quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ouço Otto; penso em Alessandra*

Wilame Prado


Acho que todos nós, pelo menos em algum momento da vida, sentimos-nos nojentos, asquerosos, rejeitados e até odiados pelos outros – assim como insetos.

Fico pensando que o músico Otto viveu na pele a insignificância de um inseto ao abrir os jornais e ler notícias (ou fofocas) de que, na época, sua mulher, a atriz Alessandra Negrini, beijara o bonitinho do Bruno Gagliasso ou se encontrara com o bonitão do Fábio Assunção.

É. Deve ter doído mesmo. Mas, também, pudera. Olha com quem ele foi querer mexer! Alessandra Negrini é a mulher mais espetacular que já vi na telinha. A morena é linda, e parece saber exatamente o que fazer para deixar qualquer moço a seus pés.

Tentando (não conseguindo jamais) esquecer da Engraçadinha da Alessandra, falemos um pouco das mazelas dessa vida. Penso que os sofrimentos não são em vão, ainda bem. Corriqueira, a vida é. Verdade.

E muitos artistas só conseguem produzir coisas profundas quando estão tristes ou solitários. É assim que se consegue enxergar o amargo da rotina, do dia pós dia, da completa repetição de fatos e transformar tudo isso em beleza – seja na literatura, no cinema, nas artes plásticas, no teatro, enfim.

Otto, que parecia estar vivendo um pesadelo sem tamanho, finalmente acordou. Acordou sim, mas, provavelmente suado e ainda com a imagem de Alessandra (eu avisei que não conseguiria esquecer) ao seu lado, “bem junto/na cama/de um quarto de hotel” – trecho de uma das mais emocionantes canções de seu último CD, o maduro e bonito “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”.

O inseto arretado e pernambucano Otto acordou, sim. Comprovo isso em outro trecho da canção: “Nasceram flores num canto de um quarto escuro/Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Para a alegria de quem já curtia suas músicas e não aguentava mais esperar o lançamento de um novo trabalho, finalmente as flores musicais de Otto renasceram.

O músico acordou, fez um gargarejo com folhas de romã e está com uma bela voz. E não pensem que seus sonhos intraquilos abalaram, por exemplo, seu sotaque marcante de nortista ou o gosto pelo brega. O poeta Otto saiu do casulo, minha gente. Está na praça de novo. E transformou todo seu sofrimento do passado num dos melhores discos nacionais do ano de 2009.

Muitos não curtem os trabalhos anteriores de Otto por achar experimentalistas demais. Eu era um deles. Pois eu digo que, agora, em “Certa manhã acordei de sonhos intraquilos”, já com 41 anos de idade, Otto acertou o alvo e soube trabalhar bem com suas possibilidades.

Fazia tempo que não chorava ouvindo música e prestando atenção na letra. Devo ter ouvido mais de cinquenta vezes as faixas “Crua” e “6 minutos” do CD. Nesse prazer de ouvir as canções de Otto, continuo chorando, emocionado, agradecido e, indubitavelmente, pensando em Alessandra Negrini.

*Crônica publicada dia 1 de dezembro na coluna Crônica, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://imagem.vilamulher.terra.com.br/interacao/original/80/alessandra-negrini-e-otto-mais-um-casal-desfeito-80-126.jpg

4 comentários:

Alexandre Gaioto disse...

"Alessandra Negrini é a mulher mais espetacular que já vi na telinha."
Concordo plenamente.
Bela crítica, Wilame.
Abraço!

Dom .A. disse...

São nesses momentos que toda produção artística é fortalecida. É a dor que nos torna melhores.....

Michel Queiroz disse...

Otto é foda! desde o anonimato!

Vanessa disse...

Maravilhosa é ela. E maravilhosa é a poesia dele para ela!