele lar -agora, imundo, escuro e sem mantimentos alimentares -, ele simplesmente o abandonou. Era madrugada. Era calor. Era ele e mais ninguém pelas ruas simpáticas de Maringá. Caminhou alguns quilômetros sem sentir, uma vez se quer, vontade de olhar para trás.

Errante, mas nem tanto, algo o levou até o terminal rodoviário. Talvez fosse a sede. Comprou uma garrafa de água com gás. Meio que inconsciente, viu-se comprando também um bilhete, só de ida. Meio que sem pensar, entrou em um ônibus e rumou para algum Norte. Meio que sem refletir, esboçou um tímido tchau quando o veículo passou ao lado da Catedral.

Agora, está sozinho e olhando pela janela a paisagem de cores formada pelo verde da soja, pelo branco do gado e pelo vermelho da terra. Tenta entender o motivo de seu sumiço. No sacolejar daquele ônibus, rodeado de pessoas feias e estranhas, admite para si a verdade: antecipou-se escolhendo ficar sozinho porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, todos o abandonarão de uma maneira tênue, sufocante e extremamente triste.
Crônica publicada dia 8 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

5 comentários:

Anônimo disse...

Você é brilhantemente varrido...

Tatha Fernandes disse...

"Com um canudo debaixo do braço, atestando que passou quatro anos da vida participando de um suspeito ciclo universitário"

Maravilhoso!

thingy. disse...

"Caminhou alguns quilômetros sem sentir, uma vez se quer, vontade de olhar para trás."

Isso me fez ficar uns 5 minutos encarando a tela do computador agoniada.

Você escreve lindo.

Wilame Prado disse...

Obrigado, Tatha, pelo "maravilhoso". E obrigado, Thingy, pelo "você escreve lindo". Isso nos motiva a continuar escrevendo, tendo a consciência que não só parentes e amigos próximos é quem leem os textos do blogue. Um abraço a todos os leitores de A Poltrona.

Rafael C. Crivelaro disse...

Por.. mano, como se faz isso ?
Presciso aprender pro dolégio cara!
uhshausauhsauhs :D

brincadeira, vc tem o Dom cara.
E é fantástico ler teus textos !
Parabéns.!