terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feliz ano novo*





Wilame Prado

Enquanto anda pelas ruas de uma São Paulo agora totalmente irreconhecível – sem trânsito e transeuntes – Hélio olha para o desenho das calçadas e se recorda da infância – período em que percorria aqueles caminhos de cabeça baixa e pulando os riscos e as rachaduras do chão. Quando criança, pensava que isso traria sorte.

Tempos outros os de agora. Sorte? Que nada. Assim como as linhas puladas da calçada, ele se amargura rememorando as diversas etapas da vida saltitadas. O pior é que, além de seus saltos propositais e desmedidos, ainda havia, no galope existencial, buracos inescapáveis e profundos.

Não parece, mas Hélio tem apenas 36 anos. Quando diz a idade, brinca ressaltando que envelhecera dez anos ou mais no último mês. Pessoas próximas, que estão cada vez mais distantes com o passar dos dias, perguntam a ele porque, no passado, foi preciso viver daquele jeito, no limite, mais parecendo um embriagado tentando fazer o quatro numa corda bamba.

Mas tudo isso, neste momento, para Hélio, não importa. Está sozinho, numa cidade grande e deserta, objetivando apenas cumprir uma missão. E gosta da sensação de paz e serenidade que veio junto às chuvas caídas antes, durante e depois do Natal. Ao se molhar, sozinho, no meio da rua, tentou até sorrir.

Distrações à parte, tomando banho de chuva ou trancado num quarto de hotel, ele sentiu os dias daquela semana escorrer pelo ralo do tempo. Agora, já é 31 de dezembro, último dia do ano e data marcada para Hélio conquistar uma meta que traçou.

No pensamento, em vão, tenta recordar-se de uma cena clássica de um filme de bang-bang de Sérgio Leone, palpitante, sentindo o coração na boca, na mão e no peito, enquanto sobe as escadas de um prédio antigo e sem porteiro do centro de São Paulo.

Hélio encontra-se tenso igual a um caubói que, na avenida principal de um vilarejo do deserto, está com as mãos no gatilho, prestes a matar ou morrer. Toma um susto quando ouve as doze badaladas da imensa catedral que fica ali perto. Fogos de artifício pipocam e clareiam o horizonte visto da janela do quarto e último andar do singelo edifício.

Com a imensidão de luz, vê também uma barata subindo em sua perna. Chuta o ar na esperança de derrubá-la para, logo em seguida, esmagá-la, assim como pretende fazer com seu passado de inseto. Sem barata, e querendo só pensar no daqui para frente, bate, determinado, na porta do 402.

Um senhor quase calvo, com uma barba cinza por fazer e com uma certa tristeza no olhar, disfarçada de olheiras, logo se emociona ao ver o pequeno Helinho – agora grande e também triste, assim como o pai. Ao dar um abraço apertado em seu velho, Hélio ouve uma voz trepidante, anuviada pelo choro: “Por onde andou, meu filho?”. Para ele, mais leve e, agora, dez anos mais novo, a missão havia sido cumprida. “Feliz ano novo, pai”.


Crédito da imagem: http://confins.revues.org/docannexe/image/25/img-7-small480.jpg

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os natais eram bem mais felizes

Wilame Prado


Numa hora daquelas, até o Bar do Vargas já estava fechado. As duas mesas de sinuca do Bar do João Bosco estavam ocupadas. Além disso, toda a cerveja gelada tinha sido vendida. Também. Não poderíamos esperar muita coisa dessa pequenina cidade do interior. Ainda mais sendo noite de 25 de dezembro.

Alguns carros passam pela avenida principal, e única, da cidade. Dentro do meu Escort, íamos eu, Pudim e Nego Ló, equilibrando nossos copos, em busca de um recanto afastado onde teríamos bebida gelada e mesa de sinuca desocupada. Áreas periféricas da cidade nos atraíam naquele dia, assim como formigas indo diretamente ao doce. E nada de bar aberto.

Chegamos a visitar o postão da rodovia. Nem bomba para abastecer o carro estava funcionando naquela pocilga cheia de crateras espalhadas pelo chão. A impressão era de que o pessoal da cidadezinha não precisaria mais ganhar dinheiro. “E daí que é Natal”, pensei.

O Bar do Coqueiro era nossa última esperança. Ficava na outra ponta da cidade, na saída que vai para o Sítio 50 Alqueires. A esperança é a última que morre. Morremos ali, no Bar do Coqueiro. Morri o Escort em frente.

Distraía-me sentindo o levedo daquela cerveja barata refrescar minha garganta enquanto assistia, de camarote, o Pudim dar uma surra no Nego Ló naquele tapete verde da sinuca que contrasta com o colorido das bolinhas enumeradas.

Um caubói alto e forte gesticulava e gritava num aparelho celular – última moda da pequena cidade. Um rapaz de olhos brilhantes e barbinha feita para o Natal tomava uma cerveja ainda mais barata que a nossa. Ele esmiuçava com a boca um canto baixinho, tentando seguir o compasso da música internacional e dance dos anos 80 que estava tocando no Microsystem do bar. Ele não sabia falar inglês, tampouco cantar.

A moça que cuidava do bar naquela noite de Natal não trabalhava ali normalmente. Aceitou cuidar da espelunca no período da noite por dez reais. O rapaz da barbinha perguntou a ela se sabia que dia era aquele. Ela disse “dia 25 ué”. E ele disse “mas o que significa?”. Ela retrucou “eu vou saber caramba”. O rapaz riu para a gente e ofereceu amendoim.

Pudim rebolava sua bunda gorda ao som da Sessão By Night enquanto me trucidava na sinuca. Nego Ló, que naquele dia não estava bebendo porque estava ingerindo remédios para controlar suas hemorróidas, esboçava um desejo de ir embora. Tomando devagar sua cerveja barata, o rapaz da barbinha parecia estar feliz porque provavelmente, quando fôssemos embora, namoraria a morena do Bar do Coqueiro.

Depois de cuspir no telefone celular, o caubói pegou seu capacete e foi embora. Alguns minutos, talvez mais de uma hora, escorreram do relógio enquanto nos divertíamos jogando sinuca, bebendo cerveja e dando altas risadas da mesa descaída do bar.

Chegara a hora de seguir em frente, com aquele Escort caindo aos pedaços. Duas notas de cinco reais, jogadas no balcão, pagaram toda nossa despesa. Antes de sair do boteco, dei uma olhadela para o rapaz da barba engraçada e também para a morena forte e de olhos claros. Os dois já flertavam e pareciam estar vivendo uma boa noite de Natal.

Já dentro do carro, com os dois amigos tranquilos da vida, percebi que o céu estava de um negrume só. Uma chuva fraca, mas persistente, insistiu em molhar todo o asfalto naquele feriado que cheira a consumo, briga de família e churrasco.

Despedi-me do Pudim e do Nego Ló já pensando que amanhã seria outro dia. Por força do hábito, desejamos um ao outro um feliz Natal, mesmo sabendo que todos os três ficaram quase o dia todo vendo a chuva cair nostálgicos e concluindo que os natais de antigamente eram bem mais felizes.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Notícias da prisão II*

Wilame Prado

Querida mãe: não repare e nem se preocupe com as gotas de sangue que mancharam esta folha branca de caderno. É que obriguei o Vinicius, o agente penitenciário aqui, o filho da mãe, a corrigir pelo menos mais uma carta antes de matá-lo. O canivete, aquele que a Carla conseguiu me entregar na visita, deixei bem escondidinho durante todo esse tempo, dentro do colchão. Nunca precisei usar. Agora, porém, ela espeta a garganta gorda do agente penitenciário. As gotas de sangue vêm daí. Mudando de assunto, como foi o churrasco, sem mim, hoje no almoço de Natal? A senhora deve ter ficado preocupada com minha falta, né? Mas vou explicar a história rapidinho, antes que o tumulto se instale aqui na gaiola. O fato é que, no dia 24 de dezembro, o Vinicius veio com um papo besta pro meu lado, dizendo que só deixaria eu te visitar caso eu ficasse com ele. Onde já se viu, mãe? O cara gosta de mim. Disse que me amava. E eu achando que era meu amigo, que estava me dando uma força neste momento difícil da minha vida. Filho da mãe. Me engordava com bolacha só pra me ver mais forte. Igual àquela história da bruxa que engorda as crianças com doces pra comê-las depois. Sacana. Quando ele veio com esse papo besta, quase que voei no pescoço dele. Ia esganá-lo ali mesmo, no pátio. Mas, como Deus é bom, me deu um sinal. Impediu que o demônio me estimulasse a praticar um ato não pensado. Vou explicar: bem na hora que estava armando um mata-leão pra cima do Vinicius, a bola de capotão dos caras que jogavam pelada veio em nossa direção com tudo, bateu em minha cabeça e me distraiu. Todo mundo riu. Fiquei fulo. O agente penitenciário já estava longe. Sabia do perigo que estava correndo. Aguardei o momento certo pra pegar a presa. Assim como um tigre na selva, que fica um tempão na moita, em posição de ataque, só esperando a hora H pra abocanhar seu almoço. Dei um tempo ao tempo. E foi exatamente nesta noite de Natal que consegui pegar o agentezinho sacana e bicha. Fiquei de papo pro ar na cela. Estava vazia. O pessoal foi tudo comemorar a merda do Natal. Quase nenhum funcionário estava trabalhando. Fiquei fazendo charminho pro Vinicius. Você conhece meu olhar matador, né mãe? A mulherada aí da cidade que o diga. Mas, enfim. O negócio é que agora estou com ele aqui do meu lado, todo mijado e cagado. Uma marica. Agora tem medo de morrer. Já me prometeu Deus e o mundo em troca da vida. Disse pra ele que, diferentemente do que ele disse uma vez, sou eu quem vai levá-lo pro céu. Ou pro inferno. Depende dos pecados desse puto. Vai saber o que já fez na vida, né mãe? Se eu matá-lo, pelo menos vou ser mais respeitado aqui na cadeia. O X-12 vai parar de me encher o saco, e talvez até vire meu brother. Confesso que estou tenso, mãe. Nunca matei. Por isso, fumo um cigarro antes do ato final. E pode esquecer a promessa que fiz pra senhora: nem a pau que vou parar de fumar em 2010. Ainda mais se eu matar um homem da lei. Vou sofrer igual cadela nas mãos dos outros agentes penitenciários. Apesar de que, pelo o que percebia, ninguém gostava muito do Vinicius. Um coitado. Bom. É isso mãe. Vou te poupar dos detalhes mais cabreiros. Agora, acho que vai demorar pra gente se ver. Quando trombar com a Josilaine, diga pra ela me fazer uma visitinha. Estou com saudade do cheiro de mulher. Já ia me esquecendo: o agente aqui, prestes a morrer, disse que forjou o teste de sangue. Disse que, na verdade, a porra do exame deu negativo. Deve ser mentira. Na hora da morte, a gente fica é muito louco, viu. Desculpe qualquer coisa aí, mãe. A vida é uma selva mesmo. Ainda mais dentro da prisão. Desejo um feliz Natal atrasado e uma ótima virada de ano. De seu filho querido, e agora fodido: Daniel.

*Conto publicado resumidamente dia 22 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sábado, 19 de dezembro de 2009

Notícias da prisão*

Wilame Prado
Querida mãe: nesta carta, quero dar uma boa notícia para a senhora comemorar no Natal. Creio que vai se perguntar, ao término da leitura, como consegui escrever bem, sem muitos erros ou rasuras. É que o Vinicius, agente penitenciário, amigão meu aqui dentro, entende pra caramba de texto. Ele corrigiu o que eu escrevi, na maior gentileza. Este meu brother passou num concurso disputado pra cuidar de preso e ganha quase três mil reais por mês. Quando sair daqui, vou estudar, mãe, pra ganhar dinheiro, cuidar de preso e dar uma cesta básica todo mês pra senhora. Mas, já ia me esquecendo da boa nova, né? Então. A senhora se lembra quando veio aqui na gaiola e me encontrou todo doente, fraco, pálido igual à parede aí de casa, sem forças nem pra levantar, né? Naqueles tempos, estava com uma baita moleza mesmo, além de não estar bem comigo mesmo. Acho que estava com aquela doença da vó, a tal da depressão. Não quis te contar, mas é que, naquela época, entrei numa pira muito grande comigo mesmo. É que tem um cara filho da p. (o agente não deixou eu escrever palavrão) aqui no meu pavilhão, o X-12, que encasquetou dizendo que eu era baitola. Só porque sou polaco, de olho azul e magricela. O cara queria me fazer de mulherzinha de qualquer jeito. Um dia, X-12 mais seus trutas, o Cabecinha e o Marola, fizeram uma enrascada, não tendo como escapar da putaria. Dá arrepio só de lembrar da nojeira. Estou com muita vergonha de te contar isso. Não dá pra senhora ver, mas estou até chorando e minhas lágrimas caíram no papel da carta, fazendo com que tivesse que escrever outra, tudo de novo, porque a tinta azul da minha caneta Bic se desfez junto ao branco da folha. Virou um borrão só. Como enrolo, né mãe, pra contar a boa nova? O fato é que hoje, perto do Natal e do fim do ano, tomei coragem e resolvi fazer um exame de sangue, aconselhado pelo meu irmão aqui, o agente penitenciário. Juro que agora vou contar a boa notícia, meu presente de Natal para a senhora: meu exame deu negativo, mãe! Não peguei nada nesta cadeia nojenta, cheio de pessoas ruins. Tem gente boa aqui também, mas tem muito cara que já abandonou a vida e vive num inferno. E o inferno, para eles, é esta cadeia. Estou limpo, mãe! Isso me fez respirar melhor e aproveitar os banhos de sol como se fossem os últimos e os primeiros. Até voltei a frequentar o culto – pode contar pra vó e pras tias. Ainda não consegui largar o cigarro. Mas isso é uma das metas pra 2010. Ganhei, inclusive, uns quilinhos a mais. É que o Vinicius, quase todo dia, me descola um chocolate ou uma Passatempo recheada. O cara é gente fina. Com todo esse meu otimismo, parece que fiquei forte, mãe. Corajoso, sabe? Até parece que li aqueles livros de autoajuda, que tanto a Alice insiste para que a senhora leia. Por isso, resolvi que, de qualquer jeito, vou visitar a senhora neste Natal e Ano Novo. Estou limpo e forte! E o meu irmão aqui, o Vinicius, já está mexendo numas papeladas pra eu sair numa boa. E ele disse que, mesmo que não seja legalizado, vou conseguir sair de qualquer jeito no Natal, nem que for meio nas escuras, sabe? Ele tem moral aqui, mãe. Vai arrumando o quarto, encomenda ponta de costela, asinha de frango e linguiça toscana no açougue do Dutra, pegue emprestado a churrasqueira com o Zé e me aguarde pro churrasco. Ajeite também aquele colchão e aquela almofada, pois vou levar visita. Meu camarada, o Vinicius, perguntou se poderia passar o final de ano com a gente. Diz que faz questão de te conhecer. Mas pode ficar tranquila. O cara é gente fina. A senhora verá. Só achei meio esquisito no dia em que ele falou que me achava bonito. Mãe: homem pode dizer que acha outro homem bonito? Não mostrei esta parte da carta pra ele. Só mais uma coisa: para o festejo de final de ano, vê se não vai chamar aquela vadia da Carla e nem a trambiqueira da Josilaine, viu? Meu camarada aqui está dizendo que é perigoso a mulherada ficar sabendo que eu saí da cadeia. É que elas podem me dedurar para os caras que estou devendo, lá do Mutirão. Bom, é isso. Então, até daqui uns dias, mãe. O Vinicius, a pessoa que vem me salvando deste inferno com grades, manda um abraço. E por falar em inferno, lembrei do dia em que ele disse que me levaria para o céu. Esse cara é um brincalhão mesmo. De seu filho querido: Daniel.
*Crônica publicada resumidamente dia 15 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sumiço*

Wilame Prado

Nos momentos finais da faculdade, ele começou a sumir. O grupo de colegas de sala nem notou esse início de retirada social. O processo de desaparecimento foi acompanhado de algumas atitudes até então inéditas tomadas por ele. A começar pelo abandono de alguns vícios. No Espetinho do Zé, comemorando a nota máxima tirada na banca final, doou a última cartela de Marlboro para o companheiro ao lado.


No apartamento dele, ao contrário do que acontecia com frequência nos últimos meses, a entrada de refrigerante estava irrevogavelmente proibida. Ao olhar a barriga, que tomava formas astronômicas de uma maneira vertiginosa, restou a ele apontar um bode expiatório. Para não passar no seco, virou um voraz consumidor de água com gás.

Assim como o contrato de trabalho, as aulas finalmente chegaram ao fim. Estava formado e desempregado. Que beleza! Com um canudo debaixo do braço, atestando que passou quatro anos da vida participando de um suspeito ciclo universitário, ele simplesmente preferiu não visitar o mercado de trabalho.

Encostou-se confortavelmente em uma poltrona velha de seu lar. Foi lá que conheceu o ócio não criativo. Foi lá que permaneceu intacto quando o telefone ou a campainha tocaram algumas vezes. Foi lá que, antes de tacar o notebook na parede, desligou-se de todas as redes sociais e banais que participara até então. Esboçou até um refrão: “Orkut: até mais ver/ Twitter: já vai tarde/ Email: não te quero mais/ Blogue: vai ver se estou na esquina”.

Sabia que não demoraria muito para que o nome dele caísse no limbo do esquecimento eterno, amém.Comprovou isso com a diminuição das ligações telefônicas de parentes e amigos. Passado algum tempo, quebrou também os telefones e deixou de pagar as contas para que os serviços fossem cortados.

Quando já não havia mais possibilidade alguma de conviver naquele lar -agora, imundo, escuro e sem mantimentos alimentares -, ele simplesmente o abandonou. Era madrugada. Era calor. Era ele e mais ninguém pelas ruas simpáticas de Maringá. Caminhou alguns quilômetros sem sentir, uma vez se quer, vontade de olhar para trás.

Errante, mas nem tanto, algo o levou até o terminal rodoviário. Talvez fosse a sede. Comprou uma garrafa de água com gás. Meio que inconsciente, viu-se comprando também um bilhete, só de ida. Meio que sem pensar, entrou em um ônibus e rumou para algum Norte. Meio que sem refletir, esboçou um tímido tchau quando o veículo passou ao lado da Catedral.

Agora, está sozinho e olhando pela janela a paisagem de cores formada pelo verde da soja, pelo branco do gado e pelo vermelho da terra. Tenta entender o motivo de seu sumiço. No sacolejar daquele ônibus, rodeado de pessoas feias e estranhas, admite para si a verdade: antecipou-se escolhendo ficar sozinho porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, todos o abandonarão de uma maneira tênue, sufocante e extremamente triste.
Crônica publicada dia 8 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ouço Otto; penso em Alessandra*

Wilame Prado


Acho que todos nós, pelo menos em algum momento da vida, sentimos-nos nojentos, asquerosos, rejeitados e até odiados pelos outros – assim como insetos.

Fico pensando que o músico Otto viveu na pele a insignificância de um inseto ao abrir os jornais e ler notícias (ou fofocas) de que, na época, sua mulher, a atriz Alessandra Negrini, beijara o bonitinho do Bruno Gagliasso ou se encontrara com o bonitão do Fábio Assunção.

É. Deve ter doído mesmo. Mas, também, pudera. Olha com quem ele foi querer mexer! Alessandra Negrini é a mulher mais espetacular que já vi na telinha. A morena é linda, e parece saber exatamente o que fazer para deixar qualquer moço a seus pés.

Tentando (não conseguindo jamais) esquecer da Engraçadinha da Alessandra, falemos um pouco das mazelas dessa vida. Penso que os sofrimentos não são em vão, ainda bem. Corriqueira, a vida é. Verdade.

E muitos artistas só conseguem produzir coisas profundas quando estão tristes ou solitários. É assim que se consegue enxergar o amargo da rotina, do dia pós dia, da completa repetição de fatos e transformar tudo isso em beleza – seja na literatura, no cinema, nas artes plásticas, no teatro, enfim.

Otto, que parecia estar vivendo um pesadelo sem tamanho, finalmente acordou. Acordou sim, mas, provavelmente suado e ainda com a imagem de Alessandra (eu avisei que não conseguiria esquecer) ao seu lado, “bem junto/na cama/de um quarto de hotel” – trecho de uma das mais emocionantes canções de seu último CD, o maduro e bonito “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”.

O inseto arretado e pernambucano Otto acordou, sim. Comprovo isso em outro trecho da canção: “Nasceram flores num canto de um quarto escuro/Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Para a alegria de quem já curtia suas músicas e não aguentava mais esperar o lançamento de um novo trabalho, finalmente as flores musicais de Otto renasceram.

O músico acordou, fez um gargarejo com folhas de romã e está com uma bela voz. E não pensem que seus sonhos intraquilos abalaram, por exemplo, seu sotaque marcante de nortista ou o gosto pelo brega. O poeta Otto saiu do casulo, minha gente. Está na praça de novo. E transformou todo seu sofrimento do passado num dos melhores discos nacionais do ano de 2009.

Muitos não curtem os trabalhos anteriores de Otto por achar experimentalistas demais. Eu era um deles. Pois eu digo que, agora, em “Certa manhã acordei de sonhos intraquilos”, já com 41 anos de idade, Otto acertou o alvo e soube trabalhar bem com suas possibilidades.

Fazia tempo que não chorava ouvindo música e prestando atenção na letra. Devo ter ouvido mais de cinquenta vezes as faixas “Crua” e “6 minutos” do CD. Nesse prazer de ouvir as canções de Otto, continuo chorando, emocionado, agradecido e, indubitavelmente, pensando em Alessandra Negrini.

*Crônica publicada dia 1 de dezembro na coluna Crônica, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://imagem.vilamulher.terra.com.br/interacao/original/80/alessandra-negrini-e-otto-mais-um-casal-desfeito-80-126.jpg