sábado, 26 de dezembro de 2009

Os natais eram bem mais felizes

Wilame Prado


Numa hora daquelas, até o Bar do Vargas já estava fechado. As duas mesas de sinuca do Bar do João Bosco estavam ocupadas. Além disso, toda a cerveja gelada tinha sido vendida. Também. Não poderíamos esperar muita coisa dessa pequenina cidade do interior. Ainda mais sendo noite de 25 de dezembro.

Alguns carros passam pela avenida principal, e única, da cidade. Dentro do meu Escort, íamos eu, Pudim e Nego Ló, equilibrando nossos copos, em busca de um recanto afastado onde teríamos bebida gelada e mesa de sinuca desocupada. Áreas periféricas da cidade nos atraíam naquele dia, assim como formigas indo diretamente ao doce. E nada de bar aberto.

Chegamos a visitar o postão da rodovia. Nem bomba para abastecer o carro estava funcionando naquela pocilga cheia de crateras espalhadas pelo chão. A impressão era de que o pessoal da cidadezinha não precisaria mais ganhar dinheiro. “E daí que é Natal”, pensei.

O Bar do Coqueiro era nossa última esperança. Ficava na outra ponta da cidade, na saída que vai para o Sítio 50 Alqueires. A esperança é a última que morre. Morremos ali, no Bar do Coqueiro. Morri o Escort em frente.

Distraía-me sentindo o levedo daquela cerveja barata refrescar minha garganta enquanto assistia, de camarote, o Pudim dar uma surra no Nego Ló naquele tapete verde da sinuca que contrasta com o colorido das bolinhas enumeradas.

Um caubói alto e forte gesticulava e gritava num aparelho celular – última moda da pequena cidade. Um rapaz de olhos brilhantes e barbinha feita para o Natal tomava uma cerveja ainda mais barata que a nossa. Ele esmiuçava com a boca um canto baixinho, tentando seguir o compasso da música internacional e dance dos anos 80 que estava tocando no Microsystem do bar. Ele não sabia falar inglês, tampouco cantar.

A moça que cuidava do bar naquela noite de Natal não trabalhava ali normalmente. Aceitou cuidar da espelunca no período da noite por dez reais. O rapaz da barbinha perguntou a ela se sabia que dia era aquele. Ela disse “dia 25 ué”. E ele disse “mas o que significa?”. Ela retrucou “eu vou saber caramba”. O rapaz riu para a gente e ofereceu amendoim.

Pudim rebolava sua bunda gorda ao som da Sessão By Night enquanto me trucidava na sinuca. Nego Ló, que naquele dia não estava bebendo porque estava ingerindo remédios para controlar suas hemorróidas, esboçava um desejo de ir embora. Tomando devagar sua cerveja barata, o rapaz da barbinha parecia estar feliz porque provavelmente, quando fôssemos embora, namoraria a morena do Bar do Coqueiro.

Depois de cuspir no telefone celular, o caubói pegou seu capacete e foi embora. Alguns minutos, talvez mais de uma hora, escorreram do relógio enquanto nos divertíamos jogando sinuca, bebendo cerveja e dando altas risadas da mesa descaída do bar.

Chegara a hora de seguir em frente, com aquele Escort caindo aos pedaços. Duas notas de cinco reais, jogadas no balcão, pagaram toda nossa despesa. Antes de sair do boteco, dei uma olhadela para o rapaz da barba engraçada e também para a morena forte e de olhos claros. Os dois já flertavam e pareciam estar vivendo uma boa noite de Natal.

Já dentro do carro, com os dois amigos tranquilos da vida, percebi que o céu estava de um negrume só. Uma chuva fraca, mas persistente, insistiu em molhar todo o asfalto naquele feriado que cheira a consumo, briga de família e churrasco.

Despedi-me do Pudim e do Nego Ló já pensando que amanhã seria outro dia. Por força do hábito, desejamos um ao outro um feliz Natal, mesmo sabendo que todos os três ficaram quase o dia todo vendo a chuva cair nostálgicos e concluindo que os natais de antigamente eram bem mais felizes.

Um comentário:

f.mungo disse...

Cara, embarquei nessa vigem e quase que senti a chuva molhando meu rosto, belo conto.....